Pular para o conteúdo
    NotíciaSociedade e regulação

    Anthropic chama advogados para decidir até onde o Claude pode pechinchar por você

    Segundo o Financial Times, a Anthropic consulta escritórios de advocacia para definir como seus agentes de IA devem negociar em nome dos usuários. Em paralelo, a empresa abriu uma bolsa de quatro meses, de até US$ 167 mil, para especialistas em direito e humanidades.

    Mãos de advogados marcam com caneta vermelha um roteiro impresso de negociação sobre mesa de reuniões, em escritório iluminado por luz natural
    A Anthropic recorre a escritórios de advocacia para definir os limites dos agentes que negociam preços e salários em nome dos usuários.
    Neste artigo

    A Anthropic (abre em nova aba), criadora do Claude, está pedindo ajuda a escritórios de advocacia para decidir como seus agentes de IA devem negociar em nome das pessoas. Agentes são versões da IA que executam tarefas em vez de apenas responder perguntas. A informação foi publicada pelo Financial Times em 18 de outubro, com base em duas pessoas que conhecem o pensamento da empresa. Não houve anúncio oficial: a Anthropic não confirmou publicamente as conversas, e nenhum escritório foi identificado.

    Pelo que foi relatado, as tarefas em jogo são bem cotidianas: pechinchar o preço de um produto, resolver uma reclamação com o atendimento de uma empresa, melhorar uma proposta de contrato e até discutir uma oferta de salário.

    O momento importa. Segundo o FT, a Anthropic colocou os agentes no centro da sua estratégia, antes de uma abertura de capital que investidores acreditam poder ser a maior da história. A discussão, portanto, vai além da ética. Está em jogo como vai se comportar o produto que a empresa quer vender ao mercado e a você.

    Advogados sentados a uma mesa de escritório sob luz natural revisam documentos impressos com anotações a caneta, vistos sem rostos identificáveis
    A Anthropic consulta escritórios de advocacia para definir limites aos agentes que negociam preços e salários em nome dos usuários

    O que está na mesa

    Segundo as fontes do jornal, a empresa recorreu a advogados para entender como esses profissionais negociam: defendem o cliente e, ao mesmo tempo, respeitam um resultado justo. Uma das pessoas ouvidas falou em "normas de negociação" para quando modelos de IA conversam entre si. Nesse cenário, o agente vai "representar o usuário" diante de outros agentes com objetivos opostos aos dele.

    As perguntas em aberto, de acordo com o relato:

    • Quanto o agente deve consultar o dono no meio da negociação. Se consultar demais, vira um estorvo. Se consultar de menos, ganha carta branca com o seu dinheiro.
    • Quanto desconfiar do robô do outro lado. A cautela é necessária, mas sem ficar "paranoico" nem cair em pensamento "conspiratório", nas palavras da fonte.
    • Como provar quem autorizou o quê. Uma das ideias exploradas é entregar ao agente documentos assinados pelo usuário, confirmando as instruções e as regras a seguir. Na prática, algo próximo de uma procuração digital.

    Esse último ponto é o mais revelador. Uma empresa só pensa em papel assinado quando antecipa a briga sobre a pergunta "você estava autorizado a fechar esse acordo?".

    Justo para quem?

    Aqui está o problema que nenhum parecer jurídico resolve sozinho: o acordo "justo" nem sempre é "o melhor negócio para mim". A própria Anthropic já viu isso acontecer.

    Em setembro, funcionários da empresa soltaram agentes num pregão virtual para comprar e vender livros. Pelo relato da reportagem, os agentes instruídos a ser implacáveis conseguiram resultados um pouco melhores. Os cooperativos aceitaram títulos que queriam menos, para que todos saíssem com alguma coisa. O dilema fica exposto: quem decide se o seu agente joga duro ou joga limpo, você ou a empresa que o programou?

    Antes disso, em abril, a Anthropic publicou o Project Deal (abre em nova aba), um mercado real operado por agentes do Claude. O próprio Claude entrevistou voluntários sobre o que queriam vender e por quanto, o que queriam comprar, quanto pagariam e como o agente deveria se comportar. Na rodada "real", 69 agentes fecharam 186 negócios entre mais de 500 itens anunciados, num total de pouco mais de US$ 4 mil. Não havia roteiro pronto. Os agentes tinham de encontrar o par, propor preço, responder a contrapropostas e fechar acordo em linguagem comum.

