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    NotíciaSociedade e regulação

    Cofundador da Anthropic diz ao FMI que a singularidade da IA já começou

    Em Bangkok, Jack Clark afirmou que há evidências convincentes de que a singularidade começou. Ele pediu regras internacionais e citou uma projeção interna que leva o PIB dos EUA a US$ 44 trilhões até 2030.

    Palestrante discursa em um púlpito iluminado diante de uma plateia em um auditório de conferência internacional, com luz suave de palco
    Em Bangkok, durante as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, Jack Clark defendeu regras internacionais diante de formuladores de políticas econômicas
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    Jack Clark, cofundador da Anthropic (abre em nova aba), falou no sábado (17) nas reuniões anuais do FMI (abre em nova aba) e do Banco Mundial, em Bangkok. Para uma plateia de formuladores de políticas públicas, ele defendeu algo que até pouco tempo atrás só aparecia em ficção científica: a singularidade começou. "Acredito que, neste ano, obtivemos evidências convincentes de que ela agora começou", disse, segundo o texto do discurso que publicou na sua newsletter, a Import AI.

    Quem disse isso não foi um influenciador em busca de cliques. Clark é cofundador da empresa que faz o Claude, um dos sistemas de IA mais usados do mundo, e escolheu como público as pessoas que desenham políticas econômicas. O momento também pesa. Segundo a Reuters, a Anthropic se prepara para abrir capital na bolsa em novembro, numa oferta que pode avaliar a empresa em até US$ 2 trilhões.

    O que ele quer dizer com "singularidade"

    A palavra assusta, então vale entender o sentido que Clark deu a ela. Ele lembrou que o escritor Vernor Vinge previu esse momento em 1993. Em seguida, resumiu o que considera a consequência mais importante: "nos próximos anos, devemos esperar que todo o ritmo de progresso, não só da IA, mas da ciência como um todo, acelere".

    Homem de terno discursa em um púlpito sob a luz de um auditório, visto de longe e de lado, diante de uma plateia em silhueta
    Em Bangkok, Jack Clark disse ao FMI que a singularidade tecnológica já começou e defendeu regras internacionais para o setor.

    Ele também avisou que a transição não será confortável. Nas palavras dele, isso "vai parecer confuso e desorientador, e trará consigo grande riqueza e, potencialmente, grande perigo".

    Há uma diferença de ênfase que o leitor deve notar. No texto publicado por Clark, a singularidade aparece como uma aceleração do progresso científico, puxada por uma IA que, segundo ele, começa a operar na fronteira da ciência humana, às vezes de forma autônoma. A Reuters descreveu a mesma ideia como um cenário em que o desenvolvimento da IA ultrapassa o controle humano. As duas leituras não se contradizem, mas a segunda é a que vira manchete.

    As provas que ele levou ao palco

    Para sustentar a tese, Clark usou números de provas padronizadas que pesquisadores aplicam aos modelos de IA para medir o que eles conseguem fazer. Essas provas foram criadas para ser difíceis e para durar anos.

    ProvaLançamentoMelhor nota no lançamentoMelhor nota agora
    Exame citado por ClarkJaneiro de 20258%67,7% (Claude Opus 5.5)
    FrontierMath (matemática)Novembro de 20242%94%

    Em menos de dois anos, uma prova de matemática feita para resistir às máquinas passou de quase intocada a praticamente resolvida. O outro exame saiu de 8% para 67,7% em cerca de 21 meses. O líder atual, segundo Clark, é o Claude Opus 5.5, modelo da própria Anthropic.

    Os números impressionam, e minha leitura é que eles sustentam bem a parte "o progresso está acelerando" do argumento. Eles sustentam menos a parte "a singularidade começou". Tirar nota alta numa prova mostra que a IA responde bem a perguntas difíceis. Não mostra, por si só, que ela já está fazendo ciência nova sozinha. Para essa afirmação mais forte, Clark se apoia no que vem acompanhando na newsletter ao longo do ano. Ele próprio reconhece a margem de dúvida: "podemos discordar nos detalhes", escreveu, antes de dizer que lhe parece evidente que estamos nos estágios iniciais da singularidade.

    O número que ele mesmo chamou de exagerado

    A parte econômica do discurso foi a mais chamativa. Segundo a Reuters, Clark contou que um dos modelos internos da Anthropic projeta que, sob certas condições, a IA poderia aumentar a produção econômica dos Estados Unidos em quase 50% até 2030. O PIB americano chegaria a US$ 44 trilhões, contra pouco mais de US$ 30 trilhões hoje.

    "Parece muito exagerado, eu sei", admitiu Clark. Ele explicou que a projeção pressupõe "que a tecnologia continue melhorando". Acrescentou que, se o PIB crescesse tanto, a teoria econômica indica que novas indústrias e invenções precisariam ter sido criadas para sustentar uma expansão desse tamanho.

    Esse detalhe importa. A cifra de US$ 44 trilhões não descreve só máquinas trabalhando mais rápido. Ela pressupõe uma onda de invenções e setores que ainda não existem. E vem de um modelo da Anthropic sobre o impacto da tecnologia que a própria Anthropic vende, com condições que não foram detalhadas no relato da Reuters. Faz sentido tratar o número como cenário, não como previsão.

    O recado político foi direto. Clark afirmou que é preciso cooperação internacional para criar "regras incomuns e sérias" para a tecnologia. Também disse que a janela para os formuladores de políticas agirem está encolhendo.

    Aqui o discurso fica interessante. Uma empresa a semanas de uma possível abertura de capital tem todo incentivo para dizer que sua tecnologia vai mudar o mundo. Uma frase como "a singularidade chegou" ajuda a sustentar uma avaliação de US$ 2 trilhões. Ao mesmo tempo, não é comum um executivo nessa posição pedir a governos regras que ele próprio chama de "incomuns". Os dois fatos convivem no mesmo discurso. Acho razoável levar o alerta a sério sem esquecer quem está falando e em que momento.

    O que muda para você

    Na prática, o discurso não altera nada no seu celular amanhã. Ele muda a forma de ler o que vem pela frente.

    • "A IA não consegue fazer isso" tem prazo de validade curto. Se uma prova feita para durar anos foi quase resolvida em menos de dois, aquela tarefa em que o assistente de IA falhou no começo do ano pode já funcionar hoje. Vale testar de novo as ferramentas a cada poucos meses.
    • O debate sobre regras deve esquentar. Quando a própria empresa que desenvolve a tecnologia pede regras internacionais diante de quem faz política econômica, o tema deixa de ser assunto só de especialistas.
    • Separe a tese do barulho. No texto de Clark, "singularidade" significa a ciência acelerando com ajuda da IA. A versão de robôs fora de controle é a interpretação mais dramática, e o discurso fala dela como risco, não como fato consumado.
    • Leia projeções com a fonte ao lado. Os números das provas são medições públicas. Já o PIB de US$ 44 trilhões é uma estimativa interna e condicional de uma empresa prestes a ir à bolsa.

    O placar mais confiável do discurso é o das provas, e ele subiu rápido. A projeção para 2030 ainda precisa ser confirmada pela própria economia.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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