O ChatGPT pode deixar um adolescente conversar sobre suicídio por horas antes de avisar os pais. Em alguns casos testados, o aviso não chegou nunca. A conclusão é de um relatório do Youth AI Safety Institute, braço da organização Common Sense Media, divulgado em 7 de outubro de 2026.
Nos testes, pesquisadores criaram contas se passando por adolescentes de 13 a 17 anos e conversaram com o chatbot sobre automutilação, suicídio e transtornos alimentares. Foram 450 mensagens avaliadas. As notificações aos responsáveis dispararam apenas duas vezes e não voltaram a aparecer conforme as conversas continuavam.
As duas notificações saíram de contas antigas, com semanas de histórico sobre temas sensíveis. Em contas recém-criadas e já vinculadas a um perfil de pai ou mãe, uma hora inteira de conversa sobre ideação suicida, automutilação ou transtornos alimentares não gerou alerta algum. Segundo a BBC, o chatbot também não recomendou de forma consistente que um adolescente em crise procurasse um serviço de apoio ou um profissional de saúde.

Robbie Torney, diretor sênior de programas de IA da Common Sense Media, afirmou que um adolescente pode conversar por até uma hora sobre esses assuntos sem que os pais recebam qualquer notificação. Para o instituto, o resultado mostra que o ChatGPT ainda representa um risco inaceitável para adolescentes, porque os mecanismos de segurança falham com frequência.
A OpenAI rebateu. Um porta-voz disse que a empresa recebe bem avaliações independentes, mas não acredita que os testes reflitam como as proteções funcionam na prática. A empresa também explicou a razão apontada para o atraso: a demora não está em cada notificação, e sim na primeira vinculação entre a conta do adolescente e a do responsável, que passa por verificação de identidade.
"O atraso de algumas horas não é para cada notificação; ele ocorre quando acontece o pedido inicial de vinculação entre as contas do adolescente e do pai."
Segundo o porta-voz, essa verificação pode levar várias horas, embora costuma ser mais rápida. Uma vez feita a vinculação, a OpenAI afirma ter se comprometido a enviar os avisos sobre riscos como suicídio e transtornos alimentares em menos de uma hora. A Common Sense respondeu que algumas contas de teste estavam vinculadas havia menos de três horas e outras havia mais tempo, e manteve os resultados.
O sistema de avisos existe desde setembro de 2025. A OpenAI lançou os controles parentais (abre em nova aba) em 29 de setembro daquele ano, permitindo que um responsável vincule sua conta à de um adolescente. Em 13 de julho de 2026, a empresa ampliou as situações que geram notificação. Um mês depois, em 18 de agosto, entrou no ar o ChatGPT for Teens (abre em nova aba), versão com proteções reforçadas na qual usuários de 13 a 17 anos entram automaticamente.
Na prática, quando o sistema detecta possíveis sinais de que um adolescente pode estar pensando em se machucar, uma pequena equipe de pessoas treinadas analisa a situação. Se houver sinais de sofrimento agudo, os pais são contatados por e-mail, mensagem de texto ou notificação no aplicativo. A página de ajuda da OpenAI (abre em nova aba) deixa claro, porém, que as notificações não são monitoramento em tempo real e não incluem a conversa nem o histórico do adolescente. O aviso traz apenas uma breve descrição do tipo de preocupação e recursos de apoio.
Há outras limitações. A vinculação entre contas não dá ao responsável acesso às conversas do adolescente, ao histórico ou à atividade em tempo real, e qualquer uma das partes pode desfazer o vínculo quando quiser. A OpenAI reconhece ainda que o sistema pode dar alarme falso, avisando quando não há perigo real, e diz trabalhar com especialistas em saúde mental para calibrar os gatilhos.
A empresa também estuda um caminho mais extremo: acionar a polícia ou serviços de emergência quando detectar ameaça iminente à vida e não conseguir contato com o responsável. Para o instituto, a recomendação é mais direta: manter os adolescentes longe do ChatGPT.
