Pular para o conteúdo
    NotíciaNegócios e mercado

    Anthropic promete 5% das ações a fundo de benefício público às vésperas do IPO

    A dona do Claude quer colocar 5% das ações, cerca de US$ 48 bilhões no papel, num fundo que pode até pagar trabalhadores afetados pela IA. As regras ainda não foram divulgadas, e a abertura de capital pode acontecer em poucas semanas.

    Mãos de trabalhadores seguram uma fatia recortada de um grande certificado de ações em frente à fachada da bolsa de valores de Nova York, sob a luz da manhã
    Anthropic planeja destinar 5% de suas ações, avaliadas em cerca de US$ 48 bilhões, a um fundo de benefício público às vésperas da abertura de capital
    Neste artigo

    A Anthropic (abre em nova aba), dona do assistente Claude (abre em nova aba), anunciou no domingo (18) que quer colocar 5% de suas ações num fundo dedicado ao "benefício público". A última avaliação da empresa, numa rodada privada, foi de US$ 965 bilhões. Por esse preço, a fatia vale cerca de US$ 48 bilhões no papel. O fundo foi desenhado para crescer junto com a empresa. Segundo a Anthropic, ele pode até mandar dinheiro diretamente para grupos de pessoas, e o exemplo citado são trabalhadores afetados pela inteligência artificial.

    A newsletter The Rundown AI resumiu o contexto: os laboratórios de ponta repetem há tempos que o dinheiro gerado pela IA deveria ser dividido com o público, mas essa conversa ficou até agora em pesquisas e alertas. A Anthropic pôs ações de verdade por trás da frase. O anúncio, porém, deixa em branco justamente as partes que definem se ele vale alguma coisa. E sai poucas semanas antes do que pode ser a maior abertura de capital da história da bolsa. Os dois fatos precisam ser lidos juntos.

    O que foi anunciado, e com quais condições

    Um pouco de contexto para quem chega agora. A Anthropic é uma public benefit corporation, um formato de empresa americana que busca lucro, mas tem no estatuto o compromisso com uma missão pública. Segundo a companhia, quase tudo o que ela faz em nome dessa missão acontece dentro da própria empresa: pesquisa em segurança de IA, pesquisa biomédica e descontos no Claude para ONGs e instituições científicas.

    Pesquisadores de jaleco e luvas pipetam amostras biomédicas em bancada de laboratório iluminada por luz natural vinda de uma janela lateral
    Fundo bilionário prometido pela Anthropic pode financiar ciência e apoiar trabalhadores afetados pela automação, mas suas regras ainda não foram divulgadas

    O novo veículo, batizado de Anthropic Public Benefit Fund, serve para o que não cabe nesse arranjo. De acordo com o comunicado oficial (abre em nova aba), ele poderá fazer "grandes doações a organizações sem fins lucrativos tradicionais ou distribuições diretas a populações específicas".

    O fundo em números
    Participação inicial5% das ações, se os acionistas aprovarem
    Valor no papel, pela última avaliação (US$ 965 bi)cerca de US$ 48 bilhões
    Acréscimo possível+2% das ações a cada alta de 50% no valor da empresa acima de um patamar de referência
    Patamar de referêncianão divulgado
    Já comprometido pela empresa para estudar impactos da IA no trabalhoUS$ 200 milhões

    Três condições mudam a leitura da manchete:

    • Os 5% ainda não existem. A transferência depende de aprovação dos acionistas.
    • Os acréscimos não são automáticos. Os 2% extras entram "a critério do conselho".
    • Ninguém de fora sabe a régua. O valor a partir do qual a valorização será medida não foi revelado. A empresa promete divulgar os marcos, a estrutura e as regras de governança "nos próximos meses".

    Sobre emprego, a Anthropic lembra que já destinou US$ 200 milhões a estudar e enfrentar os efeitos da IA no mercado de trabalho. Também afirma que, "dado o ritmo do progresso da IA, abordagens mais ousadas podem ser necessárias". Não disse quais.

    Uma empresa da empresa, não uma ONG

    A Anthropic montou o fundo como uma LLC, um tipo de empresa limitada nos EUA, inteiramente controlada por ela. A alternativa óbvia seria uma 501(c)(3), o formato padrão das entidades beneficentes americanas, que tem regras rígidas sobre o uso dos recursos. A justificativa oficial para a escolha é ter "ajustabilidade entre diferentes formas de doação". Na prática, a mesma estrutura pode doar a entidades e também pagar pessoas diretamente.