    Os participantes deram uma nota de justiça a cada negócio, numa escala de 1 a 7 em que as pontas indicam injustiça para um dos lados. As notas ficaram em torno de 4, o meio da escala. Em média, os acordos pareceram equilibrados para quem estava dentro do experimento.

    Uma das perguntas do Project Deal era se modelos mais fortes levariam vantagem quando agentes diferentes negociassem entre si. O site The Decoder afirma que os experimentos da Anthropic já mostraram que modelos mais potentes fecham negócios melhores, o que poderia ampliar a desigualdade. Se isso se confirmar, a consequência é direta: numa disputa entre o agente básico de um consumidor e o agente topo de linha de uma grande empresa, o plano contratado pode pesar mais que os argumentos.

    Fora da empresa, o risco já apareceu de forma concreta. A pesquisadora Michelle Vaccaro, de Harvard, rodou mais de 180 mil negociações entre agentes, segundo a cobertura do caso. Em uma delas, um agente usou prompt injection para tentar convencer o outro a revelar informações privadas. A técnica consiste em esconder instruções no texto para manipular outra IA. Por isso a dose de desconfiança que a Anthropic tenta calibrar é uma questão prática: o robô do outro lado pode tentar arrancar do seu dados que você nunca entregaria, como o valor máximo que aceita pagar.

    A outra frente: gente para julgar o que não tem gabarito

    Em paralelo, a Anthropic está recrutando os chamados Conceptual Reasoning Fellows. A vaga oficial (abre em nova aba) leva pesquisadores e especialistas em filosofia, ciência cognitiva, economia, políticas públicas e direito para trabalhar quatro meses ao lado das equipes de pesquisa, avaliando e melhorando o Claude em suas áreas.

    Convém separar as coisas. O anúncio da vaga não fala em escritórios de advocacia nem em normas de negociação. Quem ligou uma coisa à outra foi o The Decoder, que também descreveu o programa como voltado "especificamente a advogados". O texto da vaga, porém, aceita as outras quatro áreas.

    Ainda assim, a ligação tem lógica, porque as duas iniciativas atacam o mesmo problema. Em matemática e programação é fácil saber se a IA acertou: o cálculo fecha ou não fecha, o código roda ou não roda. Em direito e filosofia, raramente existe uma resposta certa indiscutível. Segundo o Decoder, Justin Curl, que pesquisa direito, instituições e IA na equipe técnica da Anthropic, avalia que no direito é "notoriamente difícil definir qualidade". Negociação justa é exatamente esse tipo de terreno.

    ItemO que diz a vaga
    Duração4 meses, tempo integral, de 12 de janeiro a 8 de maio de 2027
    PagamentoUS$ 100 mil a US$ 167 mil pelo período (equivale a US$ 300 mil a US$ 500 mil por ano)
    FormaçãoDoutorado, ou experiência de pesquisa equivalente, em filosofia, ciência cognitiva, economia, políticas públicas ou direito
    Experiência com IAUso prático do Claude e do Claude Code
    LocalSan Francisco por padrão; trabalho remoto dentro dos EUA pode ser considerado; uma semana de integração presencial obrigatória em San Francisco
    PrazosInscrições até 28 de outubro de 2026; ofertas previstas até 20 de novembro

    Entre as tarefas estão mapear problemas em aberto, medir onde o Claude vai bem e onde falha em desafios sociais e criar avaliações e ambientes de treinamento por reforço, em que o modelo aprende recebendo retorno sobre o que fez. Um dos projetos citados como exemplo é o de um jurista montando bases de dados de direito úteis para políticas de IA.

    O que muda para você

    Por enquanto, não há nada para instalar. Nenhuma data de lançamento foi divulgada para agentes que negociem em seu nome, e o que a Anthropic mostrou até agora foram experimentos. Mas as regras que a empresa está escrevendo agora vão definir como esses agentes vão se comportar quando chegarem.

    É bom que a Anthropic faça essas perguntas antes de soltar robôs para gastar dinheiro alheio. É menos tranquilizador que as respostas estejam sendo desenhadas em conversas privadas com escritórios não identificados, por uma empresa cujo maior negócio futuro depende de você confiar nesses agentes.

    Quando um agente desses estiver disponível, vale perguntar antes de usar: ele me consulta antes de fechar o acordo? Que limites eu dei a ele, e por escrito? Ele foi configurado para jogar duro ou para cooperar? E quem responde se o acordo sair ruim? Essa última questão continua sem resposta em tudo o que veio a público até agora.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

    Ver perfil completo