Quando o Vale do Silício esbarra em um problema físico que não pode ser resolvido com linhas de código, o instinto padrão dos executivos é chamar o departamento de relações públicas. Diante de protestos crescentes de moradores contra a construção de galpões gigantescos que consomem água e energia em escala industrial, a OpenAI (abre em nova aba) decidiu que o verdadeiro problema dos seus data centers é o nome. A nova estratégia da criadora do ChatGPT é aposentar o termo tradicional e tentar convencer o público a chamar essas instalações de "campus de computação de IA" (no original em inglês, AI compute campuses).
A mudança de vocabulário faz parte de uma ofensiva de lobby e comunicação preparada para estrear logo após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira (3). Quem lidera o plano é o chefe de assuntos globais da empresa, Chris Lehane, que justificou a manobra ao portal Axios com aquele tipo de frase pomposa típica de quem tenta vender fumaça em Washington: segundo ele, uma organização pode apenas perseguir o momento ou tentar "informar o momento por meio do poder das ideias". Na prática, a grande ideia consiste em dar um banho de loja semântico em instalações barulhentas para ver se os vizinhos passam a odiá-las um pouco menos.
O desgaste que motivou o rebatismo não tem nada de abstrato. Para quem mora perto dessas estruturas, a inteligência artificial não vive em uma nuvem mágica, mas em prédios enormes que exigem redes elétricas pesadas e volumes imensos de água para resfriar servidores. O resultado nas cidades inclui barulho constante, poluição do ar, aumento na conta de luz dos moradores e contratos costurados entre construtoras e autoridades locais sob acordos de confidencialidade, deixando a população sem acesso a informações básicas sobre os projetos. No IA.com.br, acompanhamos como o custo físico da infraestrutura de IA deixou de ser um debate restrito a engenheiros e virou um foco de tensão política nas comunidades locais.

A revolta saiu da internet e travou obras bilionárias
O pânico da indústria com a própria imagem já vinha dando sinais explícitos. Meses atrás, o cofundador do Reddit (abre em nova aba), Alexis Ohanian, admitiu em uma publicação no X que o setor precisava urgentemente "encontrar uma nova narrativa para essa coisa de data center". Um porta-voz da OpenAI confirmou a tentativa de emplacar o novo nome ao Business Insider no domingo (1º), sob o argumento de que a expressão "campus de computação" descreve melhor a escala das obras, tratadas pela companhia como investimentos de longo prazo capazes de transformar regiões e gerar milhares de empregos qualificados, uma promessa amplamente contestada por críticos desse modelo.
A pressa para mudar de assunto se explica pelos números e pelas obras barradas pelo caminho. Uma pesquisa da Redfin divulgada em maio mostrou que 47% dos norte-americanos são contra a construção de um novo data center em sua comunidade, enquanto outro levantamento recente apontou que mais da metade da população do país acredita que esses prédios prejudicam o meio ambiente. No estado de Michigan, pelo menos 19 municípios aprovaram restrições a novas instalações do tipo depois que o projeto Stargate, uma parceria de US$ 16 bilhões entre a OpenAI e a Oracle (abre em nova aba), avançou mesmo sob forte oposição local. Já no mês passado, a Amazon (abre em nova aba) desistiu de construir quatro data centers no norte da Virgínia após enfrentar a resistência dos moradores.
Enquanto a Microsoft (abre em nova aba) tentou acalmar os ânimos em janeiro prometendo cobrir os aumentos nas tarifas de energia causados por suas instalações, a OpenAI aposta que um nome com ares universitários, somado a promessas de acordos comunitários e à defesa de "limites de velocidade" regulatórios para o desenvolvimento de novos sistemas, servirá de escudo político. Lehane definiu as eleições legislativas desta semana como um "trailer de filme" para a corrida presidencial de 2028, quando o impacto da IA nos empregos, na economia e no meio ambiente estará no centro do palco. Acostumadas à postura amigável da Casa Branca sob Donald Trump (que chegou a sugerir a troca da sigla IA por SI, de "superinteligência"), as gigantes de tecnologia temem que uma Câmara controlada pelos democratas traga um escrutínio muito mais duro. Trocar a placa na porta do galpão pode soar brilhante em uma sala de reunião em São Francisco, mas não vai reduzir em um centavo a conta de luz de quem vota.


