A Anthropic (abre em nova aba), dona do assistente Claude, tem um problema que nenhum talento em programação resolve. Para fazer inteligência artificial é preciso alugar computadores em escala industrial, em enormes centros de dados. Os três maiores senhorios desse ramo, Amazon, Google e Microsoft, também fazem inteligência artificial. Segundo o rascunho do prospecto de abertura de capital da empresa, lido pelo The Wall Street Journal, esses parceiros passaram a ver a Anthropic cada vez mais como concorrente e cada vez menos como cliente. E não entregaram toda a capacidade que ela pediu.
O documento é o S-1, a papelada que uma empresa entrega ao regulador americano antes de vender ações na bolsa. É confidencial e não foi publicado no sistema da SEC. Os números podem mudar até a versão final. Ainda assim, o que vazou basta para medir a encrenca.
Quanto custa morar na casa do rival
A Anthropic tem cerca de US$ 450 bilhões em contratos de nuvem para os próximos sete a dez anos, a maior parte impossível de cancelar. São US$ 111 bilhões com o Google Cloud (abre em nova aba), US$ 110 bilhões com a Amazon Web Services (abre em nova aba) e US$ 31 bilhões com a Microsoft (abre em nova aba). Com os acordos ainda em negociação, o compromisso pode chegar a US$ 750 bilhões, e nessa parte há intenção sem assinatura. A empresa também aceitou gastar até US$ 86 bilhões alugando chips da Nvidia (abre em nova aba) por meio da Nscale e da Lambda. Por fim, assumiu uma obrigação de mais de US$ 160 bilhões para arrendar chips do Google num acordo com a Broadcom.

A versão anterior do prospecto, relatada pela Reuters em setembro, trazia uma frase que resume o espírito desses contratos: "Se nosso gasto efetivo ficar abaixo do previsto, temos de pagar ao Google a diferença". O contrato com a Amazon tinha termos parecidos. Os pagamentos ao Google vão até julho de 2033, e os da Amazon, até abril de 2036. Em português claro, a Anthropic paga o mínimo combinado, use ou não use. E quando pede mais quartos, o senhorio não entrega todos.
Por que o parceiro virou adversário
A explicação está no próprio prospecto. Amazon, Google e Microsoft desenvolvem modelos de IA que disputam mercado com o Claude, e cada servidor cedido à Anthropic fortalece um concorrente. O documento admite que o negócio sofreria se esse acesso fosse cortado, reprecificado ou encerrado. É raro uma empresa escrever com tanta franqueza que depende de quem compete com ela.
A saída foi buscar outros endereços. A Anthropic arrenda centros de dados próprios e trabalha com operadores menores. O prospecto, porém, avisa que esses fornecedores têm "histórico operacional limitado" e podem ser menos confiáveis que os gigantes. Na terça-feira (20), a CNBC informou que a empresa negocia ampliar em cerca de US$ 45 bilhões o contrato com a britânica Nscale. O acréscimo ocuparia um segundo prédio do campus Monarch, na Virgínia Ocidental, com 460 megawatts de capacidade em chips Vera Rubin, os mais novos da Nvidia, e preferência sobre um terceiro prédio planejado. O acordo total pode chegar a US$ 90 bilhões. Por enquanto, é negociação, não contrato.
A Nscale tem seu próprio calcanhar. Dois clientes, Microsoft e Anthropic, respondem por cerca de 85% do valor de seus contratos. A Anthropic tenta escapar da dependência dos gigantes e acaba presa a um fornecedor que precisa dela tanto quanto ela precisa dele.
O prejuízo que assusta e o gasto que importa
O número mais barulhento do prospecto é o prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões no primeiro semestre de 2026, contra US$ 13 bilhões um ano antes. Quem para nele se engana. Segundo a Bloomberg, US$ 72 bilhões vieram de lançamentos contábeis ligados à variação de valor de notas conversíveis e outros instrumentos financeiros. É efeito de contabilidade, não despesa da operação. O gasto que pesa de verdade é outro: quase US$ 9 bilhões em computação e infraestrutura em seis meses. No mesmo período de 2025 foram US$ 2,3 bilhões, e no ano passado inteiro, US$ 7,3 bilhões.
A receita sobe no mesmo ritmo. Foram US$ 16,3 bilhões no semestre, contra US$ 1,1 bilhão um ano antes. Na semana passada, a empresa contou a potenciais investidores que só o terceiro trimestre rendeu US$ 16,8 bilhões, 45% acima do trimestre anterior. A Bloomberg relatou que a Anthropic disse ter tido lucro ajustado nesse trimestre, com margem bruta de 85%, margem operacional ajustada acima de 11% e fluxo de caixa livre positivo. A palavra "ajustado" merece lupa, porque indica que a própria empresa escolheu o que deixar fora da conta.
Os riscos listados no prospecto vão além do rodapé. Dois clientes respondem por cerca de um quinto das vendas. A empresa também admite que pode ser responsabilizada por danos causados por comportamento nocivo de sua IA em valores acima da cobertura de seguro.
A conta vai para a bolsa
Segundo a Bloomberg, a divulgação formal da oferta pode começar na semana de 9 de novembro, com negociação antes do feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos e estreia, no máximo, até o fim do ano. O Motley Fool fala em avaliação entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhões, sem data fechada. A Anthropic não comentou.
O crescimento é real, e a dependência também. Quem comprar a ação levará uma empresa que fatura como poucas e que vai pagar aluguel por uma década a três concorrentes, os mesmos que hoje decidem quanto espaço ela tem para crescer. Na corrida da inteligência artificial, o dono do terreno também quer correr.


