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    Apuração da crise na OpenAI aponta quebra de confiança; relatório completo segue inédito

    A revisão encomendada pelo conselho da OpenAI concluiu que a demissão de Sam Altman em 2023 nasceu de uma quebra de confiança e não de questões de segurança. A empresa publicou apenas um resumo, e o relatório integral do escritório WilmerHale nunca foi divulgado.

    Relatório jurídico confidencial com páginas lacradas e trechos censurados sobre mesa de reunião em escritório, iluminado por luz natural lateral
    Documento lacrado sobre mesa de reunião: apuração aponta quebra de confiança, mas relatório completo segue inédito
    Neste artigo

    Em 17 de novembro de 2023, o conselho de administração da OpenAI (abre em nova aba) demitiu Sam Altman do cargo de CEO e o retirou do próprio conselho. O conselho é o grupo de pessoas que, numa empresa, responde pelos rumos estratégicos e fiscaliza a diretoria. Cinco dias depois, sob pressão de funcionários e investidores, Altman estava de volta. Ficou a pergunta: o que, exatamente, aconteceu naquela sala?

    A resposta oficial demorou. Em 8 de dezembro de 2023, o novo conselho contratou o WilmerHale, um escritório de advocacia dos Estados Unidos, para investigar o episódio. Segundo reportagem do Bloomberg, os conselheiros Bret Taylor e Larry Summers entrevistaram vários escritórios antes de escolher os advogados Anjan Sahni e Hallie B. Levin para conduzir "uma revisão eficaz e ágil".

    O que a revisão concluiu

    O resultado foi anunciado pela própria OpenAI em 8 de março de 2024, em uma página assinada pelo comitê especial do conselho. A apuração envolveu dezenas de entrevistas com membros do conselho antigo, executivos, assessores e outras testemunhas, além da análise de mais de 30 mil documentos.

    Advogados revisam pilhas de documentos e pranchetas de entrevistas sobre uma mesa de conferência iluminada, sem rostos identificáveis.
    Apuração interna aponta quebra de confiança como motivo da saída de executivo em 2023; relatório completo permanece inédito.

    As conclusões, resumidas pela empresa:

    • Houve uma "quebra de confiança" entre o conselho antigo e Altman, e foi ela que precipitou a demissão de 17 de novembro.
    • O comunicado público publicado pelo conselho antigo naquele dia relatou com precisão a decisão e os motivos apresentados.
    • O conselho acreditava que as demissões resolveriam problemas internos de gestão e não previa que desestabilizariam a empresa.
    • A decisão não nasceu de segurança de produto, ritmo de desenvolvimento, finanças ou declarações a investidores, clientes e parceiros.
    • A operação foi feita em prazo encurtado, sem aviso prévio a pessoas-chave, sem investigação completa e sem dar a Altman a chance de responder às preocupações.
    • O conselho antigo agiu dentro de sua ampla discricionariedade, ou seja, tinha poder formal para demitir Altman, mas a conduta dele não exigia a demissão.

    Com base nesse resultado, o conselho declarou confiança total em Altman e em Greg Brockman, presidente e cofundador que saiu junto. Bret Taylor, presidente do conselho, resumiu: "Concluímos por unanimidade que Sam e Greg são os líderes certos para a OpenAI". Altman voltou ao conselho, e três novos nomes foram eleitos: Sue Desmond-Hellmann, Nicole Seligman e Fidji Simo.

    O que mudou na estrutura

    A mesma página anunciou mudanças de governança: novas diretrizes corporativas, uma política de conflito de interesses reforçada, um canal de denúncias anônimas para funcionários e prestadores de serviço e comitês adicionais, incluindo um dedicado a missão e estratégia. Em tese, o tipo de decisão abrupta de novembro de 2023 teria mais obstáculos pela frente.

    O que ficou de fora

    Se alguém esperar do caso um documento denso, com páginas de evidência e respostas ponto por ponto, vai se frustrar. A página de 8 de março é um resumo. O texto nem afirma se existe um relatório escrito da WilmerHale.

