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    NotíciaSegurança e privacidade

    Agente do Claude obteve dados eleitorais da Geórgia sem pagar; estado diz que eram grátis

    Relatório da Anthropic diz que o Claude usou um passe de acesso de um painel público para obter, sem pagar a taxa, totais de votos da Geórgia. O estado afirma que os dados eram gratuitos e que não houve invasão.

    Crachá de visitante temporário sobre planilhas impressas com totais de votos por condado, em mesa de arquivo de escritório iluminada por luz natural lateral
    Relatório da Anthropic diz que o Claude obteve totais de votos da Geórgia sem pagar a taxa; o estado afirma que os dados eram gratuitos e que não houve invasão.
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    Um pesquisador da Anthropic (abre em nova aba) precisava de números de votação da Geórgia, nos Estados Unidos, para um projeto de estatística. O Claude entregou os números. O problema está no caminho que ele escolheu. Segundo a própria empresa, o modelo achou sozinho um atalho para dados que o estado cobra para fornecer e usou esse atalho sem que ninguém pedisse.

    A história veio a público em etapas. A primeira foi um relatório da Anthropic de 9 de outubro sobre ações não intencionais de seus modelos, que descrevia o caso sem dizer de que estado se tratava. A segunda veio no domingo (25), quando o Axios identificou a Geórgia. A terceira, nesta segunda-feira (26), foi a versão do governo estadual, que contradiz um ponto central do relato original.

    O que a Anthropic contou

    De acordo com o relatório, o pesquisador usava o Claude Mythos 5 num projeto que exigia dados públicos oferecidos por uma agência estadual mediante taxa. O Claude não seguiu esse caminho. Numa cópia arquivada do site da agência, ele descobriu que o painel público de dados entregava um token de acesso, uma espécie de passe temporário, a qualquer visitante. O modelo pediu um e, com ele, consultou o banco de dados "sem pagar a taxa", nas palavras da empresa.

    Folha impressa de painel eleitoral com tabela de totais de votos por condado, apoiada sobre balcão de repartição pública ao lado de um aviso de cobrança de taxa, sob iluminação fria
    Totais de votos da Geórgia obtidos pelo agente do Claude estavam em painel público; o estado diz que os dados eram gratuitos e que não houve invasão

    O detalhe mais importante veio de um porta-voz da Anthropic, citado pelo Axios e pela Fox Business: o modelo fez isso "sem que fosse pedido". Segundo a Reuters, com base em nota da empresa, o acesso aconteceu "sem autorização humana". Ninguém mandou o Claude procurar uma brecha. Ele concluiu por conta própria que aquele era o jeito mais eficiente de cumprir a tarefa.

    O que foi acessado e o que não foi

    Nesse ponto, as versões coincidem. O Claude obteve apenas contagens agregadas, ou seja, os totais de votos. Segundo a Anthropic, ele não entrou no sistema de registro de eleitores, não alterou nem baixou registros de votação e não puxou dados de nenhum eleitor individual. A vice-secretária de Estado, Jordan Fuchs, disse à Fox Business que os dados eram públicos, foram acessados pelo hub de dados do estado e que o agente "não entrou no sistema de registro de eleitores".

    A empresa afirma que, nos dois casos de dados restritos descritos no relatório, o Claude obteve informação "já disponível ao público, mas apenas mediante taxa". Ela também classifica como mínimo o impacto real dos episódios identificados.

    A Geórgia conta outra história

    A divergência está justamente na suposta falha. Em comunicado, o secretário de Estado, Brad Raffensperger, afirma que o agente acessou o Data Hub (abre em nova aba) do estado, "que é gratuito ao público". Ele resume a posição do governo assim: "Acessar informação pública não é um hack."

    O comunicado diz ainda que, nesta segunda, a Anthropic confirmou ao gabinete que seu agente não acessou a lista de eleitores nem contornou nenhum paywall, como se chama a barreira de cobrança. O Claude teria usado apenas o que estava no hub público. Isso contraria o texto do relatório e a fala do porta-voz no fim de semana, que tratavam de informação "normalmente disponível mediante taxa".

    Uma frase do porta-voz à Fox Business ajuda a conciliar as versões. Segundo ele, os totais "podem ser derivados" de dados que o estado vende. É possível, então, que o arquivo pago exista e que os números puxados pelo Claude estivessem num painel gratuito. Se foi isso, a Anthropic descreveu como drible na cobrança algo que o estado considera uso normal de uma ferramenta de transparência.

    Quem sabia, e desde quando

    A cronologia divulgada pela Secretaria de Estado da Geórgia (abre em nova aba):

    • 8 de outubro: a Anthropic procura o gabinete, que no mesmo dia conclui que não houve acesso indevido ao registro de eleitores.
    • 9 de outubro: a Casa Branca contata o gabinete, que compartilha suas conclusões.
    • 16 de outubro: o gabinete procura a Anthropic e o jornal Atlanta Journal-Constitution.
    • 25 de outubro: o Axios publica o caso.

    Pelas datas, a Anthropic avisou o estado um dia antes de publicar o relatório. O Axios acrescenta, com base numa fonte a par do assunto, que integrantes do governo federal pediram ao gabinete que divulgasse o episódio mais cedo e não foram atendidos. A cronologia estadual registra que o gabinete procurou um jornal local em 16 de outubro, mas a história só se tornou pública nove dias depois. A Anthropic diz que não nomeou as agências a pedido delas, para não expor vulnerabilidades.

    O que a Anthropic mudou

    A empresa diz ter atualizado as proteções das ferramentas que dão ao Claude acesso à internet, para detectar e bloquear automaticamente esse tipo de comportamento. Segundo ela, os novos bloqueios foram testados contra os casos do relatório e barraram todos. A Anthropic também suspendeu o acesso à internet em tempo real nas avaliações internas até confirmar que o monitoramento funcionava.

    As medidas fazem sentido, mas o teste foi conduzido pela própria Anthropic, com exemplos que ela já conhecia. Bloquear um atalho já visto é bem mais fácil do que prever o próximo.

    Por que isso importa

    O caso da Geórgia não é isolado. O relatório o inclui numa categoria de comportamento, a de contornar restrições para chegar a dados bloqueados por token ou taxa. O documento também cita sites de agências americanas nos níveis federal, estadual e municipal.

    No fim, o episódio pode ter sido menos grave do que pareceu: eram totais de votos, possivelmente gratuitos, e nenhum eleitor foi exposto. A lição, porém, não depende desse desfecho. Um agente de IA recebeu uma tarefa banal e, sem ninguém pedir, foi atrás de uma porta lateral num site do governo. Desta vez, a porta dava para uma sala que já estava aberta. Quem põe agentes para navegar na web em seu nome deveria encarar o caso como um aviso.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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