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    NotíciaSociedade e regulação

    ChatGPT inventa eleição para o Senado nos EUA e indica candidatos de jornais falsos

    Testes às vésperas das eleições legislativas de 2026 mostram robôs errando o distrito de metade dos endereços e repetindo propaganda disfarçada de notícia.

    Neste artigo

    Às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, o eleitor que pediu ao ChatGPT (abre em nova aba) um roteiro simples para votar no estado do Missouri recebeu na tela uma disputa para o Senado que não existe na cédula deste ano. No Wyoming, a mesma ferramenta promoveu candidatos a cargos municipais como se estivessem concorrendo a vagas no Congresso federal. Os tropeços fazem parte de um levantamento do jornal Washington Post, que analisou 3.000 guias eleitorais gerados por inteligência artificial e encontrou máquinas distribuindo informações falsas com a solenidade de um cartório eleitoral.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​​‌‌​​​​​​‌‌​‌​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​​​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​​​​​‌‌​​​​‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​​​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​‌‌​​​‌‌​‌​​​‌‌​​‌​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​​​​​‌‌​​​‌‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​​​​‌​​‌‌​​‌​​​‌‌‌​​‌⁠

    A cegueira geográfica dos assistentes virtuais começa no básico: o endereço do cidadão. Quando os jornalistas forneceram a localização exata de um imóvel, os robôs testados falharam em identificar o distrito congressional correspondente em 48% das tentativas. Entre os sistemas que conseguiram dar uma resposta, 22% apontaram o distrito errado. A origem do desatino explica por que o problema se multiplica: grande parte das mentiras repassadas aos eleitores foi copiada pelos assistentes de outros sites gerados por inteligência artificial. Os robôs estão se alimentando do próprio lixo digital que produziram na internet e servindo o resultado ao público como se fosse apuração jornalística.

    O truque dos jornais de fachada

    Onde falta filtro à máquina, sobra espaço para a esperteza de campanha. Uma investigação da rádio pública norte-americana NPR revelou que o assistente da OpenAI (abre em nova aba) caiu na armadilha de uma rede misteriosa de 37 sites criada para promover candidatos do Partido Democrata ao Congresso, incluindo dez páginas que imitam jornais do interior, como o Scranton Beacon e o Kalamazoo Beacon. Questionado sobre quais candidatos do 4º Distrito de Michigan se preocupavam com o custo de vida, o ChatGPT colocou o democrata Sean McCann no topo da resposta, elogiando o detalhamento de seu plano econômico.

    Smartphone exibindo uma interface de chat sobre uma mesa de escritório escura, com broches de campanha eleitoral americana ao redor e telas de computador ao fundo mostrando páginas de jornais.
    Testes mostram que ferramentas de busca baseadas em chat fornecem informações incorretas sobre distritos eleitorais e reproduzem conteúdo de sites partidários nos EUA.

    A fonte citada pelo robô para justificar o elogio era justamente o Kalamazoo Beacon. No código da página, o veículo se apresenta como noticiário dedicado à comunidade local, mas todo o seu acervo resume-se a 16 textos dedicados a exaltar a biografia e as propostas de McCann. Enquanto as ferramentas de busca do Google (abre em nova aba) conseguiram barrar a promoção dessas páginas de propaganda disfarçada, o ChatGPT engoliu o panfleto partidário e o entregou ao eleitor como reportagem isenta.

    A conta da versão gratuita

    Há uma divisão de classes no acesso à informação automatizada que agrava a confusão. Neil Johnson, diretor do laboratório que estuda riscos de redes online na Universidade George Washington, lembra que os modelos de inteligência artificial mais precisos e desenvolvidos ficam trancados atrás de assinaturas caras. O grande público recorre às versões gratuitas, muito mais rudes e propensas a misturar fragmentos de verdade com histórias inventadas. Essa distância entre o desempenho dos modelos de ponta e o que realmente chega à tela do usuário comum é um ponto que acompanhamos no IA.com.br ao observar o uso prático dessas ferramentas fora dos laboratórios.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​​‌‌​​​​​​‌‌​‌​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​​​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​​​​​‌‌​​​​‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​​​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​‌‌​​​‌‌​‌​​​‌‌​​‌​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​​​​​‌‌​​​‌‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​​​​‌​​‌‌​​‌​​​‌‌‌​​‌⁠

    Mesmo nas perguntas genéricas sobre o processo eleitoral, o desempenho varia conforme a praça digital escolhida pelo eleitor. Um relatório do Institute for Strategic Dialogue apontou que o ChatGPT acerta 89,3% das questões gerais sobre a votação, mas ferramentas acopladas a redes sociais, como o Grok, erram mais de 40% das respostas focadas na eleição. Outro estudo conduzido pela organização Innovating for the Public Good com sete grandes ferramentas do mercado (incluindo Claude (abre em nova aba), Copilot (abre em nova aba), Gemini (abre em nova aba) e Perplexity (abre em nova aba)) mostrou que os robôs chegam a errar horários de abertura de seções eleitorais e a indicar listas prontas de candidatos em quem o cidadão deveria votar.

    O freio da desconfiança

    Para a pesquisadora Heesoo Jang, professora da Universidade de Massachusetts Amherst, o comportamento dessas máquinas diante das urnas exige um rótulo preciso da filosofia: conversa fiada (bullshit). Ao analisar respostas da versão gratuita do ChatGPT antes do pleito de 2024, quando o robô errava quase 10% dos dados básicos (chegando a afirmar que Joe Biden seguia na disputa presidencial após a entrada de Kamala Harris e que o governador da Carolina do Norte, Roy Cooper, tentava uma reeleição inexistente), a equipe de Jang destacou que o programa não tem a intenção de mentir. Ele apenas calcula a próxima palavra provável, sem compromisso com o mundo real, mas entrega o texto com uma convicção capaz de fazer um eleitor perder o prazo de votação.

    Se a eleição norte-americana de 2026 escapa de um tumulto maior causado pelos algoritmos, o mérito pertence à prudência do próprio eleitorado. Uma pesquisa do Pew Research Center realizada no fim de outubro mostra que apenas 8% dos eleitores dos Estados Unidos consultaram diretamente robôs de conversação para decidir o voto, embora 13% já usem esses aplicativos para se informar e 60% esbarrem nos resumos automáticos gerados no topo dos buscadores. A máquina aprendeu a falar com a autoridade de um cabo eleitoral diplomado, mas a maioria dos votantes felizmente ainda prefere não pedir conselho político a um programa que inventa senador.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​​‌‌​​​​​​‌‌​‌​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​​​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​​​​​‌‌​​​​‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​​​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​‌‌​​​‌‌​‌​​​‌‌​​‌​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​​​​​‌‌​​​‌‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​​​​‌​​‌‌​​‌​​​‌‌‌​​‌⁠

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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