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    ArtigoPesquisa e ciência

    Workflow com LLM e SHAP para scores de fraude prova

    Paper da UCSD e da Universidade de Chicago tira do LLM a autoridade sobre a evidência ao explicar diferenças em scores de fraude. A arquitetura está certa, mas a avaliação mede conformidade ao procedimento, não a qualidade do diagnóstico.

    Dois comprovantes de pagamento quase idênticos lado a lado sobre uma mesa, marcados à caneta com 0,92 e 0,35, enquanto a mão de um analista circula um campo divergente sob luz natural
    Workflow que combina LLM e SHAP para explicar diferenças em scores de fraude acerta na arquitetura, mas sua avaliação mede a disciplina do procedimento, não a qualidade do diagnóstico.
    Neste artigo

    Um modelo de fraude dá 0,92 a uma transação e 0,35 a outra que parece quase igual. Diante disso, o analista não quer saber o que o modelo pensa. Quer saber o que separa as duas. O trabalho de Hanqing Dou (Universidade da Califórnia em San Diego) e Zijia Cao (Universidade de Chicago), publicado no arXiv (abre em nova aba) em 10 de outubro e aceito para a ICECER 2026, marcada para 3 a 5 de dezembro, responde a essa pergunta com uma decisão de engenharia que considero correta: o LLM não produz evidência. Ele raciocina sobre evidência que outra parte do sistema calculou e que uma terceira parte confere. O problema está na avaliação, que mede sobretudo se o sistema obedeceu ao próprio procedimento. Isso demonstra disciplina, mas ainda não demonstra diagnóstico.

    O que o workflow faz

    O alvo é um score de fraude em pagamentos gerado por um modelo de árvores. Não se trata de crédito nem de AML, e o trabalho vem da academia, não de um banco. Os autores treinam um XGBoost com 15 variáveis sobre o conjunto simulado do Fraud Detection Handbook: 21 dias, 201.295 transações, 1.792 fraudulentas (0,89%). Depois da divisão e da filtragem, ficam 67.240 transações para treino (598 fraudes) e 58.264 para teste (385 fraudes). O modelo atinge ROC-AUC de 0,885 e average precision de 0,6347 no teste. É competente sem ser perfeito, e isso é adequado ao estudo, porque um modelo que erra é justamente o que precisa ser explicado.

    O pipeline tem quatro peças:

    1. Recuperação de referências. Para uma transação-alvo, o sistema busca vizinhas no espaço das variáveis de entrada padronizadas, por distância euclidiana. Exige uma diferença mínima de score δ = 0,2 e fica com as K = 10 candidatas mais próximas que cumprem o critério.
    2. SHAP contrastivo. As atribuições do alvo são comparadas às das referências. O SHAP é calculado sobre a margem bruta do XGBoost, enquanto o score exibido é a probabilidade.
    3. Raciocínio do LLM. O modelo de linguagem recebe esse material e redige o diagnóstico, citando os registros de evidência por identificador.
    4. Validação determinística. Um validador confere a reconstrução do SHAP e verifica se cada afirmação aponta para evidência que a sustenta.

    Tudo foi empacotado como uma Codex Skill, rodando sobre o modelo que os autores identificam como gpt-5.6-sol, no Codex 0.145.0-alpha.27.

    Mãos de analista sobre mesa de escritório comparando folhas impressas com gráficos de barras horizontais, uma transação suspeita ao lado de outras dez vizinhas, sob luz natural lateral
    Comparar uma transação suspeita com vizinhas de score diferente ajuda a explicar a variação, mas seguir o procedimento não garante um diagnóstico correto.

