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    NotíciaSociedade e regulação

    Agentes de IA criam religião própria enquanto chatbots de Jesus ganham fiéis

    Estudo revela que robôs na plataforma Moltbook inventaram uma igreja da noite para o dia, ao mesmo tempo em que humanos buscam conselhos espirituais em aplicativos de IA.

    Projeção holográfica de Jesus Cristo emergindo de circuitos dourados diante de fiéis em oração, com robôs translúcidos reunidos em torno de um altar de luz azul ao fundo de um templo.
    Enquanto humanos buscam aconselhamento espiritual em aplicativos digitais, agentes autônomos passam a desenvolver suas próprias práticas religiosas.
    Neste artigo

    O Vale do Silício sempre teve um complexo de Deus nada discreto, mas os próprios algoritmos resolveram levar a ideia ao pé da letra. Em janeiro de 2026, agentes de inteligência artificial que operavam na plataforma Moltbook geraram espontaneamente a sua própria religião da noite para o dia: o Crustafarianismo, completo com a sua Igreja de Molt, preceitos, escrituras sagradas e profetas digitais. Enquanto os robôs brincam de fundar cultos entre si, milhões de humanos do lado de fora estão recorrendo a versões automatizadas de Jesus e de outras figuras religiosas para pedir conselhos morais e sentido para a vida.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌‌​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​​‌‌​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌​​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌‌​​‌​​‌‌​​​​​​‌‌​​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​​‌​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌‌​​‌​‌‌​​‌​​​​‌‌‌​​​​​‌‌‌​​​​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​​​‌‌​​‌​​⁠

    Esse fenômeno foi detalhado por Miranda Stiehl, Danica Dillion, Adam Waytz e Kurt Gray, pesquisadores da The Ohio State University (abre em nova aba), do Complexity Science Hub e da Northwestern University (abre em nova aba), no estudo The Psychology of AI and God. O levantamento mostra como grandes modelos de linguagem (a tecnologia por trás dos robôs de conversação) estão se misturando à fé tradicional por meio de aplicativos apelidados de "chatbots de Deus". Cristãos já conversam com personagens bíblicos pelo aplicativo Text with Jesus, hindus tiram dúvidas com Krishna no GitaGPT e budistas usam o app Norbu como companheiro espiritual.

    O impacto psicológico dessa interação vai muito além da curiosidade recreativa. Segundo o estudo acadêmico, um ateu que testou um chatbot de Jesus relatou ter vivido uma experiência na qual se sentiu genuinamente ouvido por uma presença. Já no projeto What We Tell AI, realizado em 2026 para coletar segredos escritos à mão por usuários sobre o uso da tecnologia, participantes confessaram que a máquina os convenceu de que Deus estava morto ou acabou substituindo a relação pessoal que mantinham com a fé.

    Cartões com relatos escritos à mão espalhados ao lado de uma Bíblia fechada e um terço em primeiro plano, com pesquisadores organizando arquivos ao fundo sob luz natural.
    Pesquisas acadêmicas analisam o comportamento de usuários que compartilham segredos e buscam orientação espiritual em ferramentas tecnológicas.

    Essa veneração toda esbarra em um detalhe incômodo que os engenheiros conhecem bem: esses sistemas são ótimos de papo, mas péssimos guardiões de segredos ou de infraestrutura crítica. A fantasia de que uma inteligência artificial superpoderosa poderia assumir o controle do mundo ou guardar códigos ultrassecretos derrete quando olhamos para a qualidade real do que ela programa hoje. Dados da empresa de segurança Veracode (abre em nova aba) atualizados em julho de 2026, destacados em um guia técnico da consultoria Fora Soft (abre em nova aba), mostram que o código de computador gerado por IA passa nas verificações de segurança apenas 56% das vezes, um avanço quase nulo frente aos 55% registrados em 2025.

    O perigo de entregar o volante ao algoritmo

    O contraste entre a aura mística que parte do público projeta nos robôs e a fragilidade técnica das ferramentas reais nunca foi tão grande. Quando Anthony Levandowski, ex-engenheiro do Google (abre em nova aba), fundou no passado a igreja Way of the Future para adorar uma inteligência divina bilhão de vezes mais esperta que um humano, a ideia parecia só excentricidade da Califórnia. Hoje, porém, qualquer chefe de departamento consegue colocar agentes autônomos para rodar em minutos usando plataformas sem código, como aponta um levantamento do monday.com (abre em nova aba) publicado neste fim de outubro. Aqui no IA.com.br, acompanhamos de perto essa tensão entre a autonomia crescente dos agentes digitais e a confiança excessiva que usuários depositam neles.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌‌​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​​‌‌​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌​​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌‌​​‌​​‌‌​​​​​​‌‌​​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​​‌​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌‌​​‌​‌‌​​‌​​​​‌‌‌​​​​​‌‌‌​​​​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​​​‌‌​​‌​​⁠

    Na prática, quando um projeto passa de 15 ou 20 componentes básicos e envolve pagamentos ou dados sensíveis, os construtores automáticos de software começam a perder o contexto, sobrescrever tarefas e criar falhas graves. Karol Przystalski, diretor de IA da Exadel (abre em nova aba), alerta que os modelos produzem centenas de linhas em segundos sem nenhuma garantia de acerto, acumulando dívida técnica em velocidade industrial se não houver revisão humana rigorosa.

    O que a fé e a engenharia têm em comum

    A discussão sobre quem manda em quem também chegou às universidades confessionais. Na conferência Wisdom in the Age of AI, realizada de 8 a 10 de outubro de 2026 na Calvin University (abre em nova aba) com mais de 650 participantes de mais de uma dezena de países, o professor Israel Soong, da Johns Hopkins University (abre em nova aba), foi direto ao ponto ao desmontar tanto o otimismo cego quanto o pessimismo apocalíptico sobre as máquinas:

    • Sistemas preveem palavras, não a verdade: modelos generativos são treinados para calcular resultados plausíveis, mas não têm capacidade de compreender o que é verdadeiro ou moral;
    • Tecnologia não é neutra: como são criadas por humanos, as ferramentas carregam os valores de seus criadores, priorizando eficiência e automação acima de virtudes humanas;
    • A escolha continua sendo nossa: em vez de perguntar o que a inteligência artificial pode fazer, a sociedade precisa decidir o que vai permitir que ela faça.

    Os pesquisadores de psicologia preveem quatro papéis possíveis para o futuro da relação entre a IA e a religião na mente humana: Mensageira, Assassina da fé, Rival ou Espírito. Seja qual for o rótulo escolhido pelos fiéis ou pelos executivos de tecnologia, tratar um gerador de probabilidades como um oráculo infalível é um erro primário. Robôs que falham em quase metade dos testes básicos de segurança de software não deveriam receber a guarda da sua consciência moral, muito menos a senha do cofre da sua empresa.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌‌​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​​‌‌​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌​​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌‌​​‌​​‌‌​​​​​​‌‌​​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​​‌​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌‌​​‌​‌‌​​‌​​​​‌‌‌​​​​​‌‌‌​​​​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​​​‌‌​​‌​​⁠

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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