Existe um jeito preguiçoso de falar sobre IA no trabalho. Numa versão, ela vai tirar o emprego de todo mundo. Na outra, vai deixar todo mundo dez vezes mais produtivo. O engenheiro Sufian Aldogom escolheu um caminho menos barulhento e mais útil. Em artigo de opinião (abre em nova aba) publicado nesta quarta-feira (28) no IEEE Spectrum (abre em nova aba), com o título "Pensamento sistêmico é vital na era da IA", ele defende que a ferramenta pode assumir a parte chata do serviço. Quem decide, e quem responde pelo resultado, continua sendo gente.
O currículo do autor explica por que vale prestar atenção. Aldogom é membro do IEEE (abre em nova aba), pesquisador afiliado ao MIT (abre em nova aba) e líder sênior no Google (abre em nova aba), em Sunnyvale, na Califórnia. Não se trata de um crítico de fora torcendo o nariz para a tecnologia. É alguém de dentro dizendo, em quatro minutos de leitura, que a máquina não assina o projeto. O subtítulo resume a tese: máquinas podem automatizar o trabalho pesado, mas engenheiros tomam as decisões-chave.
O roteiro: a IA trabalha, o humano decide
O artigo descreve um fluxo bem concreto. Primeiro, o engenheiro define o problema. Depois, pede à IA que vasculhe pesquisas e normas técnicas, gere opções de projeto, teste essas opções em simulação (um ensaio virtual feito antes de construir qualquer coisa) e compare os resultados. Até aqui, a máquina faz o trabalho braçal. Em seguida, o engenheiro leva o material a especialistas em segurança, no contexto de uso e nos efeitos sobre quem vai usar o produto. A decisão final, insiste o autor, é responsabilidade humana.

Parece óbvio. Só que, quando uma ferramenta entrega dez opções em minutos, a tentação de pular a segunda metade do roteiro é enorme. O site RobotToday, que repercutiu o artigo, resumiu a mudança assim: o engenheiro deixa de executar tarefas técnicas e passa a orquestrar máquinas, especialistas e julgamento humano.
Pensar o sistema, inclusive a própria IA
No texto, "pensamento sistêmico" é olhar o problema inteiro: as restrições, os pontos em que algo pode falhar e as trocas inevitáveis, já que melhorar uma coisa quase sempre piora outra. Até aí, nada de novo para quem projeta pontes ou aviões. A novidade está na camada que Aldogom acrescenta. Cabe ao engenheiro decidir que trabalho entregar à IA, o que uma pessoa precisa conferir, quando um especialista tem a palavra final e quando o próprio problema precisa ser redefinido.
Traduzindo: a IA deixou de ser só uma ferramenta dentro do sistema e virou uma peça que também precisa ser gerenciada. É a parte mais esperta do argumento, e a que mais falta nas conversas apressadas sobre produtividade.
Porta larga não é diploma
Aldogom não diz que a IA substitui o conhecimento profundo de uma área. Diz que ela facilita a exploração de territórios fora da especialidade de cada um. O exemplo dele é um engenheiro de software trabalhando num dispositivo médico. A entrada para a área vizinha ficou bem mais larga.
E é aí que mora o risco, porque sentir-se competente não é o mesmo que ser. O próprio autor lista os limites da tecnologia:
- respostas convincentes construídas sobre premissas fracas;
- código que passa num teste e falha em outro;
- resumos que não pesam as evidências e colocam o estudo sólido e o frágil no mesmo nível.
A lista vale para qualquer pessoa que use um assistente de IA no escritório, não só para engenheiros. A resposta mais perigosa não é a errada e esquisita. É a errada e bem escrita.
O que falta: regras e prazos
O autor vê o IEEE bem posicionado para apoiar o trabalho entre especialidades, graças às suas sociedades profissionais, aos cursos e às normas técnicas. Também caberia à entidade criar padrões práticos de colaboração entre humanos e máquinas. Os exemplos do que esses padrões deveriam definir são precisos: quando um trabalho gerado por IA precisa ser verificado, como registrar a incerteza e quem é o responsável.
São as perguntas certas. Por ora, porém, continuam sendo só perguntas. O texto é um artigo de opinião, não um estudo: não traz números, testes comparativos nem uma proposta de norma. O RobotToday registra que nenhum cronograma foi divulgado. Quem esperava uma regra pronta sai de mãos vazias. Quem precisava de um bom argumento para levar à próxima reunião sai bem servido.
O engenheiro "sem amarras"
Aldogom fecha com uma definição. O engenheiro "unbound", algo como "sem amarras", é quem entende sistemas complexos, define e redefine problemas, reúne conhecimento e ferramentas, testa soluções e assume a responsabilidade pelo resultado.
Repare no último item. Dá para delegar a pesquisa, o rascunho e a simulação. A responsabilidade não entra no pacote. Numa época em que a máquina responde a tudo com a mesma confiança, lembrar disso não é conservadorismo. É engenharia.


