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    NotíciaNegócios e mercado

    Buscas no Google crescem como não se via há 5 anos, e a empresa perde US$ 500 bi num dia

    A Alphabet perdeu cerca de US$ 500 bilhões em valor de mercado depois de admitir que suas respostas de IA rendem menos com anúncios, num trimestre em que gastou mais do que arrecadou.

    Corretores em movimento no pregão de uma bolsa de valores sob iluminação fria, diante de um painel eletrônico luminoso com gráficos financeiros em vermelho indicando queda nas cotações.
    Ações da Alphabet registram forte queda no mercado financeiro após revelações sobre o impacto de novos recursos na receita de anúncios.
    Neste artigo

    Na mesma semana em que o Google contou que o número de buscas está crescendo no ritmo mais rápido dos últimos cinco anos, a Alphabet (abre em nova aba), dona do Google, perdeu cerca de US$ 500 bilhões em valor de mercado num único pregão. Não é contradição. É exatamente o problema.

    As ações caíram quase 13% na quinta-feira (29), um dia depois da divulgação dos resultados do terceiro trimestre de 2026. Segundo a BBC, o valor da empresa na bolsa passou de US$ 3,97 trilhões para US$ 3,46 trilhões, e o papel bateu a mínima em seis meses. O site Storyboard18 calcula a perda em US$ 511 bilhões e diz que foi a maior queda de valor de mercado da história da companhia.

    Mais uso, menos dinheiro

    À primeira vista, o balanço nem parece ruim. A receita total subiu 25%, para US$ 127,6 bilhões. Mas o lucro caiu 25%, e o lucro por ação ficou em US$ 2,12, contra os US$ 3,02 que os analistas esperavam, segundo a Ars Technica.

    Documentos impressos com gráficos financeiros em queda sobre uma mesa de escritório, com analistas desfocados debatendo ao fundo sob luz natural.
    Balanço trimestral da Alphabet pressiona o valor das ações no mercado após alertas sobre a menor rentabilidade dos anúncios em buscas com inteligência artificial.

    O que assustou foi a busca, de onde vem a maior parte do dinheiro da Alphabet. A receita com anúncios na busca chegou a cerca de US$ 63 bilhões, alta de 12% em um ano. Parece ótimo até você olhar a sequência:

    Trimestre de 2026Crescimento da receita de busca
    1º trimestre19%
    2º trimestre17%
    3º trimestre12%

    Segundo a CNBC, foi o segundo trimestre seguido abaixo das estimativas.

    O curioso é que o próprio Google explica o motivo. O modelo clássico é simples: você digita uma pergunta, aparecem links e, ao lado deles, anúncios de empresas que querem vender alguma coisa. Agora a busca responde direto com um resumo escrito por IA (os AI Overviews), e o AI Mode transforma a pesquisa numa conversa. Segundo o diretor de negócios Philipp Schindler, cada consulta no AI Mode rende menos que uma busca comum equivalente: há menos anúncios, e eles custam menos para quem anuncia.

    "O forte crescimento dos AI Overviews teve impacto por causa da monetização mais baixa que estávamos vendo no AI Mode", disse Schindler na conversa com investidores.

    Ou seja, o Google está entregando o que as pessoas parecem querer. O CEO Sundar Pichai contou que as perguntas no AI Mode são cerca de três vezes mais longas que as buscas tradicionais, e que uma em cada cinco envolve voz, imagem ou documento. O uso cresce. O produto novo só ainda não sabe cobrar como o antigo.

    A ressalva do Google

    Vale registrar o outro lado. Os executivos da Alphabet disseram que o principal fator da desaceleração foi o câmbio, não a IA, e avisaram que esse efeito será ainda maior no quarto trimestre. Gil Luria, analista da D.A. Davidson, também pediu calma: "Não correríamos para tirar conclusões com base em um trimestre". Na mesma mensagem, porém, admitiu que os investidores vão ler o resultado como sinal de que "a IA finalmente veio atrás do Google". Os analistas do UBS disseram que os números trazem o medo de "canibalização" da busca de volta ao centro do debate.

    O câmbio pode explicar parte da freada. Não explica por que a própria empresa admite que cada resposta de IA rende menos. Essa parte não é conjuntural, é o desenho do produto.

    Gastando mais do que entra

    O segundo susto foi o caixa. Para treinar e rodar modelos como o Gemini (abre em nova aba), o Google está construindo data centers em ritmo acelerado: foram cerca de US$ 51,4 bilhões em investimentos só no terceiro trimestre, segundo a TechMediaGlobal.

    O resultado é que o fluxo de caixa livre, o dinheiro que sobra depois de pagar a operação e os investimentos, ficou negativo em US$ 9,07 bilhões, segundo a Reuters. É só a segunda vez que isso acontece desde que a empresa abriu capital. A primeira foi três meses atrás, com US$ 5,9 bilhões no vermelho. Na prática, a Alphabet está gastando mais do que arrecada, e quase todo esse gasto vai para IA, segundo a BBC. E a empresa indicou que vai gastar ainda mais no ano que vem. Microsoft e Amazon, que também divulgaram resultados na semana, seguem pelo mesmo caminho de gastos gigantescos.

    "Isso evidencia o desafio de financiar investimentos enormes em IA enquanto se mantém a força dos negócios já estabelecidos", resumiu Tracy Woo, analista principal da Forrester.

    Onde a aposta já paga

    Seria injusto dizer que a IA só tira dinheiro do Google. No Google Cloud (abre em nova aba), divisão que aluga capacidade de computação para outras empresas, a receita mais que dobrou: alta de 103%, para quase US$ 31 bilhões. Os contratos já fechados somam cerca de US$ 560 bilhões, e a empresa espera transformar pouco mais da metade disso em receita nos próximos 24 meses.

    A nuvem lucra vendendo infraestrutura para a corrida da IA. Já a publicidade foi o que historicamente financiou boa parte da expansão da empresa, e é justamente ela que está mudando de forma.

    O que vem agora

    A saída que o Google desenha é previsível: mais anúncios dentro das respostas de IA. A empresa diz que já espalhou o Gemini por toda a sua estrutura de publicidade, fez no trimestre o que Schindler chamou de "maior atualização dos anúncios de produtos em uma década" e afirma que o Gemini ajudou anunciantes a criar mais de 1,5 bilhão de peças de campanha, sete vezes mais que um ano antes. Schindler diz se sentir "muito bem" com a trajetória.

    Thomas Monteiro, analista do Investing.com, chamou o trimestre de momento da verdade: ou o Google mostra como vai ganhar dinheiro com IA, ou corre o risco de perder terreno em vários negócios centrais.

    Para quem pesquisa no Google todo dia, a tradução é direta: as respostas de IA devem ficar cada vez mais parecidas com vitrines, porque é assim que a empresa pretende fechar a conta. O Google construiu o produto que ameaça o próprio modelo de negócio. Agora precisa provar que consegue cobrar por ele.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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