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    Artificial Analysis v5: ranking de IA aposta em provas secretas e expõe dilema

    A nova versão do índice da Artificial Analysis passa a tirar 60% da nota de testes privados. Um dia após o lançamento, o primeiro lugar foi para um modelo que quase ninguém pode usar.

    Envelope lacrado sobre folhas de prova de programação viradas para baixo em uma carteira escolar vazia, iluminada por luz lateral de fim de tarde
    Na versão 5 do índice da Artificial Analysis, 60% da nota vem de testes privados, longe do escrutínio público
    Neste artigo

    Na terça-feira (27), a Artificial Analysis (abre em nova aba) lançou a quinta versão do Intelligence Index, o placar que muita gente usa para descobrir qual é a IA mais inteligente do momento. A maior mudança não está em quem ficou em primeiro. Pela primeira vez, a maior parte da nota vem de provas que o público não pode ver. Segundo o site WinBuzzer, 60% do índice agora se apoia em testes com perguntas privadas ou gabaritos guardados, contra 45% na versão anterior.

    Um dia depois do lançamento, o primeiro lugar trocou de dono. O novo líder é um modelo que quase ninguém consegue usar.

    Por que esconder a prova

    O motivo é velho conhecido de qualquer professor de cursinho. Quando as questões são públicas, as empresas de IA podem ajustar seus modelos para acertar exatamente aquelas questões, de propósito ou não. A nota sobe sem que o modelo fique mais capaz. No setor, isso ganhou o apelido de benchmaxxing, e esconder a prova é a defesa mais óbvia.

    Mãos de um fiscal rompem o lacre de um envelope pardo de provas sigilosas diante de fileiras de carteiras vazias de cursinho, iluminadas pela luz fria da manhã que entra pela janela.
    Na nova versão do índice, 60% da nota vem de testes privados, longe dos olhos de quem é avaliado.

    Na prática, o v5 trouxe dois testes novos e três atualizados:

    • FrontierCode 2.0. É uma prova privada da Cognition (abre em nova aba) com tarefas reais de programação. A pergunta que decide a nota é simples e dura: o responsável por aquele projeto aceitaria a alteração feita pela IA?
    • Terminal-Bench-Science. Reúne 70 tarefas de pesquisa científica que o próprio modelo executa sozinho no terminal, a tela de comandos usada por programadores.
    • HLE-Diamond. Substitui o conhecido Humanity's Last Exam e tem mil questões divididas igualmente entre raciocínio e conhecimento.

    Três provas saíram, entre elas o SciCode. A nota final agora se divide em quatro áreas de peso igual, com 25% cada: trabalho intelectual, programação, ciência e conhecimento geral. Dentro de conhecimento geral, 5 pontos percentuais premiam o modelo que não inventa respostas. A empresa também lançou o Progress Index, que acompanha a evolução dos modelos numa escala contínua ao longo do tempo. É uma tentativa de resolver um problema que o próprio v5 deixa claro: quando a prova muda, a régua muda junto.

    Quem está na frente

    ModeloNota no v5Observação
    Gemini 4 Carbon59Entrou um dia após o lançamento, com acesso restrito
    Claude Opus 5.5 (max)58Líder no dia do lançamento
    GPT-6 Astra (max)57
    GPT-6.1 Sol (max)55
    Kimi K3.1 Pro46Melhor modelo aberto, pesos ainda não liberados

    No dia do lançamento, o Claude Opus 5.5, da Anthropic (abre em nova aba), liderava com 58 pontos. A distância entre os modelos fechados e os de pesos abertos, aqueles que qualquer pessoa pode baixar e rodar, saltou de 3 para 12 pontos. Nathan Lambert, pesquisador que escreve a newsletter Interconnects (abre em nova aba), menciona um gráfico da Artificial Analysis em que oito modelos fechados superam o Kimi K3.1 Pro. Só pelos números, porém, não dá para saber quanto desse salto é avanço real dos fechados e quanto é efeito da troca de provas.

    Outro dado ajuda a entender o tamanho do novo exame. A mediana de tokens que cada modelo gera para resolver uma tarefa subiu de 35 mil para 59 mil, segundo a empresa. Tokens são os pedaços de texto que a IA produz. Em linguagem simples, as provas ficaram mais longas e mais caras de fazer.

    O dilema de quem mede

    É aqui que a história fica interessante. Lambert descreve o índice da Artificial Analysis como a métrica independente mais influente para os modelos de ponta, com o índice da Epoch AI num segundo lugar distante. Para ele, os dois são úteis e "massivamente falhos". Ele considera as provas privadas defensáveis contra a manipulação das notas, mas lembra que elas cobram um preço. É preciso confiar em quem montou o teste. E perde-se a ajuda da comunidade, que numa prova pública consegue apontar uma questão mal feita ou um gabarito errado. No v5, parte dessa confiança vai para uma terceira empresa, já que o FrontierCode é da Cognition.

    O incômodo maior está no dinheiro. Segundo Lambert, o negócio da Artificial Analysis é vender verificação paga para os próprios laboratórios de IA. A Arena, outro placar popular, faz testes para as empresas antes dos lançamentos. Ou seja, os juízes recebem dos times. Lambert diz que, quando o assunto é ser justo, confia mais em organizações sem fins lucrativos, universidades e órgãos de governo, como o CAISI. Quando o assunto é medir com precisão o que acontece na fronteira, confia mais em startups como a Artificial Analysis e a Arena. Esse é o dilema do título: quem tem isenção raramente tem velocidade, e quem tem velocidade raramente tem isenção.

    O episódio do Gemini 4 Carbon mostra o efeito disso para quem só quer escolher uma ferramenta. A própria Artificial Analysis anunciou no X que o modelo do Google assumiu a liderança com 59 pontos, e explicou as condições de acesso:

    Assim como no lançamento do Gemini 4 Argon, o Gemini 4 Carbon está sendo liberado para usuários selecionados e ainda não está disponível ao público. O Google está oferecendo um desconto de lançamento de 50%, sem data de término confirmada. Todos os nossos gráficos e números usam o preço padrão tanto para o Gemini 4 Carbon quanto para o Argon.

    — Artificial Analysis (@ArtificialAnlys), 28 de out. de 2026, no X

    Segundo o WinBuzzer, por enquanto só parceiros selecionados da área de cibersegurança têm acesso ao modelo. O ranking mais citado da indústria, portanto, é liderado por algo que você não pode testar.

    Isso não torna o v5 uma má ideia. Esconder a prova é a direção certa num mercado em que as empresas têm todos os incentivos para decorar o gabarito. Mas o número deve ser lido como a avaliação de um árbitro bem informado, que tem clientes, e não como um veredito. Para quem está escolhendo uma IA, vale olhar a nota da área que importa para o seu trabalho e conferir se o modelo está de fato disponível. Uma diferença de um ponto no topo da tabela não deve ser motivo para trocar de assinatura.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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