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    NotíciaEducação e carreira

    Chefe acadêmico de Dartmouth escreveu contra a cola com IA e sai por usar IA sem avisar

    Santiago Schnell publicou no Washington Post um artigo sobre cola com IA nas universidades. Um comitê concluiu que ele usou IA sem declarar, inclusive nesse texto, e ele renunciou.

    Mãos de membros de um comitê acadêmico examinam páginas impressas sublinhadas em vermelho ao lado de um manual de ética sobre uma mesa de madeira, enquanto um acadêmico encaixota livros ao fundo em um gabinete clássico.
    Comitê universitário investigou o uso não declarado de ferramentas automatizadas em textos publicados por Santiago Schnell, levando à sua renúncia.
    Neste artigo

    Em 9 de agosto, o químico Santiago Schnell publicou no Washington Post (abre em nova aba) um artigo intitulado "As universidades estão combatendo a cola com IA. Mas há um problema mais profundo". Schnell era provost do Dartmouth College (abre em nova aba), nos Estados Unidos, ou seja, o responsável pela vida acadêmica da instituição. Na quarta-feira (28), ele deixou o cargo. Um comitê de professores concluiu que ele usou inteligência artificial sem declarar, e um dos textos em questão era justamente aquele artigo. O jornal exige que o autor garanta que o conteúdo "não foi criado nem manipulado com inteligência artificial ou software de edição".

    A conclusão do comitê é dura. Segundo o relatório, Schnell usou IA para "alterar de forma significativa" seus textos, violando a regra de pelo menos uma publicação. Também descumpriu "de forma clara" a política de um jornal nacional, não foi transparente sobre o uso e ficou abaixo dos padrões do código de ética da universidade e do seu Princípio de Honra Acadêmica. A presidente de Dartmouth, Sian Leah Beilock, informou que ele renunciou e está deixando a universidade. "Foi uma decisão dele", escreveu. Segundo o site Inside Higher Ed, a saída veio a menos de duas semanas de uma votação de desconfiança que lideranças do corpo docente marcariam contra ele.

    O que os registros mostraram

    Beilock montou o comitê em 25 de setembro. A presidência coube a David Kotz, ele próprio ex-provost de Dartmouth. Um antigo ocupante da cadeira julgou o atual. O grupo analisou o que Schnell publicou desde julho de 2025, quando assumiu: pelo menos 30 textos, com outros sete a caminho.

    Professores seniores de rostos não identificáveis examinam dezenas de artigos impressos e grifados com caneta vermelha sobre uma mesa de madeira em uma sala de reuniões tradicional iluminada por luz natural, com outra pilha de documentos ao
    Comitê acadêmico de Dartmouth analisou dezenas de artigos e manuscritos de Santiago Schnell durante a investigação sobre autoria.

    O comitê registrou "cooperação insuficiente". Schnell entregou o laptop da universidade, mas não os históricos de suas contas pessoais em chatbots, e não aceitou se reunir com os avaliadores. Mesmo assim, os registros do Claude (abre em nova aba) institucional, a versão que Dartmouth oferece a seus funcionários, bastaram. Eles mostram que Schnell usou a ferramenta para "editar substancialmente" um artigo de cinética química, corrigir erros de código e gerar figuras. O artigo saiu em 16 de setembro na revista ChemSystemsChem, da editora Wiley (abre em nova aba), sem a declaração de uso de IA que a editora exige desde pelo menos dezembro de 2023.

    Há detalhes que dispensam comentário. Depois de os revisores pedirem mudanças grandes no artigo, Schnell perguntou ao Claude se havia algum problema científico que impedisse a submissão. Pediu ainda que o Claude conferisse uma resposta aos revisores que havia sido escrita pelo ChatGPT (abre em nova aba). Num outro manuscrito, sobre liberdade acadêmica em universidades católicas, ele fez uma pergunta direta à máquina: "Há muitas marcas de escrita por IA neste artigo?"

    A versão do ex-provost

    Ao site Semafor, Schnell disse ter usado o ChatGPT no artigo do Post para "refinar alguns argumentos, checar erros gramaticais e enviá-lo". Ao editor da revista científica, afirmou que usou a IA "como ferramenta editorial" e que "não entendeu" que esse tipo de edição exigia declaração. Em 6 de outubro, escreveu à revista para mencionar o ChatGPT, mas deixou o Claude de fora. O comitê concluiu que suas explicações públicas diminuíam o uso real que os registros revelam.

    A tese de que ele não conhecia as regras tem um problema. Em setembro, num artigo publicado no arXiv, Schnell descreveu ter pedido ajuda na redação e uma revisão crítica a dois modelos, o GPT-5.6 Pro e o Claude Fable 5.1. No mesmo texto, disse assumir total responsabilidade pelo conteúdo e não tratar o modelo como coautor. Ou seja, sabia fazer a declaração quando quis. Procurado pelo jornal estudantil The Dartmouth, não comentou.

    Os detectores ficaram de fora

    O caso começou com uma reportagem do Semafor de 26 de agosto. O detector Pangram classificou o artigo do Post como escrito por IA. O índice varia conforme quem relata: 100% segundo o The Dartmouth, ao menos 80% segundo o Inside Higher Ed. Depois, o jornal estudantil submeteu ao detector os textos que Schnell assinou sozinho neste ano, e todos foram marcados. Um artigo científico chegou a 71%.

    O comitê preferiu não usar o Pangram nem qualquer outra IA, nem mesmo para redigir o relatório. Foi a decisão certa. Detectores erram, e um porcentual de software não deveria derrubar ninguém. O que derrubou Schnell foi o histórico das suas próprias conversas com o chatbot.

    Beilock resumiu o episódio em sua carta: é crucial que os líderes deem o exemplo da "transparência e do julgamento humano" que a universidade cobra de alunos e pesquisadores. O historiador Matthew Delmont assume o cargo interinamente até junho de 2028. O artigo de agosto anunciava um problema mais profundo do que a cola, e o autor acabou fornecendo um exemplo dele.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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