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    NotíciaAgentes e automação

    Altman fala de assistente pessoal, e quem testa IA todo dia aponta o que ainda falta

    Sam Altman dedicou parte de uma entrevista aos assistentes pessoais de IA logo depois do lançamento do Dots. Usuários intensivos dizem que o problema agora é de produto, de custo e de confiança, não de inteligência.

    Profissionais conversam ao redor de uma mesa em estúdio de podcast, com microfones, notebooks e folhas de anotações sobre custo e confiança, sob luz quente lateral
    Para quem testa assistentes pessoais todos os dias, o desafio deixou de ser a inteligência e passou a ser produto, custo e confiança
    Neste artigo

    Sam Altman, CEO da OpenAI (abre em nova aba), reservou um trecho da entrevista ao youtuber Matthew Berman, publicada na quarta-feira (21), para falar de assistentes pessoais de IA. Na lista de capítulos divulgada pelo próprio Berman, o tema aparece entre "por que a IA não acabou com os empregos de programação" e "por que estamos mais ocupados do que nunca". Parece só mais um item da pauta, mas o momento sugere que é bem mais do que isso.

    No DevDay mais recente, a OpenAI apresentou o Dots, um produto com formato de assistente pessoal. A reação de Peter Steinberger, do OpenClaw, ao ver o lançamento resume o estado do mercado: "meu Deus, cara, a gente construiu a mesma coisa". Quando várias empresas chegam à mesma ideia ao mesmo tempo, a ideia deixou de ser diferencial. O que passa a contar é quem entrega o produto melhor.

    O veredito de quem usa IA o dia inteiro

    Essa tese ganhou força num debate do podcast Latent Space. O apresentador swyx reuniu profissionais que testam modelos de ponta diariamente. Segundo o resumo da conversa, a avaliação do grupo foi que os lançamentos do DevDay decepcionaram no acabamento. Para os participantes, a próxima fronteira não são os agentes que escrevem código, e sim os assistentes pessoais, apontados no programa como a verdadeira porta de entrada da IA para o grande público.

    Pequeno estúdio de podcast com luz quente lateral, onde um apresentador e três convidados conversam ao redor de uma mesa com microfones, notebooks e celulares, com os rostos fora de foco ou de perfil.
    Para quem usa assistentes de IA todos os dias, o obstáculo agora está no produto, no custo e na confiança, não na inteligência dos modelos.

    O primeiro problema é simples de entender: o Dots é difícil de encontrar. Os participantes disseram que ele fica "profundamente escondido" na interface do ChatGPT (abre em nova aba). Alex Volkov, um dos convidados, foi direto: o Dots precisa ser um aplicativo separado. Volkov já roda vários agentes ao mesmo tempo e quer um assistente que observe o que acontece por conta própria e mande notificações sem depender da janela do chat. Na prática, ele pede o oposto de um botão perdido num menu de três pontinhos.

    As críticas também atingiram o restante da linha de produtos. Ben Davis disse que o app de desktop do Codex "estava tão certo quando foi lançado, e ficou cada vez menos certo a cada atualização", e classificou a maior parte das novidades do DevDay como retrocessos. Dex Horthy relatou que o campo de digitação congela quando o computador fica offline e avaliou que o aplicativo parece ter sido escrito por IA, com coisas mudando aleatoriamente. A ironia é evidente: o modelo pode ser brilhante, mas quem chega ao público é o aplicativo.

    Grande parte da conversa, aliás, não tratou de inteligência artificial em sentido estrito. Os convidados discutiram como montam seus próprios assistentes: que acesso dar ao e-mail, onde traçar os limites de confiança, como coordenar vários agentes menores trabalhando juntos. São perguntas de encanador, não de cientista. E são elas que vão decidir se um assistente pessoal sai do nicho de entusiastas.

    A conta que ninguém vê

    Há também a questão do custo. Um assistente que fica de olho na sua rotina e avisa quando algo importa não trabalha só quando você digita uma pergunta. Ele consome computação o tempo todo. Na mesma entrevista a Berman, Altman disse que a demanda por computação "simplesmente vai continuar subindo". É uma mudança de tom: em outubro de 2025, no podcast Bg2, ele afirmava que "com certeza" haveria um excesso de capacidade em algum momento.

    O resto da pauta aponta na mesma direção. Os capítulos seguintes da entrevista tratam da aposta da OpenAI em chips e em computação mais barata e de "por que a IA precisa de um novo tipo de computador". A empresa também desenvolve novos aparelhos de consumo, segundo o Engadget. No painel do Latent Space, os participantes afirmaram que os novos modelos de decisão Jev reduzem de 10 a 20 vezes o custo de fluxos com agentes. Se o número se confirmar fora desse grupo, é o tipo de corte que torna viável um assistente ligado o dia inteiro.

    Confiança é o gargalo de verdade

    Outro capítulo da entrevista tem um título que diz muito: "o ChatGPT é concordante demais". Um chatbot bajulador é irritante. Um assistente bajulador com acesso à sua caixa de entrada é um risco, porque ele vai confirmar suas piores decisões com toda a educação.

    O contexto não ajuda Altman. Neste mês, ele disse ao Politico que "o mundo deveria aceitar que algumas coisas ruins aconteçam em troca dos benefícios desta tecnologia e de as pessoas terem autonomia". Na íntegra, a fala separa riscos catastróficos dos danos cotidianos, que ele considera aceitáveis. Mesmo assim, a frase provocou reação negativa, e a queixa mais comum foi a falta de consentimento: as pessoas sentem que foram inscritas num risco que não escolheram. Uma análise do episódio cita dados do Pew Research segundo os quais cerca de metade dos adultos americanos se diz mais preocupada do que animada com a IA no dia a dia.

    Esse é o problema central. Um assistente pessoal só funciona se você abrir a porta de casa para ele: e-mail, agenda, mensagens. Altman pôr o tema na pauta mostra que a OpenAI sabe onde está a próxima disputa. O Dots escondido num menu mostra que a empresa ainda não sabe como vencê-la. Quem ganhar essa corrida provavelmente não será dono do modelo mais inteligente, e sim de quem conquistar primeiro a permissão para entrar na rotina das pessoas.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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