Pular para o conteúdo
    NotíciaSegurança e privacidade

    Acusado de grampear a OpenAI tinha pasta “Saudi Gov Docs” e fica preso sem fiança

    Juiz nega fiança a ex-engenheiro da OpenAI acusado de esconder um gravador numa sala da diretoria. Segundo a promotoria, ele tinha laços com a realeza saudita, e um militar saudita pagou o voo que tirou sua família dos EUA.

    Pequeno gravador de áudio preso sob o tampo de uma mesa de reuniões, com cadeiras vazias ao redor e luz fria entrando pelas persianas
    Ex-engenheiro da OpenAI é acusado de esconder um gravador em sala da diretoria; juiz negou fiança após promotoria apontar laços com a realeza saudita
    Neste artigo

    Um juiz federal em São Francisco decidiu nesta segunda-feira (19) que Abdulrahman Alfozan, 35 anos, ex-engenheiro da OpenAI (abre em nova aba), continuará preso sem direito a fiança até o julgamento. Ele é acusado de esconder um gravador numa sala de reuniões da diretoria da empresa. A decisão saiu um dia depois de a promotoria entregar ao tribunal um memorando que liga o caso ao governo da Arábia Saudita. Segundo o documento, há no iPhone de Alfozan uma pasta chamada "Saudi Gov Docs" (documentos do governo saudita). Ele também mantinha conversas frequentes com um membro da família real saudita. E um militar saudita pagou a passagem que tirou a mulher e o filho bebê dele dos Estados Unidos cerca de 36 horas depois da prisão.

    O local do grampo é o que torna o caso sério. Segundo os procuradores, o aparelho estava na sala nos dias em que executivos da OpenAI se reuniram ali com autoridades do governo americano. Por isso o memorando afirma que a conduta atribuída a Alfozan "pode representar um perigo para a segurança nacional dos Estados Unidos". Já não se trata só de segredo comercial.

    A pasta rendeu a manchete, mas não é o dado mais forte do processo, porque ninguém informou o que há dentro dela. O que pesou na decisão do juiz foi o dinheiro saudita disponível para tirar a família do país e, se fosse o caso, o próprio réu.

    Família de costas, com malas de rodinhas, caminha por um portão de embarque de aeroporto sob luz fluorescente em direção à ponte de embarque de um voo internacional
    Segundo a promotoria, um militar saudita pagou o voo que levou a família do ex-engenheiro da OpenAI para fora dos Estados Unidos.

    O que a acusação descreve

    Alfozan é saudita, mora em Millbrae, na Califórnia, e tem residência permanente legal nos EUA desde setembro de 2020. Ele havia pedido a cidadania americana. Foi contratado pela OpenAI por volta de julho de 2025, com salário-base anual de US$ 325 mil, depois elevado para US$ 385 mil, mais um pacote de US$ 2,2 milhões em ações.

    Segundo a promotoria, em 28 de setembro de 2026 ele encaixou um gravador de áudio numa entrada USB atrás de uma televisão, numa sala de reuniões executiva de um dos prédios da empresa em São Francisco. Isso aconteceu cerca de duas semanas antes do voo que a família tinha marcado para deixar o país. A BBC relata que o aparelho estava coberto com papel higiênico. A OpenAI o encontrou em 30 de setembro e instalou uma câmera na sala. Em 5 de outubro, Alfozan foi filmado entrando no local e, aparentemente, olhando atrás da TV. O FBI (abre em nova aba) o prendeu em 9 de outubro, e o contrato dele com a OpenAI foi encerrado.

    Na busca na casa e numa análise preliminar do celular, os investigadores dizem ter encontrado:

    • componentes eletrônicos parecidos com os do gravador achado na empresa;
    • fotos de 22 a 28 de setembro que mostram pelo menos mais um dispositivo escondido e painéis de equipamentos em outra sala usada para reuniões sensíveis;
    • uma nota apagada, de setembro, com links para gravadores, incluindo modelos da Seeed Studio (abre em nova aba), fabricante dos aparelhos encontrados no escritório da OpenAI e, pelo FBI, na casa dele.

    Os procuradores escreveram que o réu "fez um grande esforço para criar dispositivos de gravação personalizados e criptografados para gravar secretamente reuniões altamente sensíveis envolvendo altos funcionários e executivos da OpenAI, parceiros de negócios de alto nível e autoridades do governo, tudo isso enquanto se comunicava com pessoas importantes na Arábia Saudita" e fazia planos de viajar para lá.

    Por enquanto, a acusação formal é uma só: tentar interceptar comunicações orais com um dispositivo eletrônico. A pena máxima para esse crime é de cinco anos.

