Na quarta-feira (21), Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI (abre em nova aba), passou 45 minutos conversando com Matthew Berman, apresentador do podcast Forward Future. Pouco mais de sete minutos e meio foram dedicados a máquinas. Cerca de quatro trataram da aposta da empresa em chips e em computação mais barata, e pouco mais de três discutiram por que a inteligência artificial precisaria de "um novo tipo de computador". O título é forte, mas a divulgação do episódio não diz qual seria esse computador, quanto custaria nem quando chegaria.
O próprio Berman publicou no X o roteiro da conversa, e é por ele que se vê o peso que o hardware teve na entrevista:
Minha entrevista com Sam Altman (@sama): 0:00 Introdução · 0:52 Quando a IA vai descobrir novos tratamentos? · 3:31 Por que a IA não acabou com os empregos em programação · 11:47 Assistentes pessoais de IA · 15:39 Por que estamos mais ocupados do que nunca? · 20:10 Por que o debate sobre consciência da IA preocupa Sam · 26:09 O ChatGPT concorda demais · 30:03 A aposta da OpenAI em chips e computação mais barata · 34:20 Por que a IA precisa de um novo tipo de computador · 37:41 Sam sobre pressão: "Escolha a grande coisa" · 42:18 Por que "a IA vai curar o câncer" não basta

Quem quiser saber o que a OpenAI entende por hardware novo precisa olhar para o resto da semana. Ela foi farta.
Um corpo com data marcada
No dia 17, o site Engadget relatou que Altman foi perguntado, no podcast Sources, se a empresa construiria de fato um robô humanoide. Respondeu com uma palavra: "Vamos." À revista Fortune, deu o calendário: "Acho que teremos uma demonstração bacana em 2027... Não acho que haverá robôs andando pelas ruas por mais alguns anos." Em 2027 o robô sobe ao palco. A loja fica para depois.
A justificação do formato humano é de engenheiro: "o mundo é muito desenhado para pessoas". Portas, teclados, escadas e ferramentas foram feitos para um corpo com duas mãos e duas pernas. Uma máquina parecida circularia por esses espaços sem que fosse preciso reformá-los.
Em seguida, Altman empurrou o problema para o terreno onde a OpenAI se sente em casa. O desenho do robô, disse, é "menos importante do que realmente descobrir... o cérebro que faz o robô funcionar". Faz sentido. Braços não servem de nada a uma máquina que não sabe o que fazer com eles. Para pegar uma caneca, lembrou o Engadget, o robô precisa identificá-la, achar a alça, calcular a pegada e dosar a força. Se errar, o resultado é café no chão.
O discurso fala de software, mas as contratações apontam para fábrica. A OpenAI anuncia 27 vagas em robótica, que vão do controle de movimento à infraestrutura para treinar IA "física". Segundo o Engadget, os anúncios indicam que a empresa desenvolve atuadores eletromecânicos próprios, com motores, transmissões, sensores e sistemas térmicos. São as peças que fazem um robô se mexer. Há também vagas em manufatura e em cadeia de suprimentos, pensadas para produzir em escala. Ninguém contrata especialista em cadeia de suprimentos para fazer uma demonstração. Contrata para fabricar.
O site israelense Ynet, citando relatos, informa que os primeiros robôs iriam para a construção de instalações e a operação de data centers, os galpões onde ficam os computadores que rodam a IA. Seria a máquina construindo a casa da máquina.
Há precedente, e ele recomenda prudência. O projeto Dactyl, da própria OpenAI, ensinou uma mão robótica a manipular objetos reais, incluindo um cubo mágico, com treino feito inteiramente em simulação. O Engadget resumiu a lição que ficou para o setor: o software aprende o que deveria acontecer, mas a palavra final é da física.
O poder mora no silício
A semana trouxe ainda um lembrete de que, para Altman, hardware não é acessório. Segundo o The Information, ele apresentou a funcionários três desfechos possíveis para a corrida pela superinteligência:
- uma agência internacional nos moldes da Agência Internacional de Energia Atômica, opção que, segundo duas pessoas, pareceu ter a preferência dele;
- a fusão dos grandes laboratórios num organismo comum, o "plano Demis", referência a Demis Hassabis, do Google DeepMind (abre em nova aba);
- uma empresa que dispara na frente e, nas palavras atribuídas a ele, "derrete as GPUs de todos os outros".
GPUs são os chips que treinam e rodam os modelos, empilhados nesses mesmos data centers. Altman teria chamado a terceira hipótese de "terrível" e dito que só a mencionou para completar a lista. A ressalva é bem-vinda, mas o detalhe revelador é outro: no mapa do fim do jogo desenhado por ele, quem decide a disputa é quem controla os chips.
E silício custa caro. Segundo o Dealroom, a OpenAI tenta levantar cerca de US$ 30 bilhões antes da estreia da rival Anthropic (abre em nova aba) na bolsa.
Falta o essencial para quem pretende comprar, usar ou competir. O robô não tem parceiro anunciado, preço nem data de lançamento, e o "novo tipo de computador" da conversa com Berman continua sem nome e sem forma conhecida. O que existe é uma direção: a empresa que popularizou a conversa com um programa agora quer dar a ele mãos, motores e uma linha de produção. A demonstração de 2027 dirá se o cérebro está à altura do corpo. As ruas, como o próprio Altman admitiu, ainda vão esperar.


