No dia 7 de outubro de 2026, o pesquisador independente Pavel Rabtsevich, radicado em Tarragona, na Espanha, publicou no Reddit um relato fora do comum: analisando arquivos públicos da NASA com ajuda de uma ferramenta de inteligência artificial, ele acredita ter encontrado um planeta que ninguém havia registrado antes. De costume, achados desse tipo saem de equipes profissionais com anos de trabalho sobre os mesmos dados. Essa história começou de outro jeito, com uma estrela que piscou de forma estranha.
O sinal apareceu nos registros do TESS (abre em nova aba), telescópio espacial da NASA que mede o brilho de milhares de estrelas à caça de planetas fora do Sistema Solar. O método é simples de entender: se um planeta cruza a frente da sua estrela, ele bloqueia uma fração da luz, e você vê isso da Terra como um mini eclipse, um apagão breve que se repete a cada volta do planeta. Foi exatamente esse tipo de piscada que chamou a atenção de Rabtsevich.
A estrela em questão é uma anã de tipo K, categoria de estrela menor e mais fria que o Sol, catalogada como TIC 4206066 e situada, segundo a estimativa do próprio pesquisador, a 116 anos-luz daqui. O comportamento é regular: a cada 3,18 dias, o brilho cai cerca de 0,05% durante aproximadamente duas horas. Rabtsevich viu o padrão pela primeira vez em dados do fim de 2025 e, em vez de parar por aí, foi para trás. Encontrou o mesmo mergulho de luz em observações completamente independentes do TESS, de 2020 e depois de 2018. Ao todo, 23 trânsitos, como são chamados esses travessias em frente à estrela. Se o sinal for mesmo um planeta, ele teria cerca de 1,4 vez o raio da Terra, o que o colocaria na categoria das superterras, planetas um pouco maiores que o nosso.

O que a IA fez, na conta do autor
O Claude Code (abre em nova aba), agente de programação da Anthropic, foi a ferramenta central do trabalho. Segundo o relato de Rabtsevich, ele usou a ferramenta com os modelos Opus 5.5 e Fable 5.1 para baixar e interpretar os dados do TESS, escrever o código de busca, ajustar os trânsitos, checar estrelas vizinhas, procurar eclipses secundários e outros sinais de falso positivo, gerar gráficos e refazer tudo quando algum teste falhava. Em cerca de duas semanas, disse ele, isso virou 74 análises separadas e mais de mil scripts.
O número central dessa história, porém, não é a contagem de scripts. É o que separa um achado casual de um achado científico: a previsão testável.
Candidato, e não planeta confirmado
Rabtsevich é explícito: o objeto é um planeta candidato, não um planeta confirmado. Ele depositou um preprint, espécie de estudo ainda sem revisão por outros cientistas, no Zenodo, repositório científico mantido pelo CERN, em 25 de setembro de 2026. No dia 6 de outubro, antes de existir qualquer dado novo, publicou na página do projeto (tic4206066.pages.dev (abre em nova aba)) os horários exatos em que os trânsitos devem ocorrer e as regras para decidir se a previsão passa ou falha, com registro também no Zenodo (abre em nova aba). Na linguagem da ciência, isso se chama pré-registro: assumir publicamente um compromisso verificável antes de ver a resposta, para não poder ajustar o resultado depois.
O teste já está marcado. Rabtsevich submeteu ao TESS uma proposta de observação pedindo que a estrela fosse registrada a cada dois minutos na próxima passagem do telescópio por essa região do céu, em novembro. A proposta foi aprovada como Programa nº 100: o TESS vai observar a estrela de 31 de outubro a 26 de novembro de 2026.
Entusiasmo com freio de mão
O caso reacendeu o debate sobre até onde agentes de IA podem levar a pesquisa científica. Nas discussões públicas, as reações se dividiram. Um comentarista do Hacker News elogiou o achado, mas declarou querer entender a taxa de falso positivo quando se solta um agente de programação sobre telemetria astronômica crua, afirmando que alucinações na redução de dados não são brincadeira. Outro foi mais direto: enquanto a revisão por pares não confirmar, o sinal é apenas ruído se ajustando a ruído. Houve também quem visse no episódio um uso impressionante das ferramentas de IA.
A cautela tem razão de ser. Um mergulho de brilho pode vir de outra estrela no campo de visão, de ruído do instrumento ou de variações naturais da própria estrela. É por isso que a comunidade exige validação independente antes de falar em planeta, e por isso que Rabtsevich publicou as regras do jogo com antecedência.
Não há, nos registros públicos do caso, comentário da Anthropic sobre o episódio. O que existe, por ora, é um candidato, um autor que se recusa a chamar o achado de confirmado e uma data marcada no calendário: 31 de outubro de 2026, quando o TESS volta a apontar para TIC 4206066 e começa a responder se essa história termina em planeta ou em mais um falso alarme.

