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    ArtigoInfraestrutura e hardware

    Vera Rubin aberta no OCP: o que a NVIDIA entregou de verdade e o que segue fechado

    No OCP Global Summit de 2026, a NVIDIA abriu os designs de rack e bandeja da arquitetura Vera Rubin, componentes de software do DSX e padrões de rede, mas manteve o silício e o stack proprietários. O artigo analisa o que essa abertura cobre, o que deixa de fora e o que muda na prática para quem constrói AI factories.

    Bandeja de computação MGX com módulos expostos, sem tampas, empilhada em rack aberto no salão de exposição do OCP Global Summit, sob luz industrial neutra sobre o metal escovado.
    Bandeja MGX exposta em rack aberto no OCP Global Summit: a abertura dos designs de rack e bandeja da arquitetura Vera Rubin contrasta com o silício e o stack que seguem fechados.
    Neste artigo

    A palavra "aberto" leva uma vida difícil no mercado de infraestrutura. Serve para código, para especificação, para padrão de indústria e, com frequência, para a promessa vaga de que alguém vai publicar um diagrama. Quando a NVIDIA disse no OCP Global Summit deste ano (abre em nova aba) que "abriu" a arquitetura Vera Rubin, a pergunta que interessa não é se abriu, mas o quê, exatamente — e para quê.

    A resposta tem duas camadas. Na superfície, há uma lista concreta de designs e especificações entregues ao Open Compute Project (abre em nova aba), a fundação que padroniza hardware de data center, conhecida pela sigla OCP. No fundo, há uma decisão estratégica sobre onde termina a commodity e onde começa o produto. As duas camadas explicam por que o anúncio importa para quem opera AI factories — e por que "aberto", neste caso, não significa o que um leitor apressado poderia imaginar.

    O que foi colocado na mesa, item por item

    No evento realizado em São Jose, na Califórnia, a NVIDIA anunciou a contribuição dos designs de rack e de compute tray (a bandeja que abriga os módulos de computação) da Vera Rubin ao OCP, por meio da MGX, a arquitetura modular de referência da própria empresa. A versão 1.2 dessa especificação traz um conjunto de mudanças físicas substantivas: refrigeração líquida em nível de rack com conexão do tipo blind-mate — o encaixe fluido que acopla a bandeja ao circuito de água sem mangueiras aparafusadas à mão —, interconexão interoperável entre racks, um barramento de distribuição de energia refrigerado a líquido capaz de 5.000 amperes, suporte nativo a equipamentos de 19 polegadas e implantações de até 250 kW por rack.

    Bandeja de computação MGX da arquitetura Vera Rubin encaixada em rack de data center, com conexão de refrigeração líquida blind-mate acoplada ao circuito de água durante o OCP Global Summit.
    Bandeja MGX da Vera Rubin em rack com refrigeração líquida blind-mate: abertura de designs no OCP, mas silício segue proprietário.

    A bandeja de computação contribuída, segundo Joe DeLaere, gerente sênior de AI factory da NVIDIA, não tem cabos, mangueiras nem ventiladores: é refrigerada a líquido, modular e cobre energia, refrigeração e mecânica. Ele resumiu a lógica em um briefing de imprensa:

    "O gargalo das construções de AI factories é a velocidade com que conseguimos fabricar e implantar."

    A frase, ainda que venha da própria empresa, dá nome ao problema certo. Um rack de 250 kW não é um servidor maior: é uma obra de engenharia elétrica, hidráulica e mecânica que multiplica por dezenas a densidade do que os data centers tradicionais foram projetados para abrigar. Quando a especificação disso é fechada, cada fornecedor espera a encomenda de um único cliente para começar a produzir. Quando é aberta, fabricantes de servidores e de componentes podem montar cadeia de fornecimento antes de existir comprador — e o prazo entre a decisão de construir uma AI factory e o rack ligado na parede encurta.

    Há também continuidade de projeto: o mesmo footprint do rack MGX que hoje abriga o GB300 NVL72, geração anterior, serve para o Vera Rubin NVL72, posicionado pela NVIDIA como base para treinamento e inferência em larga escala, e para o rack de CPU Vera Rubin, destinado a chamadas de ferramentas, orquestração e execução em ambiente isolado — o tipo de carga que domina quando agentes de IA passam a consumir mais máquina do que o próprio treinamento do modelo.

    Software: o DSX sai de portas adentro

    A abertura não parou na chaparia. A NVIDIA publicou como open source quatro componentes do DSX AI Factory, a plataforma de software da empresa para operar fábricas de IA: o Config Manager, o Cluster Readiness Engine, o Rack Management Service e um provedor de Cluster API — o mecanismo padrão do ecossistema Kubernetes para provisionar infraestrutura por código. Os quatro têm repositórios públicos no GitHub.

    Em paralelo, a NVIDIA, a AMD, o Google e a Meta publicaram juntos a versão 0.7 da Open Data Center Specification, e a NVIDIA, o Google, a Meta e a Microsoft divulgaram a OCP Grid Resilience Specification, que segundo a NVIDIA exige que o data center permaneça conectado durante distúrbios na rede elétrica e recupere carga quase total em menos de dois segundos. Esse último número é afirmação da empresa, não medição independente — mas o tema em si é o que separa um data center comum de uma fábrica de IA que consome potência na escala de usinas: a sensibilidade do grid elétrico passa a fazer parte do desenho do produto.