    Essa flexibilidade existe, e é o ponto que mais merece atenção. Uma LLC de propriedade integral da Anthropic significa que, ao menos por enquanto, quem decide o destino dessas ações é a própria Anthropic. Enquanto as regras de governança não forem publicadas, não há como saber quem escolhe os beneficiários, com quais critérios e com que prestação de contas. A única restrição explícita até aqui é relevante: nenhuma ação do fundo poderá ser usada para lobby ou doações políticas, nos EUA ou no exterior. Mas uma proibição não chega a ser um regulamento.

    Bônus de executivo, versão coletiva

    A comparação foi feita pela própria Anthropic: "É prática comum empresas de tecnologia oferecerem a seus executivos pacotes de remuneração que crescem. Nós estamos, em vez disso, direcionando essas ações ao benefício público." Daí o título que a The Rundown AI deu à notícia: um pacote de remuneração para o público.

    A lógica é parecida com a dos megapacotes de executivos: quanto mais a empresa vale, mais o beneficiário recebe. A empresa não citou nomes. A analogia funciona bem como comunicação, mas cobra um preço. Hoje o "público" não tem contrato, metas conhecidas nem garantia de que a fatia vai crescer. Tudo isso depende de um conselho e de um número que a empresa ainda não mostrou.

    O que está dentro dos "20%"

    A Anthropic afirma que, somando o fundo a compromissos anteriores, cerca de 20% de suas ações ficarão dedicadas ao bem público, além de qualquer acréscimo futuro. Essa conta tem três partes:

    • na fundação, os cofundadores prometeram doar 80% de suas participações;
    • desde o início, a empresa mantém um programa em que funcionários prometem doar ações e a Anthropic oferece uma contrapartida; cerca de metade dos funcionários participa;
    • o novo fundo acrescenta os 5%.

    Ou seja, três quartos desses 20% vêm de promessas de fundadores e funcionários, somadas à contrapartida da empresa. O fundo responde por 5 pontos. É a única parte que a Anthropic controla como instituição, e também a única que ainda precisa de voto.

    O relógio do IPO

    Segundo a Quartz, que cita a Bloomberg, a apresentação formal da oferta de ações a investidores pode começar já na semana de 9 de novembro. Nesse cronograma, a Anthropic estaria negociando na bolsa antes do feriado americano de Ação de Graças, no fim do mês. A Fast Company descreve a operação como possivelmente a maior oferta pública inicial da história. A Quartz relata que a empresa avaliou uma abertura de capital que a colocaria em US$ 2 trilhões. O registro na SEC, a CVM americana, foi feito de forma confidencial, e o prospecto (o S-1) ainda não é público.

    Com o valor de US$ 2 trilhões, os 5% iniciais passariam a valer cerca de US$ 100 bilhões no papel, antes de qualquer acréscimo. A conta tem outra consequência, mais importante. Se a empresa fala em detalhar o fundo "nos próximos meses" e a ação pode estrear em novembro, é possível que os papéis já estejam na bolsa antes que alguém conheça as regras de quem decide e de quem recebe.

    A reação inicial nas redes foi majoritariamente cética, segundo a Fast Company. Elon Musk, presidente da Tesla e da SpaceX, respondeu no X sugerindo que a Anthropic desse as ações diretamente ao público, de acordo com a CNBC.

    O momento não torna o anúncio falso. Mas uma empresa prestes a se vender para investidores tem todo o incentivo para polir a imagem, e a própria The Rundown AI apontou que a confiança do público na IA está caindo. A newsletter avaliou que dinheiro na mão das pessoas pode fazer mais pela reputação do setor do que mais um ensaio. Por isso mesmo, só vai contar o que for publicado por escrito.

    O que muda para você

    No curto prazo, nada chega ao seu bolso. Não existe programa, inscrição, critério de elegibilidade nem definição de quem seriam as "populações específicas". O comunicado não diz se trabalhadores fora dos Estados Unidos entram na conta. Se você trabalha numa área que já sente o efeito da IA, o anúncio sinaliza uma intenção. Ainda não é um benefício que você possa pedir.

    Vale acompanhar:

    • A votação dos acionistas sobre os 5% iniciais.
    • O patamar de referência e os marcos de valorização, que dizem se e quando a fatia cresce.
    • As regras de governança: quem escolhe os beneficiários, com que critérios e com que transparência.
    • O próximo relatório de benefício público, no qual a empresa promete prestar contas de sua missão.
    • O prospecto da oferta (S-1), ainda confidencial.

    Até esses documentos saírem, o Anthropic Public Benefit Fund é uma participação acionária de cerca de US$ 48 bilhões no papel, que ainda depende de aprovação e não tem regra pública sobre quem decide e quem recebe.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

    Ver perfil completo