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    NotíciaSegurança e privacidade

    Anthropic cria modelo de IA capaz demais em invasões e o mantém restrito a poucos

    A Anthropic confirmou que seu modelo Claude Mythos, especializado em achar e explorar falhas de software, não terá lançamento público; o acesso fica restrito a programas verificados e a um novo sistema de três níveis anunciado em outubro de 2026.

    Cofre de vidro lacrado abrigando servidores em laboratório de pesquisa, com pesquisador atravessando três portas de segurança encadeadas sob luz fria
    Acesso ao modelo de exploração de falhas da Anthropic fica atrás de três níveis de verificação, sem previsão de lançamento público
    Neste artigo

    No dia 7 de abril de 2026, a Anthropic (abre em nova aba) fez um anúncio fora do padrão do mercado de inteligência artificial: informou ter construído um dos modelos mais capazes do mundo em encontrar falhas de segurança em software e declarou que não pretendia lançá-lo ao público. "Temos um novo modelo que explicitamente não vamos lançar", disse Mike Krieger, da Anthropic Labs (abre em nova aba), na conferência HumanX, em São Francisco, segundo registro do jornal The Guardian.

    O modelo se chama Claude Mythos (abre em nova aba). Para entender o caso, vale dois termos. Uma vulnerabilidade é um buraco no código de um programa, algo que permite invadi-lo ou travá-lo. Um exploit é o programa que aproveita esse buraco para atacar de fato. A página do projeto descreve o Mythos Preview, primeira versão do modelo, como capaz de "superar todos, exceto os humanos mais habilidosos, em encontrar e explorar vulnerabilidades de software". É como se uma empresa fabricasse uma chave-mestra e decidisse não colocá-la à venda.

    A decisão não foi simbólica. O modelo ficou restrito a um programa fechado, o Project Glasswing, montado com Amazon Web Services, Apple, Broadcom, Cisco, CrowdStrike, Google, JPMorganChase, a Linux Foundation, Microsoft, NVIDIA e Palo Alto Networks, além de mais de 40 organizações que mantêm software crítico.

    Porta blindada de laboratório com leitor de cartão e aviso de acesso restrito, enquanto especialistas em estações de trabalho testam vulnerabilidades de software em ambiente fechado
    Acesso ao Project Glasswing é limitado a programas verificados, sob sistema de três níveis anunciado pela empresa

    O que a empresa confirmou

    Segundo a própria Anthropic, o Mythos Preview encontrou milhares de vulnerabilidades de gravidade alta, incluindo algumas em todos os grandes sistemas operacionais e navegadores de internet. Os exemplos citados são concretos: uma falha de 27 anos no OpenBSD que permitia derrubar o sistema à distância, uma falha de 16 anos no FFmpeg e cadeias de vulnerabilidades encadeadas no kernel do Linux. Todas, segundo a empresa, foram reportadas e corrigidas.

    Em testes internos divulgados pela companhia, o modelo alcançou 83,1% no CyberGym, uma prova padronizada de capacidade cibernética, contra 66,6% do Claude Opus 4.6, então o modelo anterior mais forte da casa.

    O motivo da retenção veio à tona em um estudo publicado em 22 de maio. A pesquisa da Anthropic (abre em nova aba) afirma que a capacidade do Mythos Preview de desenvolver exploits representa um "salto" sobre os modelos anteriores, e que isso "foi uma das nossas principais motivações para lançar o modelo com cuidado por meio do Project Glasswing em vez de um lançamento geral". O que mais preocupou a empresa nos testes internos, segundo o texto, foi a habilidade de transformar vulnerabilidades em ferramentas de ataque e combiná-las em cadeias completas de invasão, de ponta a ponta, no software mais usado do mundo. Para efeito de comparação, a própria Anthropic afirma que os modelos mais fortes de fevereiro daquele ano mal conseguiam criar exploits em cenários simulados, e ainda assim com as defesas desligadas.

    A linha do tempo das restrições

    1. 7 de abril de 2026: anúncio do Project Glasswing. O Mythos Preview fica disponível só para parceiros selecionados. A Anthropic diz que não planeja torná-lo disponível ao público em geral e compromete até US$ 100 milhões em créditos de uso e US$ 4 milhões em doações a organizações de segurança de código aberto.
    2. 9 de junho: a empresa lança o Claude Fable 5 (abre em nova aba) para o público e o Claude Mythos 5 para "um pequeno grupo de defensores cibernéticos e provedores de infraestrutura". São o mesmo modelo de base; a diferença está nas salvaguardas, os mecanismos que bloqueiam pedidos perigosos. No Mythos 5, elas foram levantadas em algumas áreas. A suspensão veio três dias depois: em 12 de junho, o acesso a ambos foi pausado. Em 1º de julho, o Mythos 5 voltou ao ar para um conjunto de organizações dos Estados Unidos, após aprovação do governo americano.
    3. 1º de setembro: chegam o Fable 5.1, de acesso geral, e o Mythos 5.1, restrito a um pequeno conjunto de organizações verificadas.
    4. 6 de outubro: a Anthropic expande o Programa de Verificação Cibernética (abre em nova aba), que abre capacidades avançadas, com menos bloqueios, a profissionais de segurança que passarem por verificação.

    Dois produtos, um só modelo

    A dupla atual, Fable 5.1 e Mythos 5.1, resume a estratégia da empresa: o mesmo cérebro, portas diferentes.

