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    Anthropic monta laboratório de biologia para testar sua IA em experimentos reais

    A Anthropic confirmou a existência de um laboratório de biologia na região da baía de São Francisco, destinado a experimentos físicos e não apenas simulações. A empresa não revelou o que pesquisa no local e diz que a automação com IA está em fase muito inicial.

    Anthropic monta laboratório de biologia para testar sua IA em experimentos reais
    Filipe Mendes

    21 de setembro de 2026

    A Anthropic, empresa conhecida por desenvolver o assistente de inteligência artificial Claude, confirmou que mantém um laboratório de biologia na região da baía de São Francisco, nos Estados Unidos, onde realiza experimentos físicos. A existência do espaço foi confirmada nesta sexta-feira, 18 de setembro de 2026, pelo responsável pela área de ciências da vida da companhia, Eric Kauderer-Abrams, que também adiantou parte da estratégia por trás do projeto.

    O espaço é o que os cientistas chamam de laboratório úmido, ou wet lab: um local onde pesquisadores manipulam materiais reais, como proteínas e células, em vez de apenas simular tudo no computador. Uma analogia útil é a diferença entre aprender a cozinhar lendo receitas e de fato acender o fogão. A Anthropic vinha estudando biologia de forma digital, e agora criou a cozinha onde as hipóteses podem ser postas à prova.

    O que se sabe e o que segue em segredo

    A empresa confirmou que o laboratório existe, mas manteve quase tudo em sigilo: não divulgou tamanho, número de funcionários, data de abertura nem nível de biossegurança, que é a classificação que indica que tipo de trabalho o ambiente pode comportar com segurança. Um porta-voz informou apenas que o espaço não foi criado especificamente para a descoberta de medicamentos e, em seguida, se recusou a dar mais detalhes.

    Kauderer-Abrams explicou que a operação se parece com a de empresas de biotecnologia convencionais: parte dos experimentos acontece nas instalações próprias e outra parte é realizada com parceiros externos, sempre que isso faz sentido. Segundo ele, algumas atividades são muito mais rápidas quando executadas pelas próprias mãos da empresa, e o objetivo é operar na maior escala possível.

    Por que isso importa

    A aposta da empresa é usar a inteligência artificial para acelerar o desenvolvimento de tratamentos para condições que a indústria farmacêutica costuma evitar, em geral por terem baixa chance de retorno financeiro. Em junho, durante um evento em São Francisco, a Anthropic lançou um programa de descoberta de medicamentos chamado Claude Science, um software voltado à pesquisa em laboratório, e declarou interesse em trabalhos que as farmacêuticas tradicionais não consideram atraentes.

    Na visão do executivo, a tecnologia pode acelerar o estudo de condições consideradas indrogáveis, ou seja, tão complexas que até hoje não contam com medicamentos eficazes. Um exemplo citado são os anticorpos bispecíficos e trispecíficos, moléculas sofisticadas capazes de atacar vários pontos de uma proteína ou célula ao mesmo tempo, como uma chave mestra que abre várias fechaduras diferentes.

    Como funciona, em termos simples

    Grande parte da pesquisa biológica assistida por computador acontece in silico, expressão que significa, literalmente, dentro do silício, ou seja, apenas em simulações. O novo laboratório permite dar o passo seguinte, testando as ideias no mundo físico. Informações atribuídas a pessoas que conhecem o assunto indicam que um dos planos da empresa é fazer o Claude controlar robôs capazes de executar experimentos científicos com pouca intervenção humana.

    Braço robótico manipulando placas em bancada de laboratório enquanto pesquisador supervisiona o experimento
    Um dos planos da empresa é que o Claude comande robôs capazes de executar experimentos, sempre com supervisão humana.

    O próprio Kauderer-Abrams, porém, moderou as expectativas. Ele descreveu a iniciativa como estando em fase muito inicial do uso de IA para automatizar o trabalho de laboratório, com supervisão humana considerada essencial para a segurança, ao menos por enquanto. A empresa também afirmou ainda não ter conduzido nenhum ensaio clínico, que é a fase de testes em pessoas, e lembrou que a maioria dos medicamentos fracassa justamente nessa etapa. Depois que uma molécula promissora é identificada, podem passar-se anos até que um remédio chegue ao mercado.

    Em nosso trabalho de ciências da vida, estamos sempre equilibrando essas coisas, aprimorando os modelos de modo a acelerar o desenvolvimento de medicamentos e sendo cuidadosos na forma de implantá-los para limitar os riscos, disse o executivo, ao explicar a postura da companhia.

    O contexto delicado

    O anúncio acontece em um momento particularmente tenso para a companhia. Nas últimas duas semanas, pesquisadores da própria empresa alertaram que a IA poderia levar à extinção humana, e a Anthropic divulgou ter identificado e bloqueado cientistas que tentavam usar seus modelos para criar potenciais armas biológicas. O chief executive officer, Dario Amodei, chegou a pedir publicamente uma desaceleração no desenvolvimento de IA avançada para reduzir o risco de perda de controle sobre sistemas de ponta. Para ele, o tema é pessoal: uma doença matou seu pai poucos anos antes de uma cura surgir, conforme ele relatou em um texto recente.

    Há, ainda, um desencontro entre as versões sobre o propósito do espaço. Enquanto o programa Claude Science é voltado à descoberta de medicamentos, o porta-voz deixou claro que o laboratório não foi criado especificamente, ou talvez não apenas, para essa finalidade. Poucos dias antes do anúncio, a farmacêutica Novo Nordisk havia concordado em testar o software, e Genentech e Bristol Myers Squibb já eram clientes da ferramenta.

    Próximos passos

    Movimentações recentes mostram que a área é prioridade: em abril, a empresa comprou a startup Coefficient Bio, que ajudará a construir ferramentas para desenvolvimento de medicamentos, anunciou a entrada do executivo da Novartis, Vas Narasimhan, em seu conselho e publicou vagas para especialistas em bioquímica e para um líder de operações de compras. Em agosto, lançou o Model Hardware Standard, uma especificação que ajuda a IA a operar equipamentos físicos. As ciências da vida já figuram entre as maiores áreas da empresa em número de funcionários e recursos investidos.

    O que se sabe, por ora, é que o laboratório existe, que os experimentos físicos já acontecem e que a companhia não pretende revelar em breve o que exatamente testa lá dentro. Resta saber quanto tempo levará entre essas promessas e, se tudo der certo, os primeiros tratamentos beneficiando pacientes.

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