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    Argon vira Gemini 4 oficialmente; o clone do Excel em 20 minutos segue sem prova

    O Google confirmou o Argon como Gemini 4 Argon e o liberou em 13 de outubro. A demonstração viral da planilha feita em 20 minutos, porém, não tem registro verificável, e os recordes divulgados são medições da própria empresa.

    Folha impressa de planilha com fórmulas, cercada por pontos de interrogação vermelhos, ao lado de um cronômetro parado em 20 minutos, sob luz lateral
    O Gemini 4 Argon foi lançado oficialmente, mas a planilha supostamente criada em 20 minutos continua sem registro verificável
    Neste artigo

    O mistério acabou. O modelo que circulava com o apelido de Argon, sem assinatura oficial e já chamado de "Gemini 4" por quem o testava, tem dono e nome: Gemini 4 Argon. O Google o anunciou em 30 de setembro e o liberou ao público em 13 de outubro. Já a façanha que fez o Argon viralizar, um clone do Excel montado em cerca de 20 minutos, continua sendo o que sempre foi: uma demonstração que ninguém de fora conseguiu conferir. A confirmação da marca não comprova a demonstração.

    Para quem usa o Gemini no dia a dia, a mudança que conta é outra. O Argon passou a ser o modelo mais capaz do Google, segundo a própria empresa, e fica atrás de assinatura paga.

    O que o Google confirmou

    O anúncio de 30 de setembro (abre em nova aba) é assinado por Koray Kavukcuoglu, vice-presidente sênior do Google DeepMind e arquiteto-chefe de IA do Google. O texto apresenta o Argon como um modelo para tarefas longas e complexas: programação, trabalho corporativo nas áreas jurídica e financeira e defesa contra ataques digitais. Naquele dia, quase ninguém de fora podia usá-lo. O acesso ficou restrito a especialistas em segurança selecionados pelo Fairwind Program. A empresa também disse participar do processo voluntário do governo dos Estados Unidos que dá acesso antecipado a modelos antes do lançamento.

    Pequeno grupo de especialistas reunido em torno de uma mesa com anotações e notebooks em sala fechada, iluminada pela luz fria da manhã
    Sem registro verificável, a demonstração viral do clone de planilha ainda não passou por checagem independente

    Esse primeiro grupo e as equipes internas do Google recebem o Argon sem as travas de segurança cibernética que normalmente limitam o que o modelo aceita fazer. A empresa apresenta isso como ferramenta para defensores. É também uma escolha que transfere ao Google a responsabilidade de decidir, com critérios próprios, quem merece essa confiança.

    Em 13 de outubro veio a disponibilidade global (abre em nova aba). O acesso foi dividido assim:

    • Desenvolvedores e empresas: via API no Google AI Studio (abre em nova aba) e na plataforma Gemini.
    • Assinantes do Google AI Ultra: dentro do Antigravity, onde engenheiros do próprio Google usam o modelo para escrever código.
    • Assinantes Ultra e Pro: no app Gemini e no Modo IA da Busca.

    O preço para desenvolvedores segue o padrão do setor, cobrado por token, a unidade de texto que a IA lê e escreve. No período introdutório, são US$ 2 por milhão de tokens enviados ao modelo e US$ 10 por milhão de tokens gerados, com desconto de 95% para entradas reaproveitadas da memória (o chamado cache). Depois, os valores dobram para US$ 4 e US$ 20. Segundo o SiliconANGLE, é exatamente o que a Anthropic (abre em nova aba) cobra pelo Claude Opus 5.5. O desconto inicial, portanto, serve para tirar clientes do concorrente, não para baratear a IA de forma permanente.

    Há ainda um número técnico que ajuda a entender o burburinho da planilha. O tamanho máximo de uma resposta do modelo subiu de 64 mil para 1 milhão de tokens. Na prática, o Argon consegue entregar programas muito maiores de uma vez só. Isso torna plausível gerar um aplicativo inteiro, como uma planilha, numa única sessão. Plausível, porém, não é o mesmo que comprovado.

    O que é palavra do Google

    Os recordes divulgados vêm de gráficos do próprio Google, não de auditoria independente. Os principais:

    TesteArgon, segundo o GoogleRival citado no gráfico
    DeepSWE v1.1 (engenharia de software)77,9%Claude Opus 5.5: 74,2%
    AutomationBench, da Zapier (automação)51,3%Claude Opus 5.5: 42,5%
    CWE-bench v168%, empatado em 1º—

    No DeepSWE, o Argon aparece só um décimo de ponto à frente do GPT-6 Astra, da OpenAI. Pela contagem do VentureBeat citada pelo SiliconANGLE, o Argon lidera sozinho 12 dos 18 testes exibidos pelo Google. O Claude Opus 5.5 continua na frente no Terminal-Bench 4.0, e o GPT-6 Astra mantém o FrontierSWE v2. Mesmo nos números escolhidos pela própria empresa, a vantagem não é total.

    Os casos de uso internos seguem a mesma lógica. O Google afirma que o Argon ajudou a reorganizar uma pasta antiga de cerca de 6 milhões de linhas dentro do código do Chromium, base do navegador Chrome, que tem 40 milhões de linhas. Segundo a empresa, foram centenas de arquivos e "meses de trabalho em semanas". A empresa também diz que engenheiros que usam o Argon enviaram mais de 35% de código a mais e desfizeram quase um terço menos de alterações. A lista de depoimentos de clientes inclui Deloitte, LexisNexis, Box e Quora. São relatos escolhidos por quem vende o produto, não testes comparativos.

    Repare no que o Google escolheu como vitrine: código de navegador, ferramentas internas, química computacional. Clone de Excel não aparece entre os exemplos destacados pela empresa.

    O que segue sem confirmação

    A planilha em 20 minutos. Ninguém publicou de forma verificável o pedido exato feito ao modelo, se o resultado saiu de primeira ou depois de várias correções, nem quais funções da planilha de fato funcionavam. Também não há como confirmar, de fora, que a versão testada anonimamente é idêntica à que o Google lançou. Sem esses dados, os 20 minutos são uma anedota, não uma medida de desempenho.

    O posto de "melhor modelo do mundo". O The Decoder, site especializado em IA, registra que o Argon lidera o Vals Index, mas ainda fica atrás do Claude Opus 5.5 nos rankings gerais independentes. Ou seja, quem ganha depende de quem faz a conta.

    O sucessor. O mesmo site relata, como informação de bastidor e não como anúncio do Google, que a empresa já testaria internamente um modelo de codinome "Carbon", que superaria o Argon justamente em programação. O ciclo de apelido misterioso, demonstração viral e lançamento oficial pode recomeçar antes de o Argon completar um mês.

    O que muda para você

    Pela nova divisão de planos descrita pelo The Decoder, o Argon substitui a antiga linha Pro do Gemini. Quem usa a versão gratuita ou paga o plano Plus passa a ter acesso apenas aos modelos Flash, mais leves. Para usar o Argon no app Gemini (abre em nova aba), é preciso assinar o Pro ou o Ultra. Quem programa pode testar pela API no AI Studio, pagando pelo uso.

    O clipe da planilha fez o trabalho de marketing antes mesmo de o Google assumir o modelo. O que mudou de fato para a maioria dos leitores é mais prosaico: a versão mais capaz do Gemini agora tem preço, e para desenvolvedores esse preço vai dobrar quando a promoção acabar.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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