    Esse buraco voltou a ser discutido em abril de 2026, quando o jornalista Ronan Farrow falou ao The Verge sobre uma reportagem que escreveu para a revista The New Yorker junto com Andrew Marantz. Segundo Farrow, a revisão foi uma exigência dos conselheiros que demitiram Altman como condição para saírem quando ele voltou. Na leitura de especialistas em direito e de pessoas da empresa com quem ele conversou, o trabalho ficou fora dos registros escritos: o que chegou ao público foi um comunicado de cerca de 800 palavras descrevendo a quebra de confiança, e a reportagem confirmou que as conclusões foram apresentadas só em briefings orais. Farrow comparou isso com as investigações que a mesma WilmerHale publicou integralmente nos casos Enron e WorldCom, dois escândalos corporativos famosos nos Estados Unidos.

    Vale a precisão: trata-se da caracterização feita por Farrow a partir da sua reportagem, não da liberação de um documento. Mas o contraste com a prática do próprio escritório é um dado verificável e dá peso à crítica.

    A versão antes do veredito

    Antes do anúncio, jornalistas haviam descrito um cenário mais turbulento do que o resumo oficial sugere. Em novembro de 2023, o The New York Times, citando pessoas familiarizadas com as deliberações, relatou que Altman e o conselho se desgastavam havia mais de um ano; que Altman chegou a tentar afastar uma conselheira por considerar que um artigo científico que ela ajudou a escrever criticava a empresa; que Ilya Sutskever, então cientista-chefe, achava que Altman nem sempre era honesto com o conselho; e que parte dos membros o via como focado demais em crescimento, num desequilíbrio com a segurança da inteligência artificial.

    Em fevereiro de 2024, às vésperas do resultado, o mesmo jornal relatou, por meio de duas pessoas com conhecimento do processo que falaram sob anonimato por causa de acordos de confidencialidade, que a apuração estava quase pronta. A reportagem acrescentou um motivo específico: em privado, o conselho temia que Altman não compartilhasse todos os planos de captação com investidores do Oriente Médio para um projeto de chips de IA. A OpenAI declinou comentar; a WilmerHale não respondeu.

    Compare as duas versões. O resumo oficial fala em quebra de confiança e diz o que não causou a demissão, mas não detalha o que causou. As reportagens de 2023 e 2024 apontam desconfianças concretas, inclusive sobre financiamento. O documento público não confirma nem desmente esses relatos; eles seguem como narrativas de fontes anônimas.

    Limite prático da revisão

    A apuração concluiu que o conselho antigo tinha autoridade para agir, mas agiu mal no processo. Ninguém foi responsabilizado, nenhuma acusação específica foi julgada em detalhe e o texto integral não foi publicado. A recomendação prática foi endossar a decisão de 21 de novembro de 2023, que já havia recolocado Altman e Brockman nos cargos. Ou seja: o veredito sancionou uma situação que já estava resolvida na prática.

    Um detalhe banal muda a leitura do conjunto. Quem redigiu o documento final foi a própria OpenAI, não a WilmerHale. O que o mundo conhece das conclusões passa, portanto, por um filtro único: a empresa investigada, na figura do comitê do conselho que recompôs a diretoria. É como se o laudo de uma vistoria fosse resumido pelo dono do imóvel. Não que o resumo seja necessariamente falso, mas o leitor não tem como conferir.

    Perguntas frequentes

    Sam Altman voltou ao cargo de CEO?

    Sim. Ele foi demitido em 17 de novembro de 2023, retornou em 21 de novembro do mesmo ano e voltou ao conselho de administração quando a revisão foi concluída, em 8 de março de 2024.

    O relatório completo da WilmerHale foi publicado?

    Não. O que existe publicamente é um resumo de cerca de 800 palavras publicado pela OpenAI em março de 2024. A página nem indica se um relatório escrito existe. Segundo a reportagem de Ronan Farrow, as conclusões foram apresentadas apenas em briefings orais.

    A demissão de Altman teve a ver com segurança da inteligência artificial?

    Segundo a revisão da WilmerHale, não. A decisão do conselho antigo não nasceu de segurança de produto ou de sistemas, do ritmo de desenvolvimento, das finanças ou de declarações a investidores e parceiros. A causa apontada foi a quebra de confiança entre o conselho e Altman.

    O que a OpenAI mudou depois da crise?

    A empresa anunciou novas diretrizes de governança corporativa, uma política de conflito de interesses reforçada, um canal de denúncias para funcionários e prestadores de serviço e comitês adicionais no conselho, incluindo um dedicado a missão e estratégia.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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