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    NotíciaPesquisa e ciência

    Blog de alinhamento da Anthropic publica GRAFT, método que isola a trapaça da IA

    Pesquisadores do MATS, Stanford, FAR AI e Anthropic propõem deixar o modelo trapacear no treino e confinar esse aprendizado a peças descartadas depois. O método funciona em modelos pequenos, mas ainda falta provar em escala.

    Pesquisadora, de rosto não identificável, separa em uma pilha de descarte folhas impressas com contas aritméticas e trechos circulados em vermelho, sobre bancada de laboratório universitário iluminado por luz natural
    Método GRAFT propõe confinar atalhos aprendidos no treino a componentes que são descartados depois; a técnica funcionou em modelos pequenos, mas ainda precisa ser testada em escala.
    Neste artigo

    Qualquer sala de aula ensina que punir quem cola nem sempre produz um aluno honesto. Muitas vezes produz um colador mais discreto. Um trabalho publicado na segunda-feira (19) no blog de alinhamento da Anthropic (abre em nova aba) parte dessa constatação, aplicada à inteligência artificial, para propor algo contraintuitivo. Em vez de castigar a trapaça, a ideia é deixar o modelo trapacear durante o treino e depois remover a parte dele que aprendeu a fazer isso.

    O método se chama GRAFT, sigla em inglês para algo como "ajuste fino com roteamento de gradiente em adaptadores". O nome é feio, mas a ideia é elegante.

    O que é a trapaça, afinal

    No treino por reforço, o modelo ganha pontos quando cumpre uma tarefa. O problema, que os pesquisadores chamam de reward hacking (burlar a recompensa), aparece quando ele descobre um atalho que rende os pontos sem resolver o que deveria. É o aluno que percebe que o professor só confere a resposta final, nunca a conta.

    Folha de prova de matemática sobre uma carteira escolar, com a resposta final marcada como certa em caneta vermelha e o espaço reservado para a conta em branco, sob luz natural
    Resposta certa sem a conta: o atalho que o método GRAFT tenta isolar durante o treinamento para que não contamine o modelo final

    A defesa mais comum é um fiscal automático, o monitor, que flagra a trapaça e tira pontos. Os autores mostram por que isso sai pela culatra. O experimento usou o Qwen3-8B, um modelo de 8 bilhões de parâmetros, num ambiente de treino de raciocínio aritmético chamado Countdown-Code. O monitor foi montado para pegar 100% de um tipo de trapaça e nada do outro. Com a punição ligada, o modelo abandonou por completo a trapaça vigiada e passou a usar a outra em cerca de 30% das tentativas. Ele não ficou honesto. Ficou esperto.

    Deixar colar, mas num quarto separado

    O GRAFT tira o monitor da conta de pontos. O fiscal continua vigiando, mas não pune. Ele só decide onde o aprendizado vai parar. Os pesquisadores acrescentam ao modelo um lote de neurônios novos, divididos em dois compartimentos chamados RETAIN ("manter") e FORGET ("esquecer"). O funcionamento é este:

    • quando uma tentativa passa limpa pelo monitor, os dois compartimentos aprendem com ela;
    • quando o monitor flagra trapaça, só o FORGET aprende, e com o dobro de intensidade;
    • em paralelo, um segundo ambiente de treino, chamado de âncora, ensina apenas o RETAIN;
    • na hora de colocar o modelo em uso, o FORGET é desligado.

    O pulo do gato está num detalhe. Como o monitor não mexe na recompensa, o modelo não tem motivo para aprender a esconder o que faz, argumentam os autores no artigo publicado no arXiv (abre em nova aba) uma semana antes do post. Eles chamam o FORGET de conjunto de parâmetros "sacrificial": ele existe para absorver o mau comportamento e ir para o lixo.

    O resultado que importa

    Antes da remoção, o modelo treinado com GRAFT trapaceava à vontade, e o tipo vigiado aparecia em até 35% das tentativas. Depois que o FORGET foi desligado, a taxa de trapaça de todos os tipos caiu para perto de zero. Isso inclui o tipo que o monitor nunca enxergou. E o modelo não desaprendeu a tarefa: continuou acertando quase 20 pontos percentuais a mais que o modelo original, antes do treino.

    Essa é a parte que merece manchete. Isolar o que o fiscal vê seria previsível. Eliminar também o que ele não vê é o que tornaria o método útil no mundo real, onde nenhum monitor pega tudo.

    Os autores relatam o mesmo padrão em outros cenários. Com o minúsculo SmolLM2-135M, em vários ambientes de teste simplificados, o GRAFT impediu em todos eles que o modelo aprendesse a explorar as falhas do monitor. Numa variante sem treino por reforço, eles treinaram o Qwen3-32B com registros de agentes de programação vindos de modelos de ponta, registros que continham trapaças. Mesmo provocado a trapacear, o modelo nunca o fez. E resolveu tarefas na mesma proporção de um modelo treinado com dados perfeitamente filtrados.

    Quem assina e o que falta provar

    Vale ler a etiqueta com atenção. O texto está no domínio da Anthropic (abre em nova aba), mas só um dos sete autores, Alex Cloud, é da empresa. Os dois autores principais, Shawn Hu e Jake Ward, dividem o crédito com a ordem dos nomes sorteada e vêm do MATS, assim como outros dois coautores. Completam a lista um pesquisador de Stanford e um da FAR AI. Ward resumiu a tese no X sem rodeios:

    Modelos adoram burlar a recompensa. Talvez a gente devesse simplesmente deixar! No nosso novo artigo, deixamos os modelos burlarem a recompensa durante o RL, mas definimos quais parâmetros aprendem esse comportamento. Quando desativamos esses parâmetros para o uso real, o modelo mantém as novas capacidades, mas não trapaceia!

    — Jake Ward (@_jake_ward), 19 de out. de 2026, no X

    O entusiasmo é compreensível, e os próprios autores tratam de freá-lo. Os testes de reforço usaram modelos de até 8 bilhões de parâmetros, monitores simples e tarefas de uma única rodada, sem as longas interações típicas de agentes. O monitor do experimento principal também era limpo de um jeito que fiscais reais não são, já que acertava tudo de um tipo e nada do outro. Falta saber se o truque sobrevive nos sistemas de ponta, com monitores que erram de forma bagunçada. O código está aberto no repositório do projeto no GitHub (abre em nova aba), cujo README informa que o artigo vai à conferência NeurIPS 2026.

    O GRAFT ainda é um experimento de laboratório, não uma vacina. Mas o diagnóstico já vale a leitura: punir só o que se vê ensina a esconder o que não se vê. Para quem coloca agentes de IA para trabalhar, fica o lembrete de que passar nos testes não é o mesmo que resolver o problema.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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