A Perplexity (abre em nova aba) resolveu transformar o seu buscador de inteligência artificial em colega de firma que não tira férias nem fecha o expediente. A empresa lançou nesta semana o Teammates, um sistema de agentes virtuais que continua trabalhando depois que o usuário desliga o monitor. Disponível inicialmente na web para assinantes do plano Max, que custa US$ 200 por mês (e com previsão de chegar aos celulares iOS e Android), o recurso assume funções inteiras dentro do escritório, opera 24 horas por dia, recruta outros robôs quando o serviço aperta e até chama colegas humanos no Slack para cobrar pendências ou entregar relatórios.
A diferença entre a novidade e os assistentes de chat comuns está na persistência e no acesso. Um chatbot tradicional espera uma pergunta, dá uma resposta e volta a dormir, esquecendo metade do contexto no dia seguinte. No Teammates, cada agente vive em uma aba lateral que nunca é encerrada e recebe uma sessão própria de área de trabalho e de navegador web. Ele herda a memória de projetos antigos, as ferramentas instaladas e até os arquivos de identificação (os chamados cookies locais) do computador do titular. Em bom português: o software trabalha logado nas contas do dono, com as mesmas permissões de acesso, sem precisar perguntar toda manhã onde ficam as planilhas.
Para mostrar o que isso significa na prática, a própria Perplexity exibiu o caso de um engenheiro que entrega o seu plantão noturno, das 18h às 8h, para um agente. Quando um erro derruba o sistema de cobrança às 23h42, o assistente virtual lê os registros da falha, descobre a causa, escreve o conserto copiando o estilo das últimas 20 entregas daquele profissional e prepara um plano de emergência. O humano só é acionado porque estabeleceu a regra de que nenhuma correção vai ao ar sem o seu aval. Fora da área técnica, a lógica se repete em vendas, finanças, suporte e marketing: se um agente comercial nota que um cliente fiel parou de fazer pedidos, ele começa a investigar o motivo por conta própria, sem esperar ordem da chefia.

O prédio de três andares da Perplexity
Essa autonomia toda não brotou do nada, mas funciona como o terceiro andar de um edifício que a startup começou a erguer em julho de 2025. Naquela época, a empresa lançou o navegador Comet para automatizar o envio de e-mails e a navegação em páginas da web. Em fevereiro de 2026, veio o segundo piso: o Perplexity Computer, um sistema que instala agentes no aparelho do usuário e distribui tarefas entre 19 modelos diferentes de inteligência artificial. O Teammates roda exatamente sobre a estrutura e a segurança do Computer, trocando as tarefas avulsas por projetos contínuos de longo prazo, uma transição dos simples motores de resposta para a automação pesada de escritório que acompanhamos de perto no IA.com.br.
O calendário do anúncio expõe a pressa de quem tenta ocupar o mercado corporativo antes que os gigantes do setor tranquem a porta por dentro. O lançamento bate de frente com o Dots, da OpenAI (abre em nova aba), e com o Claude Duet, da Anthropic (abre em nova aba), que estrearam propostas semelhantes nos últimos meses. A disputa anda tão acirrada que a OpenAI comprou a empresa Pierre Computer na semana passada para turbinar suas ferramentas de programação, enquanto a Anthropic vê seus custos de computação subirem na corrida para abrir capital na bolsa de valores.
Na tela de controle do Teammates, o trabalhador humano ainda manda: pode acompanhar o histórico em tempo real, mudar os planos no meio do caminho e definir em quais situações o robô é obrigado a pedir autorização antes de agir. Ainda assim, entregar os acessos do navegador e o microfone aberto do Slack da empresa para um software de US$ 200 mensais inaugura um novo tipo de saia justa corporativa. Antes, quando o serviço atrasava, o funcionário dizia que o sistema havia caído; agora, terá de explicar à diretoria por que o seu sósia digital resolveu cobrar o chefe errado às três da madrugada.

