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    NotíciaSociedade e regulação

    Contas no TikTok usam IA para forjar policiais assediando mulheres em abordagens reais

    Perfis no TikTok usam IA para adulterar gravações reais de prisões, tiradas de reality shows, e mostrar policiais beijando e apalpando pessoas detidas. O TikTok removeu os exemplos apontados pela imprensa.

    Mulher algemada encostada em viatura policial à noite, iluminada por luzes vermelhas e azuis, enquanto um cinegrafista registra a abordagem
    Gravações reais de prisões exibidas em reality shows têm sido adulteradas para simular policiais assediando detidas
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    Uma mulher é parada pela polícia, algemada e encostada numa viatura. A cena aconteceu e foi filmada. Ao que tudo indica, foi ao ar em reality shows americanos como "D.U.I.", do canal TLC. O que veio depois não aconteceu. No TikTok, perfis que vivem de audiência passaram a usar inteligência artificial para adulterar essas gravações e mostrar os policiais beijando e apalpando as pessoas detidas. Na maioria, mulheres. Em alguns casos, homens.

    As montagens foram identificadas pela empresa Copyleaks (abre em nova aba) e reveladas na quarta-feira (21) pela repórter Maggie Harrison Dupré, do site Futurism (abre em nova aba). São deepfakes, nome dado aos vídeos falsificados por IA para parecerem verdadeiros. Os autores pertencem a uma espécie que prospera nas redes, os "fazendeiros de engajamento". São contas que produzem conteúdo em série para colher visualizações, curtidas e compartilhamentos. Para eles, a qualidade da semente pouco importa, desde que a colheita venha.

    A gravação verdadeira como fiadora

    O método é simples, e por isso funciona. O trecho falso, com o beijo ou o toque sexual, aparece primeiro. Em seguida entra o vídeo mais longo da abordagem, este autêntico. A pessoa detida surge algemada, ao lado, dentro ou contra o carro da polícia. Quem assiste recebe a mentira e, logo depois, a verdade que lhe serve de avalista. A cena real empresta à inventada a credibilidade que ela não tem.

    Mulher algemada encostada no capô de uma viatura policial à noite, iluminada por luzes azuis e vermelhas da sirene, enquanto um cinegrafista registra a abordagem
    Gravações de prisões exibidas em reality shows policiais foram adulteradas por perfis no TikTok para simular assédio de agentes contra mulheres detidas

    Há um detalhe que piora tudo. Em alguns vídeos, quem é beijado e apalpado aparece sorrindo. A máquina não se limitou a fabricar o assédio. Fabricou também a aparência de consentimento, numa situação em que a pessoa está algemada e sob custódia. É uma cena sexual montada com o rosto de alguém que nunca foi consultado.

    O cofundador e executivo-chefe da Copyleaks, Alon Yamin, classificou o caso como "um exemplo perturbador de como ferramentas de IA estão sendo usadas para criar versões deepfake de conteúdo real para gerar atenção e engajamento nas redes sociais". E completou: "É importante lembrar que esses vídeos mostram pessoas reais, tanto policiais quanto cidadãos, que estão sendo retratadas fazendo coisas que nunca aconteceram. Isso é preocupante para todos que aparecem e estão envolvidos."

    A frase de Yamin tem o mérito de lembrar que a vítima é dupla. O policial que surge apalpando uma detida também existe, usa farda e não fez nada daquilo. A montagem difama quem prende e humilha quem é preso, de uma só vez.

    O aviso que não avisa

    Parte dos vídeos informa que houve uso de IA e traz uma ressalva: o material seria "apenas para entretenimento, sem implicação danosa". É o tipo de advertência que protege quem publica, não quem aparece. A mulher algemada não assinou aviso nenhum.

    Procurado pelo Futurism, o TikTok (abre em nova aba) removeu os exemplos que a reportagem apontou e citou suas diretrizes sobre a rotulagem clara de conteúdo realista gerado por IA. A resposta tem dois problemas. O primeiro é que a limpeza foi feita sob encomenda: saiu o que a imprensa mostrou, e nada se disse sobre o resto. O segundo é que a regra invocada trata de rótulos, e alguns desses vídeos já vinham rotulados. Etiqueta não devolve a ninguém o controle sobre a própria imagem.

    Uma família de abusos que já tem nome

    O caso não é raio em céu azul. Num texto publicado em 20 de outubro pelo Youth Endowment Fund, entidade britânica, o pesquisador Chad Hemady trata de abusos envolvendo crianças. Ele separa o material totalmente sintético, inventado do zero, das imagens reais alteradas com IA. As prisões adulteradas do TikTok envolvem adultos, mas seguem a lógica da segunda categoria: partem de algo que existiu de verdade, e é isso que as torna convincentes.

    O mesmo texto lembra que usuários do Grok podiam enviar fotos comuns de mulheres e crianças e pedir à ferramenta que as "despisse". Em apenas 11 dias, segundo a estimativa citada por Hemady, a produção incluiu cerca de 23 mil imagens sexualizadas que pareciam retratar crianças. Ferramentas assim, escreve ele, permitem fabricar esse tipo de material em escala, com pouca habilidade técnica. É a combinação que interessa a quem vive de volume.

    No Reino Unido, a polícia lista o abuso de imagem íntima entre os exemplos de deepfake ilegal. Caberá a advogados e tribunais dizer se os vídeos do TikTok se enquadrariam nessa ou em outra lei. Por ora, o que tirou alguns deles do ar foi uma reportagem.

    A pessoa algemada ao lado da viatura teve um dia ruim, e alguém o filmou. A inteligência artificial agora o reprisa com cenas que ele não teve. E um aviso garante que não há implicação danosa.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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