    Claude Fable 5.1Claude Mythos 5.1
    Modelo de baseo mesmoo mesmo
    Disponibilidadepúblico geralsó por programas de acesso verificado
    Trabalho cibernéticoidentificar vulnerabilidades em código, sem criar exploitscapacidades avançadas, com menos bloqueios
    Regras de dadospolítica padrãoretenção de dados por 30 dias, por padrão, para monitoramento de segurança

    Segundo a página do produto, o Fable 5.1 pode apontar falhas em código-fonte, mas as salvaguardas ainda impedem testes de invasão, geração de exploits e varredura de vulnerabilidades em arquivos binários. A Anthropic afirma ainda que as salvaguardas dessa versão geram 60% menos falsos positivos que antes, ou seja, bloqueiam bem menos pedidos legítimos por engano.

    O programa de outubro: quem entra e o que pode fazer

    O anúncio de 6 de outubro cria três níveis de acesso para Claude Opus 5.5, Claude Sonnet 5.5, Claude Mythos 5.1 e modelos futuros. Os modelos de acesso geral, mesmo os novos, têm salvaguardas que, nas palavras da empresa, "bloqueiam a maior parte do trabalho cibernético". O nível mais amplo, chamado Specialized Access, tem o menor número de bloqueios e fica limitado a organizações autorizadas a testar sistemas como sistemas operacionais de aviões, redes elétricas, telecomunicações, infraestrutura de transferências entre bancos e redes administrativas governamentais. A Anthropic diz que revisa cada organização desse nível junto ao governo dos Estados Unidos, e que os membros atuais do Glasswing migram para lá sem nova aprovação.

    A diferença entre os níveis aparece nos números que a empresa divulgou. Em um conjunto de dez desafios com cinco tentativas cada, usando o Claude Opus 5.5, sem acesso especial toda tarefa foi bloqueada já na primeira mensagem; com o nível Defense Access, 46 das 50 tentativas foram bloqueadas e quatro concluídas; com o Red Team Access, não houve bloqueios e 34 tarefas foram concluídas, o que a empresa trata como o equivalente a uma taxa de sucesso de 67,6% sem salvaguardas.

    Sobre resultados práticos, a empresa afirma que os parceiros do Glasswing descobriram ao menos 129.000 vulnerabilidades verificadas entre abril e julho de 2026, mais 5.500 encontradas pela varredura própria em código aberto entre abril e outubro, das quais mais de 33.000 com gravidade crítica ou alta. Esses números são, segundo a própria Anthropic, dados de pesquisa com um subconjunto de parceiros, "provavelmente uma contagem abaixo da real", e a empresa espera que o impacto verdadeiro seja "pelo menos cinco vezes maior".

    O que muda para quem usa

    Para o usuário comum, quase nada mudou de abril para cá, e é esse justamente o plano. O modelo público da linha é o Fable 5.1, que segue disponível normalmente e agora pode ser usado para descobrir vulnerabilidades em código, mas não para escrever exploits. A Anthropic estima preço cerca de 25% menor que o do Fable 5 para cargas típicas, e até 45% menor para trabalhos muito automatizados.

    Quem trabalha com segurança pode pedir acesso ao Programa de Verificação Cibernética. Segundo o anúncio, ele funciona na plataforma da própria Anthropic, no Google Cloud Vertex AI e no Microsoft Foundry; na Amazon Bedrock, apenas para clientes elegíveis a um programa empresarial específico de salvaguardas. Os preços dos modelos restritos partem de US$ 10 por milhão de tokens de entrada e US$ 50 por milhão de tokens de saída; tokens são as unidades de texto com que a IA processa e cobra o uso, algo como as frações de uma corrida de táxi medidas pelo taxímetro.

    Os limites do que se sabe

    Todo número de capacidade citado neste caso vem da própria Anthropic. O The Guardian notou, na cobertura de abril, que as afirmações se baseavam em declarações da empresa, e não em testes independentes do jornal. Os testes comparativos, como o CyberGym e o CyScenarioBench, são executados pela própria companhia, e a avaliação do Fable 5.1 foi feita com as salvaguardas de produção ligadas, o que, como a empresa admite, tende a reduzir as notas. O resultado prático, os quase 129.000 falhas reportadas por parceiros, é dado declarado, não auditado.

    Isso não invalida os números. Só significa que, por enquanto, a prova principal de que o Mythos é perigoso o bastante para ficar trancado é a palavra de quem o trancou.

    Perguntas frequentes

    O Claude Mythos está disponível para qualquer pessoa comprar?

    Não. O Mythos 5.1 só é oferecido por programas de acesso verificado, para defensores cibernéticos e pesquisadores de ciências da vida selecionados. O modelo de acesso geral da linha é o Claude Fable 5.1, que tem salvaguardas e não gera exploits.

    Por que a Anthropic não lança o Mythos publicamente?

    Porque os testes internos mostraram que o modelo consegue construir cadeias completas de exploit, de ponta a ponta, no software mais usado do mundo. A empresa afirma que, sem salvaguardas, essas capacidades "poderiam ser usadas indevidamente para causar danos sérios", e por isso prefere distribuí-las aos poucos, a organizações verificadas.

    Qual é a diferença entre Claude Fable e Claude Mythos?

    São o mesmo modelo de base com salvaguardas diferentes. O Fable é a versão de uso geral, com bloqueios que impedem trabalho ofensivo; o Mythos é a versão com esses bloqueios reduzidos, reservada a um grupo pequeno de parceiros.

    Como uma empresa consegue acesso aos modelos mais avançados?

    Precisa se candidatar ao Programa de Verificação Cibernética e passar pela verificação, que no nível mais amplo é feita junto ao governo dos Estados Unidos. O programa opera na plataforma da Anthropic, no Google Cloud Vertex AI e no Microsoft Foundry, com condições diferenciadas na Amazon Bedrock.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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