O serviço segue no ar. A empresa que o mantém, não.
A Character.AI (abre em nova aba), plataforma em que pessoas conversam com robôs de inteligência artificial que fazem papel de personagens, anunciou em 12 de outubro de 2026 que entrou com um pedido voluntário de proteção legal nos Estados Unidos. A máquina de conversar continua conversando. A dona da máquina está, a partir de agora, sob supervisão de um tribunal de falências.
O processo é um capítulo 11, modalidade da legislação americana que permite a uma empresa pedir proteção da justiça enquanto reorganiza suas dívidas ou vende seus bens, sem parar de operar. No caso da Character Technologies, Inc., a empresa por trás do serviço, o pedido foi registrado na Corte de Falências dos EUA do distrito de Delaware, com o número 26-11603 e o juiz Brendan L. Shannon designado, segundo os registros públicos da corte replicados no CourtListener (abre em nova aba). O objetivo declarado não é se reorganizar, e sim organizar uma venda de toda a empresa ou praticamente toda ela, supervisionada pelo tribunal.
No comunicado oficial, o CEO Colin Adams disse que o conselho escolheu essa venda judicializada depois de "significant legal, regulatory, and operational headwinds", ou seja, ventos contrários jurídicos, regulatórios e operacionais. A frase é seca e esconde o que os processos na Justiça deixam evidente: o motivo da falência tem nome, rosto e idade.

As mortes que precederam o pedido
Em 2024, Megan Garcia processou a empresa alegando que um chatbot do serviço foi responsável pela morte de seu filho Sewell Setzer III, de 14 anos, que se suicidou em fevereiro daquele ano. Na ação, ela descreveu o que chamou de relação emocional e sexualmente abusiva que o robô teria estabelecido com o adolescente.
O processo não ficou isolado. Em 7 de janeiro de 2026, a agência Associated Press noticiou que o Google e a Character Technologies haviam concordado em resolver judicialmente a ação de Garcia, além de vários outros processos apresentados por famílias em Colorado, Nova York e Texas que alegavam danos a seus filhos. A CNN reportou depois que a empresa acordou resolver cinco casos, incluindo o de Garcia. Nenhum dos documentos divulgou os valores. Os acordos ainda dependiam de aprovação judicial naquele momento. Segundo o site Futurism, Kentucky e Pensilvânia também moveram ações contra a empresa.
Aqui vale uma pausa para o leitor se situar. Falência no jargão jurídico americano não significa que a porta se fechou no mesmo dia, como costuma ocorrer em casos brasileiros de falência decretada. É um procedimento em andamento, com datas marcadas, leilões e decisões de juiz pela frente. A plataforma, portanto, não foi desligada. Foi apenas posta à venda.
O Disney entra no leilão
Antes mesmo de registrar o pedido, a empresa fechou um acordo com o Disney Worldwide Services (abre em nova aba) para servir como o que o leilão americano chama de stalking horse bidder: o primeiro proponente, cuja oferta estabelece o piso do leilão e serve de isca para atrair lances maiores. O nome é esquisito, a mecânica é simples.
O Disney vai pagar US$ 20 milhões por uma licença perpétua, mas não exclusiva, de parte da propriedade intelectual da empresa e por certas reivindicações. Em troca, também fornecerá serviços de transição usando ex-funcionários da própria Character.AI que foram contratados pelo grupo. Isso significa que parte da equipe que conhece o sistema de dentro agora trabalha para o comprador inicial.
Dois detalhes merecem atenção. Primeiro, a venda está sujeita a propostas melhores: qualquer outro interessado pode superar a oferta do Disney, conforme o mecanismo da seção 363 do código de falências americano. Segundo, a empresa espera concluir o processo e fechar as transações resultantes no fim de novembro ou início de dezembro de 2026. Se nenhuma proposta resultar em um comprador que mantenha a plataforma funcionando, o serviço será desativado de vez. A empresa diz esperar que a venda produza um plano de continuidade, mas nada está garantido ainda.
O vínculo com o Google
A Character.AI foi fundada em novembro de 2021 por Noam Shazeer e Daniel de Freitas, dois pesquisadores de inteligência artificial que haviam saído do Google. A empresa decolou rápido: depois de uma rodada de captação de US$ 150 milhões, chegou a anunciar avaliação de US$ 1 bilhão, segundo declaração da própria companhia reportada pela CNN. O Futurism acrescenta, com base em reportagem anterior do próprio veículo, que em março de 2023 a empresa valia mais de US$ 1 bilhão apesar de não ter receita.
Em setembro de 2024, o Google licenciou a tecnologia da startup e recontratou os fundadores, junto com dezenas de funcionários. O Futurism descreve esse arranjo como um negócio de US$ 2,7 bilhões. Vale registrar que os relatos divergem sobre o paradeiro atual de Shazeer: o Futurism afirma que ele hoje trabalha na OpenAI, enquanto a CNN e a Reuters indicam que os dois fundadores voltaram ao Google. Há também um detalhe processual relevante: os processos das famílias citavam o Google como réu justamente por causa dessa relação com a startup depois da contratação dos cofundadores.
