Adam Mosseri foi a um podcast para divulgar uma novidade e saiu de lá com uma previsão sombria. O chefe do Instagram (abre em nova aba) participou do programa Colin and Samir para falar dos vídeos longos e na horizontal que a plataforma começou a testar. Perguntaram a ele sobre inteligência artificial e sobre a onda de universitários que vaiam executivos de tecnologia em formaturas. Ele não tentou dourar a pílula. Reconheceu que muita gente realmente não gosta de IA, e não só os jovens ou os artistas.
"Não está só piorando, vai continuar piorando. Acho que vamos ver mais frustração e raiva, parte com fundamento, parte sem, nos próximos dois anos, e isso vai tornar as coisas difíceis para muita gente, não só no setor."
Segundo Mosseri, a tendência é de "mais ansiedade, mais frustração e mais raiva" em relação à IA, sobretudo nas indústrias criativas. Não é o tipo de frase que se espera de quem vive de distribuir conteúdo, inclusive o feito por IA. A franqueza merece registro. O que ele diz em seguida merece mais atenção ainda.

O diagnóstico que ele escolheu
Quando lista o que preocupa as pessoas, Mosseri é preciso. Fala do medo de perder o controle sobre o próprio conteúdo e de ver modelos de IA treinados com esse material. Cita questões de segurança e o receio de ser substituído no trabalho, seja como criador de conteúdo, engenheiro ou matemático. Na hora de resumir, porém, junta tudo numa frase só: numa conversa franca, diz ele, o que aparece no fundo é "um medo de ficar para trás de alguma forma".
É uma leitura confortável para quem comanda uma plataforma. "Medo de ficar para trás" transforma uma reclamação em ansiedade pessoal, algo que se resolve com adaptação e atualização. Só que os itens da própria lista dele não são estados de espírito. Ter o trabalho copiado é um fato concreto, e o Instagram tem exemplos recentes disso.
O caso dos comediantes copiados
Neste mês, segundo reportagem da Wired repercutida pelo Futurism, ganhou força no Instagram um tipo de conta de IA que pega números de comediantes reais e os recria em vídeos manipulados. O humorista some e entra no lugar uma personagem artificial, em geral uma mulher jovem de corpo exuberante que direciona o público para páginas no OnlyFans. O comediante George Brett Olson publicou um vídeo mostrando como uma dessas contas, com mais de 300 mil seguidores, copiou suas piadas e até a roupa que ele usava.
Mosseri respondeu nos comentários. Disse não achar "prático" banir conteúdo de IA da plataforma, porque ele vai ficar "cada vez mais difícil de identificar". Acrescentou que "nem todo é ruim (embora, sim, haja muito slop)". Slop é o termo em inglês para a enxurrada de conteúdo de IA barato e repetitivo. Ele afirmou que o Instagram quer levar mais audiência a criadores originais e que, se uma conta de IA copia conteúdo inteiro, seria bom descobrir o que fazer. "Não sei o que seria", admitiu.
Pouco depois veio outro caso, desta vez com a obra de um artista visual. Mosseri escreveu no Threads (abre em nova aba): "Estou muito preocupado com essa tendência. Estamos trabalhando ativamente para descobrir o que fazer; é só um problema complicado."
A raiva que ele prevê tem, portanto, bastante fundamento. E parte dela nasce dentro do produto que ele dirige.
O que o Instagram faz por enquanto
As medidas existem, mas andam devagar. A plataforma lançou neste ano um selo para contas de IA e, em agosto, começou a apertar o cerco contra perfis gerados por IA. Segundo Mosseri, agora passa a exigir que essas contas se identifiquem, "porque achamos importante que as pessoas saibam se o que estão vendo é real ou não". Conteúdo enganoso, como deepfakes de celebridades, continua sendo um problema, segundo o The Verge.
Mosseri também falou do algoritmo, o sistema que decide o que aparece no seu feed. Segundo ele, os sinais que mais pesam são o tempo assistido, as curtidas e os envios para amigos. Ele afirmou que o Instagram não trata criadores de IA de forma diferente, mas fez uma admissão curiosa: "Tem muito conteúdo ótimo de IA por aí, também tem muito slop. Nós ranqueamos o conteúdo de IA tão bem quanto o que não é de IA? Provavelmente não." Ou seja, hoje o freio depende da qualidade percebida, sem uma regra explícita. Ele ainda reclamou que a palavra "slop" é usada "de forma liberal demais".
Uma previsão de quem não é só observador
Mosseri provavelmente acertou. O problema é que ele não está apenas assistindo. O Instagram decidiu não banir conteúdo de IA e ainda não sabe como proteger quem é copiado. Nesta mesma semana, a empresa começou a testar, com criadores selecionados, vídeos de até 90 minutos, como podcasts, entrevistas e shows de comédia. É o mesmo tipo de material que já vem sendo clonado, num formato ao qual o próprio Mosseri diz ter resistido por muito tempo.
"É um problema complicado" descreve a situação, mas não resolve nada. Para quem vê o próprio trabalho reaparecer com outro rosto e outra conta faturando, o medo não é de ficar para trás. É de ser copiado sem levar nada por isso.


