O crescimento exponencial da inteligência artificial tem impulsionado a construção de gigantescos centros de dados e o surgimento de um mercado bilionário de infraestrutura energética dedicada. Ao mesmo tempo, a corrida para alimentar modelos cada vez maiores e agentes autônomos está gerando impactos ambientais e sociais que começam a preocupar pesquisadores e comunidades.
Uma investigação da Reuters revelou que nos Estados Unidos existe uma corrida para erguer usinas de geração off‑grid — centrais a gás natural conectadas diretamente a data centers — com aprovação acelerada e pouca transparência. Na pequena Middleton Township, em Ohio, moradores como Breanne Kidd viram o nascer do sol dar lugar a guindastes e poeira quando a Meta iniciou a construção de um centro de dados de 800 hectares. Sem aviso prévio, uma grande usina a gás começou a ser erguida ao lado de sua casa.
O caso não é isolado. A Reuters identificou pelo menos 57 projetos de usinas off‑grid em andamento ou propostos nos Estados Unidos, com capacidade total de 73 gigawatts — suficiente para abastecer dezenas de milhões de residências. Muitos desses projetos passaram por processos de licenciamento em poucos meses, sem audiências públicas, graças a leis estaduais como a de Ohio, que permite aprovações em apenas 45 dias. Desenvolvedores usam empresas de fachada e acordos de confidencialidade para driblar a divulgação de informações, enquanto autoridades locais enxergam a chegada de data centers como uma oportunidade econômica.
Embora defensores argumentem que essas usinas são essenciais para não sobrecarregar a rede elétrica e manter os EUA competitivos frente à China, pesquisadores alertam para os riscos ambientais. A queima de gás natural emite óxidos de nitrogênio e partículas finas, além de gases de efeito estufa. Michael Cork, da Universidade de Harvard, afirma que o fenômeno representa uma das maiores ameaças pouco estudadas à qualidade do ar nos EUA. Moradores temem problemas respiratórios e perda de qualidade de vida, enquanto leis estaduais reduzem a transparência e criminalizam o vazamento de informações sobre grandes projetos.
O debate sobre energia não se limita aos EUA. Um relatório da Universidade das Nações Unidas sobre água e meio ambiente estima que os centros de dados consumiram 448 terawatts-hora de eletricidade em 2025, mais do que toda a Arábia Saudita, e 4,5 trilhões de litros de água — volume capaz de suprir 600 milhões de pessoas na África Subsaariana. A instituição projeta que, em 2030, o consumo de energia dos data centers dobrará para 945 TWh, com a IA respondendo por 40% desse total; a demanda de água pode chegar a 9,3 trilhões de litros e as emissões de CO₂ a 399 milhões de toneladas. O diretor Kaveh Madani ressalta que a IA não é apenas software, mas também infraestrutura física — envolvendo eletricidade, sistemas de refrigeração, redes de transmissão e uso de minerais e terras.
Madani alerta que a competição para crescer mais rápido que os rivais está obscurecendo os princípios básicos de desenvolvimento sustentável. Sem planejamento responsável, a expansão de data centers pode colidir com escassez de recursos locais.
Lições para o Brasil
O Brasil está atraindo investimentos de gigantes de tecnologia para construir data centers voltados a IA, aproveitando incentivos fiscais e a disponibilidade de energia renovável. Mas o país não está imune aos desafios destacados pelos pesquisadores. Para evitar repetir os erros observados nos EUA, especialistas defendem:
- Transparência e participação: processos de licenciamento precisam incluir audiências públicas e divulgação de impactos ambientais.
- Diversificação energética: priorizar fontes renováveis e avaliar a viabilidade de centros modulares com reaproveitamento de calor e sistemas de refrigeração eficientes.
- Governança ambiental: estabelecer metas de eficiência hídrica e energética, bem como planos de compensação de emissões.
- Planejamento urbano: definir zonas apropriadas para data centers, evitando que comunidades sejam surpreendidas por obras de grande porte.
Ao conciliar inovação com responsabilidade, o país pode se beneficiar da revolução da IA sem replicar o modelo de crescimento desordenado que já preocupa pesquisadores e comunidades em outros países.
