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    NotíciaInfraestrutura e hardware

    DeepSeek abre o código do DeepInfer, o motor que roda o V4.1-Flash

    A DeepSeek publicou sob licença Apache 2.0 o DeepInfer, software que roda o V4.1-Flash em produção. O código chega sem peças importantes e foi feito para dezenas de GPUs de ponta.

    Técnico encaixa placas de GPU numa bandeja de servidor com oito aceleradores, com um slot vazio em primeiro plano, sob luz fria lateral
    O DeepInfer, motor que roda o V4.1-Flash em produção, foi aberto sob licença Apache 2.0, mas chega incompleto e exige dezenas de GPUs de ponta.
    Neste artigo

    Na terça-feira (20), a chinesa DeepSeek (abre em nova aba) publicou no GitHub o código do DeepInfer (abre em nova aba). É o programa que a empresa usa para atender, em escala industrial, quem conversa com o seu modelo DeepSeek-V4.1-Flash. A licença é a Apache 2.0, uma das mais generosas do software livre: qualquer um pode baixar o código, alterá-lo, embuti-lo num produto e cobrar por isso. Na quarta-feira, a página já exibia 13,8 mil estrelas e 1,3 mil cópias derivadas.

    Para medir o gesto, convém separar as duas contas da inteligência artificial. Treinar um modelo é a obra: cara, demorada, feita uma vez. Rodá-lo, o que o jargão chama de inferência, é a despesa de todo dia, paga a cada pergunta de cada usuário. É nessa segunda conta que se decide se quem vende IA ganha ou perde dinheiro. Por isso, quem tem um motor eficiente costuma ter bons motivos para guardá-lo a sete chaves.

    A DeepSeek fez o contrário e embrulhou a decisão numa causa. No anúncio oficial, publicado no X, a empresa apresentou o DeepInfer como a peça que sustenta seu serviço em produção. Justificou a abertura com três palavras que agradam a qualquer plateia: custo, energia e preço.

    Engenheira, de costas, anota em uma prancheta a leitura de um medidor de energia instalado ao lado de um rack repleto de GPUs, sob luz fria em um corredor de data center.
    O DeepInfer foi projetado para rodar em dezenas de GPUs de ponta, o que limita seu uso fora de grandes centros de dados.

    Apresentando o DeepInfer, nosso framework de inferência interno, agora totalmente open source! Movendo o DeepSeek-V4.1-Flash em escala, com alta vazão e baixa latência. Estamos compartilhando nossa pilha de produção para ajudar a comunidade a reduzir custos de computação, diminuir o uso de energia e tornar a IA mais barata.

    — DeepSeek (@deepseek_ai), 20 de out. de 2026, no X

    O "totalmente" tem asterisco

    O próprio repositório desmente o advérbio, porque ficaram de fora três peças. A primeira é o sistema de cache, a memória que evita recalcular o que o modelo já leu. A segunda é a separação entre a etapa que lê a pergunta e a que escreve a resposta, que a DeepSeek opera em grupos distintos de máquinas. A terceira é a distribuição de carga entre várias cópias do sistema. A empresa ressalva que boa parte do necessário para aquela separação já está no código. Os músicos estão lá. Falta o maestro.

    Há outro detalhe, contado pela própria DeepSeek num documento de perguntas e respostas do repositório, segundo o MarkTechPost. A versão interna do FlashMLA, uma das rotinas que fazem o cálculo pesado, é de 5% a 10% mais rápida que a publicada. No resultado final, a empresa estima a diferença em 5% ou menos. É o motor de produção, sim, com uma marcha a menos.

    Os números da casa

    O mesmo documento traz números que valem pelo atrevimento de publicá-los. A unidade de conta é o token, o pedaço de palavra com que o modelo trabalha. Os testes usaram textos de 131.072 tokens, com 4 GPUs na leitura das perguntas e 64 na geração das respostas.

    O que a DeepSeek informaNúmero
    Tokens servidos por um único cluster, por dia155 trilhões
    Receita por hora de cada GPU, na tabela mais barata (horário de vale)US$ 38
    Geração de resposta, por GPU, com 256 pedidos por unidademais de 25 mil tokens/s
    Velocidade sentida por cada usuário nesse cenárioperto de 100 tokens/s
    Velocidade por usuário com só 8 pedidos simultâneosmais de 300 tokens/s
    Leitura de perguntas, por GPUcerca de 60 mil tokens/s

    Tudo isso é autodeclarado. Ninguém de fora mediu. Ainda assim, uma empresa que expõe a própria receita por hora de máquina está dizendo ao mercado que inferência, para ela, já é negócio, e não caridade financiada por investidores.

    Não é para o seu notebook

    Agora, a conta de quem pretende usar o DeepInfer. A menor unidade de produção eficiente, diz a DeepSeek, reúne 64 GPUs para ler perguntas e outras 64 para escrever respostas. O código exige Linux e placas Nvidia de data center da geração SM100 ou chips Ascend 950 da Huawei. É ferramenta para provedores de nuvem, grandes empresas e laboratórios. O usuário comum só ganha por tabela, se a concorrência baratear o serviço que ele compra.

    Quem ganha de saída é o ecossistema que deu origem ao programa. A DeepSeek reconhece que o DeepInfer nasceu sobretudo do vLLM (abre em nova aba), projeto aberto de execução de modelos, com ideias de outros dois, o SGLang e o TensorRT-LLM. O vLLM agradeceu o crédito no X e avisou, segundo o The Next Web, que vai melhorar o próprio suporte ao V4.1-Flash com ideias tiradas do DeepInfer. O que saiu do condomínio voltou ao condomínio, reformado.

    A Huawei na mesma página da Nvidia

    O detalhe mais político está na lista de equipamentos. Pôr o chip chinês ao lado da Nvidia não foi acaso. No mês passado, informou o Quartz, a DeepSeek anunciou parceria com a Huawei para criar ferramentas de programação para os Ascend. Na mesma ocasião, abriu seis módulos de software para a plataforma, entre eles uma versão do TileLang adaptada ao 950. O tratamento, porém, ainda não é igual. Os dois recursos que fazem o modelo devolver exatamente o mesmo resultado para a mesma entrada estão documentados só para Nvidia.

    O repositório tem três registros de alteração, nenhuma versão oficial e suporta um único modelo. A DeepSeek promete que modelos futuros e melhorias chegarão ao mesmo endereço. Por enquanto, é mais vitrine do que produto acabado. Mas é uma vitrine com etiqueta de preço: quem cobra caro para rodar IA passou a concorrer com um manual gratuito escrito por uma empresa que diz servir 155 trilhões de tokens por dia num só cluster.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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