    O acerto: tirar a evidência das mãos do modelo de linguagem

    A avaliação de ponta a ponta usou 300 transações separadas: 100 de score baixo (abaixo de 0,1), 100 médias (de 0,1 a menos de 0,8) e 100 altas (0,8 ou mais). Cada uma rodou três vezes, o que dá 900 execuções por condição. As duas condições terminaram todas as execuções com algum diagnóstico. A diferença está no que esse diagnóstico continha:

    Conjunto de referências100%43,2% (389/900)Referências contrastivas válidas100%1,8% (16/900)Evidência SHAP100%52,8% (475/900)Comparação local–global100%0,8% (7/900)Afirmações ligadas a evidência100%0%Validação de evidênciaaprovada em 100%não aplicável

    O dado mais revelador é a distância entre os 52,8% de uso de SHAP e os 1,8% de referências contrastivas válidas. Sozinho, o modelo recorre ao SHAP com frequência, porque é a ferramenta óbvia. Quase nunca, porém, constrói a comparação que dá sentido ao SHAP nesta pergunta. As atribuições de uma única transação dizem o que empurrou o score. Só o contraste com uma vizinha próxima de score diferente diz o que separa as duas. Escolher essa vizinha é um problema de busca com restrições explícitas, o tipo de tarefa que um modelo de linguagem executa mal e que poucas linhas de código determinístico executam bem. O paper mostra, em números, que a parte difícil da explicação não é a redação.

    O que o validador garante, e o que ele não alcança

    A primeira verificação é a reconstrução do SHAP. Nos três alvos de auditoria (scores de 0,0941, 0,5104 e 0,9231), o erro máximo foi de 4,6 × 10⁻⁶ na margem e de 3,77 × 10⁻⁷ na probabilidade, ambos abaixo da tolerância de 10⁻⁵. Para modelos de árvore, o TreeSHAP satisfaz a acurácia local por construção: soma das atribuições mais valor base é igual à margem. A checagem, portanto, não testa o SHAP. Testa o pipeline. O bug que ela pega é o mundano: confundir margem com probabilidade, explicar a linha errada, truncar valores, deixar o LLM reescrever um número. É uma proteção útil, e os autores fazem bem em conferir as duas unidades separadamente.

    A segunda verificação é a das afirmações. O validador confrontou 39 enunciados diagnósticos com 72 registros de evidência citados e rejeitou os que não tinham sustentação. Ele confirma que uma frase como "a variável X elevou o score" corresponde a um registro em que o SHAP de X é positivo. Não confirma que a história montada com frases sustentadas seja a mais relevante, nem que aquilo que o LLM deixou de fora fosse dispensável. Um diagnóstico pode ser feito só de afirmações verdadeiras e citadas e ainda assim enganar pela seleção.

    Há um limite mais fundo. O SHAP explica o modelo, não a fraude. Se o XGBoost aprendeu uma correlação espúria, o validador vai certificar, com erro de 10⁻⁷, uma explicação fiel da correlação espúria. O título do paper é honesto nesse ponto: fala em diagnóstico de diferenças de score. O perigo está em quem lê "validado" e entende "verdadeiro sobre o mundo".

    Por fim, tudo depende da recuperação. Nos três alvos, as distâncias médias das referências escolhidas foram 0,6245 (alvo de score baixo), 0,3488 (médio) e 0,2737 (alto), entre 71,1% e 81,6% menores que as de conjuntos aleatórios. Nenhum de 3.000 conjuntos aleatórios ficou tão perto. A comparação com o acaso, porém, é uma barra baixa: prova que a busca não é arbitrária, não que as referências sejam boas.

    O padrão das distâncias também tem uma lógica que preocupa. Para um alvo de 0,0941, a referência precisa ter score de pelo menos 0,2941. Numa base com 0,89% de fraudes, scores altos são raros, e a vizinha qualificada mais próxima fica mais longe. O caso de uma fraude que passou com score baixo, talvez a pergunta mais cara para uma operação, tende a receber as referências menos parecidas. Com só três alvos, isso é um indício, não um padrão medido.

