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    NotíciaNegócios e mercado

    Aposta de US$ 10 trilhões em IA trava no crédito e recria sinais da crise de 2008

    Veteranos que enfrentaram o colapso financeiro de 2008 alertam para o endividamento oculto das gigantes de tecnologia, enquanto falta dinheiro até para a OpenAI e o mercado perde US$ 2 trilhões.

    Racks de servidores de um centro de dados apagados e presos por correntes enferrujadas, refletindo no vidro um gráfico financeiro vermelho em queda.
    Restrição de crédito e endividamento oculto travam investimentos trilionários na infraestrutura do setor de tecnologia.

    A fatura para construir a infraestrutura global de inteligência artificial deve passar de US$ 10 trilhões se todos os planos atuais saírem do papel, mas o dinheiro fácil acabou e a conta começou a ser pendurada no crediário. Na terça-feira (3), duas vozes que viram de dentro o colapso financeiro de 2008 soaram o alarme: Bill Dudley, ex-presidente do banco central de Nova York, e Sheila Bair, que comandou o fundo garantidor de depósitos dos Estados Unidos (FDIC) durante a quebra do Lehman Brothers. O diagnóstico de ambos converge para um risco clássico: quando uma euforia tecnológica troca o dinheiro em caixa por dívidas complexas em um mundo de juros altos, o terreno fica pronto para uma nova crise financeira.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​‌‌​​‌‌​​‌‌​​​​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌​​​​‌‌​​​​​​‌‌​‌‌​​​‌‌​‌​‌​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​​​​​​‌‌‌​​​​​‌‌​​​​​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​‌​​‌‌​​​‌​​​‌‌‌​​​​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​​​‌‌​​‌​‌​​‌‌‌​​​​​‌‌​​‌​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​​‌​​‌‌​​​​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​‌​​​‌‌​​‌​​​​‌‌​​​​⁠

    O primeiro grande estalo dessa engrenagem ocorreu em outubro, quando o índice Nasdaq 100 perdeu mais de US$ 2 trilhões em valor de mercado. Depois de anos assinando cheques em branco, os investidores olharam para os balanços das grandes empresas de tecnologia e passaram a duvidar de que os trilhões enterrados em centros de dados tragam lucro rápido. O seguro contra calote nos títulos de dívida de algumas empresas do setor disparou, e a torneira secou até para a vitrine dessa revolução: a OpenAI (abre em nova aba) precisou cortar a meta de sua última rodada de captação de US$ 30 bilhões para US$ 20 bilhões, após conseguir compromissos de apenas US$ 11 bilhões.

    O perigo para o sistema financeiro mora na forma como essa expansão está sendo paga. Segundo Dudley detalhou em artigo na Bloomberg (abre em nova aba), o dinheiro não sai apenas do caixa das empresas ou da venda de ações na bolsa. A conta inclui dívidas privadas, contratos de aluguel que ficam escondidos fora do balanço patrimonial oficial e garantias financeiras que as gigantes da computação em nuvem e a fabricante de chips Nvidia (abre em nova aba) dão aos construtores de data centers. Quando uma empresa garante a dívida de um terceiro ou esconde obrigações de longo prazo fora da contabilidade principal, o risco real fica invisível até que alguém deixe de pagar, razão pela qual a agência S&P Global (abre em nova aba) rebaixou na última sexta-feira (30) a perspectiva de crédito da Meta (abre em nova aba) de estável para negativa, apontando fluxo de caixa negativo e incerteza sobre o tamanho dos seus gastos.

    Mesa de madeira escura com relatórios financeiros empilhados ao lado de chips de computador e placas de servidor, com luzes azuis de um data center desfocadas ao fundo.
    Especialistas apontam riscos no endividamento oculto utilizado para financiar a expansão de infraestrutura das gigantes de tecnologia.

    Essa montanha de crédito privado cresce no pior cenário macroeconômico possível. O choque de energia provocado pela guerra no Irã e as políticas comerciais erráticas do presidente americano Donald Trump reacenderam a inflação global, mantendo o juro dos títulos de dez anos do Tesouro dos EUA perto da marca perigosa de 5% ao ano. Como o IA.com.br acompanha na cobertura do mercado, a transição da euforia do software para o custo físico de concreto, energia e silício submete o Vale do Silício à regra mais velha da praça bancária: juro alto sempre fareja e expõe quem tomou dinheiro emprestado além da conta, como lembrou Jim O'Neill, ex-economista-chefe do Goldman Sachs, à agência Reuters (abre em nova aba).⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​‌‌​​‌‌​​‌‌​​​​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌​​​​‌‌​​​​​​‌‌​‌‌​​​‌‌​‌​‌​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​​​​​​‌‌‌​​​​​‌‌​​​​​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​‌​​‌‌​​​‌​​​‌‌‌​​​​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​​​‌‌​​‌​‌​​‌‌‌​​​​​‌‌​​‌​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​​‌​​‌‌​​​​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​‌​​​‌‌​​‌​​​​‌‌​​​​⁠

    O ralo trilionário da inteligência artificial já começa a sufocar a economia real fora do mundo digital. Também na terça-feira (3), o órgão regulador financeiro da China alertou que a concentração excessiva de capital global em tecnologia está encarecendo o crédito para a indústria tradicional. Na prática, uma fábrica comum que precisa de financiamento para comprar máquinas novas ou modernizar sua linha de produção passa a disputar dinheiro mais caro com bilionários que constroem galpões de servidores.

    Há ainda o risco de os galpões ficarem prontos sem que haja clientes suficientes para pagar a conta. Economistas ligados ao Centro de Pesquisa de Política Econômica (CEPR) comparam o momento atual aos anos 1920, década que antecedeu a Grande Depressão de 1929. Naquela época, inovações que barateavam os processos produtivos geraram um otimismo cego e levaram a indústria a investir muito além do que o bolso dos consumidores podia absorver. Se a aposta atual der errado e o castelo de dívidas da inteligência artificial ruir, Sheila Bair lembra uma diferença incômoda em relação a 2008: com os governos dos Estados Unidos, da França e do Japão atolados em dívidas públicas recordes, os cofres estatais não têm munição fiscal para salvar Wall Street outra vez.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​‌‌​​‌‌​​‌‌​​​​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌​​​​‌‌​​​​​​‌‌​‌‌​​​‌‌​‌​‌​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​​​​​​‌‌‌​​​​​‌‌​​​​​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​‌​​‌‌​​​‌​​​‌‌‌​​​​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​​​‌‌​​‌​‌​​‌‌‌​​​​​‌‌​​‌​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​​‌​​‌‌​​​​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​‌​​​‌‌​​‌​​​​‌‌​​​​⁠

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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