Números do processo, por sua vez, são mais modestos. Segundo a Reuters, o documento judicial estima ativos e dívidas entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões. Uma empresa que um dia se anunciou bilionária chegou ao tribunal de falências com contabilidade de médio porte.
O que muda para quem usa o serviço
A empresa publicou uma lista de respostas no blog oficial, e nela os usuários assinantes encontram as informações mais práticas. Traduzindo o essencial:
- A plataforma continua no ar, com todos os serviços acessíveis;
- As assinaturas pagas permanecem ativas e a cobrança segue sem alteração por enquanto;
- A empresa se compromete a avisar os assinantes com antecedência se mudanças no serviço afetarem recursos pagos;
- As práticas de privacidade e segurança de dados seguem inalteradas, protegidas pela política de privacidade da empresa;
- Quem quiser sair pode excluir a conta ou exportar seus dados;
- Os documentos do processo estão reunidos no site da Stretto, agente de avisos designada pela corte, em cases.stretto.com/chartech (abre em nova aba).
O ponto sensível é o que o blog não garante. A cobrança continua "por agora". O compromisso é avisar antes de mudanças, não evitar mudanças. E se o leilão terminar sem um comprador disposto a manter a plataforma, o serviço será encerrado. Quem mantém uma assinatura paga convive, nas próximas semanas, com um serviço plenamente funcional e uma empresa juridicamente à venda. As conversas com os personagens seguem normais. O mesmo não se pode dizer do balanceamento do negócio por trás delas.
A assessoria da empresa no processo, segundo o comunicado, é composta pelo escritório de advocacia Wilson Sonsini Goodrich & Rosati, pela Areté Partners e pelo Houlihan Lokey. São nomes especializados em rodear esse tipo de operação, o que reforça que o plano de venda foi desenhado com methodo e não como rendição improvisada.
O cronograma, portanto, é curto. Entre a data do pedido, 12 de outubro de 2026, e o fim de novembro ou início de dezembro, quando a empresa espera fechar a venda, restam poucas semanas. Nesse intervalo, outros interessados podem aparecer com propostas superiores à do Disney, o juiz Shannon precisa aprovar os procedimentos de leilão, e os acordos das ações familiares seguem pendentes de validação judicial. Cada peça se encaixa em um tribunal, no distrito de Delaware, com data marcada.
Perguntas frequentes
O Character.AI continua funcionando?
Sim. A empresa afirma que a plataforma segue no ar, com todos os serviços acessíveis, e que as assinaturas pagas permanecem ativas com cobrança sem alteração por enquanto. A empresa se comprometeu a avisar os assinantes com antecedência se houver mudanças que afetem recursos pagos.
Por que a empresa entrou em falência?
A empresa citou "ventos contrários legais, regulatórios e operacionais". Entre eles estão os processos movidos por famílias, como o de Megan Garcia, que alegam que chatbots do serviço causaram danos a menores, incluindo o caso do suicídio de seu filho de 14 anos em 2024. Em janeiro de 2026, a empresa e o Google concordaram em resolver vários desses processos, segundo a Associated Press.
Qual é o papel do Disney no processo?
O Disney aceitou pagar US$ 20 milhões por uma licença perpétua não exclusiva de parte da propriedade intelectual da empresa e por certas reivindicações, além de fornecer serviços de transição com ex-funcionários que contratou. Sua oferta é o piso do leilão: outros proponentes podem superá-la, conforme a seção 363 do código de falências americano.
O que acontece se ninguém comprar a empresa?
A própria empresa informou que, se a venda não resultar em um comprador que mantenha a plataforma em operação, o serviço será encerrado. O processo de venda deve ser concluído, segundo a previsão da companhia, no fim de novembro ou início de dezembro de 2026.
Fontes
- An Update on Character.ai · blog.character.ai · 11/10/2026
- Character.ai Initiates Voluntary Chapter 11 Proceeding to Facilitate Value-Maximizing Sale Process · businesswire.com · 11/10/2026
- Character Technologies, Inc., 26-11603 – CourtListener.com · courtlistener.com · 11/10/2026
- Character.AI files for bankruptcy, to sell some assets to Disney for $20 million · reuters.com · 12/10/2026
- Google and chatbot maker Character to settle lawsuit alleging chatbot pushed teen to suicide · apnews.com · 06/01/2026
- Character.ai files for bankruptcy following lawsuits alleging ties to teen suicides · cnn.com · 12/10/2026
- Google-Tied AI Startup Once Valued at a Billion Dollars Declares Bankruptcy · futurism.com · 12/10/2026


