Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI (abre em nova aba), a empresa que criou o ChatGPT (abre em nova aba), deu uma entrevista à escola de negócios da Universidade Stanford (abre em nova aba). Nela, contou que sofre de uma "decepção crônica" com estudantes de MBA. Em dois dias, a frase passou por duas redações e chegou ao leitor de roupa nova: "Sam Altman diz que a Geração Z é careta por não idolatrar a IA". Ele não disse isso.
O que ele disse
A entrevista foi noticiada primeiro pela Fortune (abre em nova aba), na quarta-feira (28). Segundo a revista, Altman afirmou: "Minha decepção crônica com estudantes de MBA é que eles sempre querem fazer a coisa que era bacana cinco anos atrás, em vez de tentar algo novo". Depois completou: "Acho que este é um ótimo momento para fazer a coisa nova".
O alvo era preciso. Alunos de MBA são gente já formada, que volta a estudar administração para subir na carreira ou abrir empresa. A crítica não mirava uma geração inteira. Quem levou o comentário para a Geração Z foi a própria Fortune, no título e na abertura do texto. Nesta sexta-feira (30), o Futurism (abre em nova aba) foi adiante e pôs na manchete as palavras "careta" ("lame") e "idolatrar" ("worshipping"). Nenhuma das duas aparece nas falas atribuídas a Altman, nem mesmo no texto do Futurism.

A parte que ficou fora da manchete
Altman disse outras coisas, algumas bem menos festivas. Na versão da Fortune, ele afirmou: "É totalmente verdade que um número enorme de tarefas que as pessoas fazem hoje será feito melhor, mais barato e mais rápido pela IA, e de forma completamente diferente". Segundo a revista, ele prevê que "amplas faixas" dos empregos atuais, "pelo menos como são feitos hoje", passarão inteiramente para a IA. E fez uma ressalva rara para quem vende a tecnologia: a transformação "não vai acontecer tão rápido quanto muita gente espera".
Para quem está começando a vida profissional, essa é a frase mais útil da entrevista. O chefe da empresa mais associada à onda da IA admite que o calendário dos entusiastas está adiantado. Isso não alivia a previsão, porque as tarefas vão mudar mesmo. Mas tira a pressa de quem acha que precisa largar tudo amanhã para não ficar para trás.
O conselho de quem vende a ferramenta
O argumento central de Altman é sobre carreira. "Você quer começar sua carreira num momento de maior mudança, quando o campo de jogo está mais aberto", disse, segundo a Fortune. Depois foi mais longe: "Há muitas empresas que podem ser construídas sobre a tecnologia que a OpenAI colocou no mundo e que serão muito maiores e, espero, mais importantes que a OpenAI".
A ideia de que épocas de ruptura favorecem quem chega sem vícios é razoável. Ainda assim, convém lembrar quem fala. Toda empresa construída "sobre a tecnologia da OpenAI" é, antes de qualquer coisa, cliente da OpenAI. Quando o fabricante de pás aconselha a moçada a cavar, o conselho pode até ser bom, mas o interesse dele é garantido.
A gargalhada da plateia
Segundo o Futurism, o entrevistador respondeu "quase incrédulo": "Então vá fazer a coisa nova, mesmo que a IA seja a coisa da moda agora". A plateia, conta o site, caiu na gargalhada.
A plateia tinha motivo para rir. O conselho de fugir do que era moda há cinco anos vem embrulhado na moda de hoje. Um aluno de MBA que abre uma empresa de IA em 2026 não está sendo ousado. Está entrando na fila mais comprida do mercado, e essa fila passa pela porta de Altman.
O que sobra para quem lê
Tiradas as camadas de manchete, ficam três ideias de Altman que interessam a quem está escolhendo profissão:
- muitas tarefas de hoje serão feitas por IA, e de outro jeito;
- essa mudança deve levar mais tempo do que se costuma prometer;
- quem começa a carreira num período de transformação encontra o campo mais aberto.
Nenhuma delas manda idolatrar coisa alguma, e nenhuma foi endereçada à Geração Z. A bronca era com os alunos de MBA que correm atrás do que estava na moda. Desta vez, quem correu atrás da moda foram as manchetes.