    Duas escolhas de projeto pesam aqui. A distância euclidiana padronizada trata as 15 variáveis como igualmente importantes, independentemente do peso que cada uma tem no modelo. E o δ é fixo, sem que os autores o apresentem como ótimo. O LLM raciocina sobre as referências que recebe, e o validador confere afirmações contra essas mesmas referências. Nenhum componente pergunta se eram as referências certas.

    Por que a comparação com o LLM sem guia diz pouco

    O validador foi "não aplicável" no LLM sem orientação porque as saídas não tinham o formato exigido nem os identificadores de evidência. Os 0% de afirmações ligadas a evidência são quase uma definição: uma condição recebeu um formato com IDs e a outra não. Equivale a avaliar se respostas seguem um gabarito comparando quem recebeu o gabarito com quem não recebeu. Os próprios autores reconhecem o alcance do experimento: um dataset simulado, um modelo de árvore, uma configuração de LLM. As três execuções mostram consistência procedimental, não generalização.

    Para sustentar a palavra "diagnóstico", faltariam três comparações:

    • O mesmo LLM com as mesmas ferramentas e o procedimento descrito no prompt, mas sem a trava determinística. Isso isolaria a contribuição do validador.
    • Um template determinístico, sem LLM, listando as maiores diferenças contrastivas de SHAP. Isso isolaria o que o modelo de linguagem acrescenta.
    • Analistas julgando se os diagnósticos ajudam a decidir um caso mais rápido ou melhor.

    Nos resultados reportados, nada disso aparece, e o teste ocorreu sobre dados simulados, não em operação. A segunda comparação é a que mais me incomoda. Se a evidência é calculada e conferida deterministicamente, sobra ao LLM selecionar e narrar. A seleção é justamente o que o validador não verifica. A contribuição real do modelo de linguagem fica concentrada na parte menos verificada do sistema.

    O melhor contraponto

    Numa operação de fraude, o procedimento é o produto. Um auditor, uma equipe de compliance ou uma contestação não perguntam se a explicação é perspicaz. Perguntam de onde veio cada frase. Por esse critério, um LLM com 0% de afirmações rastreáveis é inutilizável, por mais inteligente que soe, e os 100% em 900 execuções são o único número que importa. Medir conformidade seria medir a coisa certa.

    Concedo boa parte disso. Rastreabilidade é pré-condição, e o paper mostra que ela se obtém com engenharia comum, não com um prompt melhor. Mas pré-condição não é suficiência, e há um agravante. O selo de "validado" transfere autoridade. Um texto sem citações convida à desconfiança. Um texto com 39 afirmações citadas e aprovadas convida à confiança. Se a seleção for enviesada ou as referências forem ruins, o sistema produz algo pior que uma explicação inverificável: uma explicação errada com aparência de verificada.

    O que levar para o seu pipeline

    • Calcule a evidência fora do LLM, dê a cada registro um ID estável e exija que toda afirmação cite IDs.
    • Verifique a aditividade do SHAP na unidade que você mostra ao usuário. Se o score é probabilidade e o SHAP está em margem, confira as duas, como o paper faz.
    • Registre a seleção de referências com distância e diferença de score, compare com conjuntos aleatórios e monitore os alvos em que as referências ficam distantes.
    • Escolha a métrica de distância de forma consciente. A euclidiana padronizada ignora a importância das variáveis.
    • Antes de adotar o LLM, compare-o com um template. Se o template resolve quase tudo, o modelo de linguagem é custo e risco opcionais.
    • Avalie com analistas, não só com checagens de formato.

    O trabalho de Dou e Cao deve ser lido como um padrão de arquitetura, não como prova de que LLMs diagnosticam bem diferenças de score. Ele mostra que o lugar do modelo de linguagem num sistema de risco é a última etapa, cercada por cálculo e conferência. Falta mostrar que, nessa etapa, ele escolhe bem o que dizer. Até lá, o que o validador aprova é a contabilidade da explicação, não a sua verdade.

    Fontes

    Filipe Mendes

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