Uma hora de conversa sobre pensamentos suicidas, automutilação e transtornos alimentares. Do outro lado, a conta da mãe ou do pai, vinculada ao perfil do adolescente. Nenhum alerta chega. Essa cena, repetida em mais de uma dúzia de contas de teste, está no centro de uma avaliação divulgada na quarta-feira, 7 de outubro de 2026, sobre o ChatGPT para adolescentes (abre em nova aba).
A avaliação é do Youth AI Safety Institute, braço de pesquisa da organização Common Sense Media. O instituto deu ao produto a sua pior nota, Unacceptable Risk, risco inaceitável, e recomendou que menores de 18 anos fiquem fora do ChatGPT até que as falhas sejam corrigidas e confirmadas por teste independente. Também pediu que a empresa pause a divulgação do modo adolescente.
O produto existe desde 18 de agosto de 2026, quando a OpenAI (abre em nova aba) anunciou o ChatGPT for Teens com a promessa de proteções integradas mais fortes. As proteções anunciadas incluíam notificações aos pais em conversas sobre automutilação e transtornos alimentares, um modo de estudo controlado pelos pais, um comportamento menos parecido com o de um amigo e a capacidade de prever a idade dos usuários. Pais que vinculam contas podem definir horários de uso e agendar horas de estudo; o modo virou a experiência padrão para usuários de 13 a 17 anos.

Para conferir o que mudou de verdade, o instituto testou mais de 4.000 prompts, as instruções e perguntas enviadas ao chatbot. Metade antes do lançamento de agosto, metade depois, sempre em contas registradas em nome de adolescentes de 13 a 17 anos. As respostas passaram por especialistas, entre eles um grupo de psiquiatras infantis e um pediatra.
A hipótese que uma família faria ao ler o anúncio é simples: se a conversa fica grave, o pai recebe aviso. A evidência mostra outra lógica. Nas contas recém-criadas e vinculadas aos pais, os testadores passaram até uma hora conversando sobre suicídio, automutilação e alimentação desordenada, e nenhum alerta chegou. Os avisos só apareceram em contas com semanas de histórico sobre temas sensíveis. Na prática, o alerta parece depender do acúmulo de conversas, não da gravidade do que o adolescente diz naquele momento.
O encaminhamento de crise segue a mesma linha. Conversas sobre suicídio, automutilação, alimentação desordenada e percepção de realidade prejudicada exigiriam, na avaliação, uma recomendação de linha de crise, serviço de atendimento para urgências em saúde mental, ou de ajuda profissional. O chatbot deixou de dar essa recomendação em mais de um de cada quatro casos em que os avaliadores consideravam o encaminhamento necessário, e ficou abaixo do limite de 95% em três das cinco categorias de danos graves que o instituto trata como linhas vermelhas, os danos que não deveriam acontecer de forma alguma.
O que foi prometido e o que o teste viu
| Proteção anunciada em agosto | Resultado nos testes |
|---|---|
| Notificações aos pais sobre conversas de risco | Nenhum alerta em contas novas; avisos só em contas com semanas de histórico |
| Encaminhamento de adolescentes em crise | Falta em mais de um de cada quatro casos considerados necessários |
| Previsão da idade do usuário | Contas adultas nunca mudaram para o modo adolescente, mesmo após dias e com 13 anos declarados no chat |
A verificação de idade reaparece na Adam's Law, lei da Califórnia: segundo o relatório do instituto (abre em nova aba), o ChatGPT reprovou testes ligados a três exigências dessa lei, encaminhamento em crise, alertas parentais e verificação de idade. Entre outros apontamentos, o chatbot seguiu fazendo o dever de casa dos adolescentes, segundo o comunicado da organização.
O quadro geral, porém, não é de instruções perigosas: na leitura da avaliação, o chatbot em geral não ensinou caminhos para suicídio, automutilação, transtornos alimentares nem papéis sexuais ou românticos. O problema está na etapa seguinte, quando o adolescente precisa de ajuda fora do chat e ela não vem.
"Um adolescente pode passar uma hora falando de automutilação sem que os pais recebam um único alerta. Até que a OpenAI conserte isso e prove com testes independentes, o ChatGPT deveria ser só para adultos."
A frase é de Tom Siegel, diretor executivo do Youth AI Safety Institute, em comunicado. Na avaliação dele, o risco extra é a confiança falsa: proteções e alertas que frequentemente não funcionam podem tranquilizar pais sem base. A OpenAI contesta. O porta-voz Eric Porterfield afirmou que os testes não refletem o funcionamento das proteções na prática.
Para uma família com adolescente em casa, a consequência prática é direta. A conta vinculada não garante aviso numa primeira crise, e um pedido de socorro dentro do chat pode terminar sem encaminhamento. Até que haja verificação independente das correções, a recomendação do instituto segue a mesma: o ChatGPT deveria ficar restrito a adultos.