    A trilha saudita, segundo a promotoria

    O memorando reúne uma sequência de indícios que, juntos, apontam para Riad:

    • WhatsApp com a realeza. Ao longo de 2025 e 2026, até 5 de outubro, Alfozan manteve contato frequente com um membro da família real saudita. Segundo a promotoria, essa pessoa tentou várias vezes recrutá-lo para uma iniciativa de inteligência artificial e perguntava quando ele deixaria a OpenAI. Em maio, escreveu: "Saudi needs you more then the US!" ("A Arábia Saudita precisa mais de você do que os EUA!", com o erro de grafia original). Ele respondeu "100", o equivalente a "concordo totalmente", e disse que não sairia antes de suas ações da empresa serem liberadas.
    • Perguntas à IA da própria OpenAI. Entre 6 de julho e 21 de setembro de 2026, ele usou um agente de produtividade interno da empresa para pesquisar contatos com o Ministério das Comunicações e Tecnologia da Informação saudita. As consultas incluíam uma reunião identificada como "HUMAIN x MCIT @OpenAI" e a pergunta "quem da OpenAI seria adequado para participar de uma reunião informal de alto nível com ministros na Arábia Saudita?".
    • A pasta. Ele abriu a pasta "Saudi Gov Docs" em 4 de outubro, quatro dias depois de a OpenAI achar o gravador e um dia antes de ser filmado na sala.
    • A mudança. Uma nota de 13 de setembro, intitulada "Riyadh tasks" (tarefas em Riad), listava encontrar um apartamento e um emprego para a mulher e tirar documento de identidade e passaporte saudita para o filho. A família tinha passagens só de ida de São Francisco para Riad, via Istambul, para 12 de outubro.
    • Contas bancárias. Ele tem pelo menos duas contas na Arábia Saudita.

    O que aconteceu com as passagens depois da prisão é o ponto mais difícil de explicar. Segundo o memorando, o governo saudita reservou e pagou um voo só de ida para Jidá, em 11 de outubro, para a mulher e o filho de Alfozan. Essa reserva foi cancelada quando um militar saudita comprou, em 10 de outubro, outra passagem só de ida, em classe executiva, para Doha, no Catar. Mãe e filho embarcaram cerca de 36 horas depois da prisão.

    Por que o juiz negou a fiança

    O consulado saudita em Los Angeles ofereceu pagar a fiança integral caso Alfozan fosse solto. O juiz Alex G. Tse chamou a oferta de "problemática". "Parece um cheque em branco", disse. "Mesmo que eu fixe em US$ 10 milhões, eles vão pagar o valor inteiro." Tse afirmou ter pouca confiança de que o governo saudita protegeria os interesses americanos. Lembrou ainda que o réu nem precisaria chegar à Arábia Saudita para escapar: "Ele só precisa ir para o Canadá ou para o México".

    A promotoria acrescentou dois argumentos. O primeiro é que a Arábia Saudita não tem tratado de extradição com os EUA. O segundo é um precedente: os procuradores citaram um caso de 2015 em que, segundo eles, sauditas ajudaram a arranjar um voo para o dia seguinte para um funcionário do Twitter, depois que a empresa o confrontou sobre acesso a dados de usuários.

    A defesa disse no tribunal que a mulher de Alfozan obteve recentemente um visto de visitante dos EUA e pretende voltar. Não bastou. Na prática, a oferta saudita ajudou a acusação. Um governo estrangeiro disposto a cobrir qualquer valor por um réu acusado de grampear uma empresa americana deu ao juiz o argumento mais claro para mantê-lo preso.

    O que ainda está em aberto

    Tudo o que está acima são alegações da promotoria num pedido de prisão, não conclusões de um julgamento. A Reuters ressalta que essas afirmações vêm do documento judicial, e não de uma constatação independente de que o governo saudita ordenou as gravações. Os próprios procuradores dizem que o motivo pode ter sido enriquecer, ajudar um governo estrangeiro "ou ambos". A Embaixada saudita em Washington não respondeu ao New York Times, e o governo saudita não respondeu de imediato à BBC.

    A pena máxima de cinco anos é modesta para um caso que a promotoria descreve como risco à segurança nacional. O próprio memorando diz que a investigação continua e "pode resultar em acusações adicionais graves". A acusação atual serve, antes de tudo, para manter Alfozan preso enquanto a apuração avança.

    O que muda para quem lê

    Quem não trabalha numa empresa de IA pode achar o caso distante. Ele não é tão distante assim.

    O caso mostra o peso que empresas de IA ganharam. As salas da OpenAI recebem reuniões com autoridades do governo americano. Segundo a promotoria, um membro da realeza saudita disputava um engenheiro da empresa para um projeto de IA no próprio país. Quem tem acesso a essas salas passa a interessar a governos estrangeiros.

    O risco também veio de dentro, e por um objeto físico. O processo não descreve um ataque hacker. Descreve um funcionário com crachá e um aparelho plugado na entrada USB de uma TV. A detecção funcionou: a OpenAI achou o gravador em dois dias e instalou uma câmera, que registrou o suspeito voltando ao local. Qualquer empresa com reuniões sensíveis deveria ter esse tipo de resposta planejado.

    Por fim, o que se pergunta a uma IA no trabalho fica registrado. Parte das provas saiu dos registros do agente de produtividade da própria OpenAI, que guardaram as perguntas de Alfozan sobre o governo saudita. Quem usa assistentes de IA da empresa deve partir do princípio de que esses pedidos podem ser auditados.

    Alfozan segue preso. A promotoria ainda não respondeu em público para quem eram as gravações. Essa resposta vai definir se o caso é de espionagem corporativa ou de espionagem a serviço de um governo estrangeiro.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

    Ver perfil completo