A filha de Paul Shearer tem 7 anos. Ela cunhou uma frase que muito adulto com assinatura de ChatGPT deveria pendurar na parede: "Put some brain in your thinking", algo como "ponha um pouco de cérebro no seu pensamento". O escritor Alberto Romero fez dela o título de um ensaio (abre em nova aba) publicado em 21 de outubro, com o subtítulo "Conselho de vida de uma criança de 7 anos".
Romero não economiza nos elogios. Coloca o achado da menina na mesma prateleira de "Penso, logo existo" e "Conhece-te a ti mesmo". Diz ter procurado a frase no Google sem encontrar registro anterior, o que daria à pequena autora o crédito pela invenção. É exagero de ensaísta, sem dúvida. Mas o exagero embrulha uma ideia que merece atenção.
Quem escreve
Na página da newsletter The Algorithmic Bridge (abre em nova aba), Romero se apresenta como "um escritor que um dia tentou ser engenheiro". Escreve sobre IA e tecnologia, mas também sobre cultura, filosofia e "o lento e complicado ofício de ser humano". Afirma que seu trabalho é conhecido pelo "bom senso incondicional". Também sustenta que, na maior parte do que se escreve sobre IA, falta o papel das pessoas nessa bagunça.

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A tese: cérebro e pensamento viraram peças de LEGO
O argumento central é geracional. Para quem cresceu antes do ChatGPT (abre em nova aba), a ferramenta é novidade e o cérebro é inseparável do ato de pensar. Para a menina, escreve Romero, as duas coisas sempre existiram. Por isso são ingredientes intercambiáveis da mesma receita. Ela seria "nativa" de um mundo em que cérebro e pensamento se desconectaram. Nesse mundo, mandar alguém devolver o cérebro ao pensamento não é uma discussão filosófica sobre a mente humana. É conselho prático, como encaixar de volta uma peça que ficou fora da montagem.
Daí vem a formulação mais afiada do texto: o cérebro tornou-se um "insumo de luxo". Se a máquina e a cabeça produzem algo que passa por pensamento, a tendência natural é exagerar na dose de IA. Romero recorre ao vocabulário da cozinha e fala em "temperar demais". O resultado se adivinha: prato salgado e paladar viciado.
O que se sustenta e o que é convicção
O número que Romero põe na mesa vem da empresa Graphite. Segundo ela, a quantidade de artigos publicados na internet gerados principalmente por IA (50%) já se iguala à dos escritos por humanos (50%). É um dado de volume. Mostra quanto texto de máquina circula, mas não mede o que acontece dentro da cabeça de quem lê ou escreve. Quem usar essa estatística como prova de que o cérebro alheio está encolhendo estará pondo pouco cérebro no próprio pensamento.
A outra afirmação forte do ensaio diz que a atrofia cognitiva é reversível, assim como a atenção. Para revertê-la, segundo Romero, é preciso usar justamente a faculdade que se perdeu. Do jeito que está escrita, a ideia tem forma de aforismo, não de resultado de laboratório. Pode estar certa, e soa verdadeira para qualquer um que tenha voltado a ler um livro inteiro depois de meses de tela. Ainda assim, é convicção do autor e deve ser lida como tal. Quanto à repercussão, o texto saiu há um dia, e qualquer balanço seria prematuro.
O conselho que ninguém quer ouvir
O melhor momento do ensaio é uma ironia que o próprio Romero registra. Ao chegar à parte do que fazer, ele avisa que o leitor não vai gostar. Em seguida, recorre a uma frase de um funcionário da OpenAI (abre em nova aba), a empresa que vende o ChatGPT: "muitos de vocês se beneficiariam de fazer menos e pensar mais". Romero diz-se "só um pouco decepcionado" por ter sido preciso alguém de dentro da OpenAI para formular o mecanismo. Quando quem fabrica o atalho recomenda a estrada, convém prestar atenção.
Para quem usa IA no trabalho, a consequência prática do argumento é produzir menos e escolher mais. A máquina gera rascunhos em segundos. Decidir se o rascunho presta, se a pergunta era a certa e se aquilo precisava mesmo ser feito continua sendo trabalho de cabeça humana. É esse o insumo que, na linguagem de Romero, ficou caro e passou a ser poupado.
O ensaio não demonstra que estamos ficando mais burros, e nem tenta. Mostra que uma criança de 7 anos percebeu antes de muito adulto que pensar e usar o cérebro deixaram de ser sinônimos. O resto fica por conta de cada leitor: pôr um pouco de cérebro no próprio pensamento, como pede a frase da menina.