    Rede: onde o ecossistema se encaixa de verdade

    A terceira frente do anúncio foi a rede, e aqui aparecem os nomes que dão peso ao pacote. A Meta anunciou adoção do Spectrum-6, o switch Ethernet de 102,4 Tb/s da NVIDIA, dentro do seu próprio rack refrigerado a líquido, o IcePack, rodando FBOSS — o sistema operacional de rede desenvolvido pela própria Meta. O Spectrum-6, sempre segundo os números da NVIDIA, dobra a capacidade de comutação e a banda por via em relação ao Spectrum-4, com Ethernet sem perdas a 200 G por via. Com o Spectrum-X Multiplane, que distribui tráfego em até oito planos usando o Spectrum-6 e os SuperNICs ConnectX-9 — chips de rede de alta performance para GPUs, , a arquitetura foi apresentada como capaz de sustentar fábricas de mais de 100.000 GPUs.

    Com a Cisco, o anúncio mais específico foi o USFP, o Ultra-Dense Small Form Factor Pluggable: um módulo óptico plugsável de 400 Gb/s por via, com pegada física do tamanho do OSFP, o formato de módulo hoje comum em switches, , 16 vias full-duplex no primeiro modelo, plano de escalar a 32, e capacidade de até 12,8 Tb/s por módulo. A NVIDIA e a Cisco afirmam 4x a densidade de banda e cerca de 1,3x a eficiência energética em relação aos módulos de 200 Gb/s por via. Vale registrar: esses números são alegações do anúncio conjunto, não resultados de laboratório independente. O ponto estrutural é outro, com TE Connectivity e Amphenol no grupo, o formato nasce com pretensão de ecossistema multi-fornecedor, e não como peça exclusiva.

    O Google entra com suporte ao Falcon Transport nos futuros ConnectX-10 e BlueField, os DPUs da NVIDIA, com interoperabilidade declarada entre SuperNICs e DPUs. Para quem administra redes de IA, essa é a parte mais pragmática do anúncio: transporte de alto desempenho que não exige trocar o mundo inteiro de fornecedor.

    O que abriu, e o que não abriu

    Posta lado a lado, a fronteira fica visível:

    Entrou no OCP ou em repositórios públicosContinua sob controle da NVIDIA
    Designs de rack e compute tray Vera Rubin (mecânica, energia, refrigeração)Silício: GPU Vera, CPUs, SuperNICs, switches
    Especificação MGX 1.2 (até 250 kW por rack)Drivers, bibliotecas e o stack de software de alto nível
    Quatro componentes open source do DSXRoadmap e ritmo das gerações de produto
    Padrões Open Data Center v0.7 e Grid ResilienceEstratégia de plataforma que amarra hardware e software
    Formato óptico USFP, com Cisco, TE e AmphenolCUDA e o ciclo de atualização de geração em geração

    A leitura que faço é direta: a NVIDIA abriu o chão de fábrica e manteve fechada a sala das máquinas. Tudo que é caro, lento e repetitivo de construir, rack, refrigeração, distribuição de energia, óptica, provisão de software, virou especificação aberta, para que o ecossistema produza em escala e a custo de mercado. Tudo que é diferenciador, o silício e o software que rodam em cima dele, continua proprietário. Não é hipocrisia; é a estratégia mais racional possível para quem domina a camada de valor. O precedente existia: a empresa já havia aberto designs na era Blackwell, e o que vemos é o playbook replicado com a geração seguinte.

    Isso não torna a abertura vazia. O caso da Meta é o contraponto mais forte: uma hyperscaler rodando switch da NVIDIA com sistema operacional próprio, dentro de rack próprio, é interoperabilidade real, não vitrine. O mesmo vale para o Falcon Transport sobre hardware NVIDIA. Onde existe pressão de comprador grande o suficiente, a pilha abre. Onde o comprador é pequeno, ela fecha.

    O que fazer com isso, na prática

    Para equipes técnicas, o anúncio deixa três consequências operacionais verificáveis nas especificações.

    Primeiro, engenharia elétrica de data center muda de patamar: barramento de 5.000 A refrigerado a líquido e racks de 250 kW puxam o ecossistema para alimentação em corrente contínua de alta tensão, a NVIDIA já anunciara em 2025, no mesmo evento do ano anterior, mais de 20 empresas apoiando data centers em 800 VDC, incluindo fornecedores como ABB, Eaton, Schneider Electric, Siemens e Vertiv. Quem projeta instalações precisa começar a tratar 800 VDC como requisito de arquitetura, não como curiosidade.

    Segundo, MGX 1.2 vira critério de compra: ao avaliar fornecedores para os próximos ciclos, perguntar conformidade com a especificação, suporte a racks de 250 kW e desenho de refrigeração líquida com conexão blind-mate é due diligence razoável, não modismo.

    Terceiro, para times de plataforma, os componentes open source do DSX mudam o custo de integração: um provedor de Cluster API para infraestrutura NVIDIA significa provisionar racks por manifestos Kubernetes, no mesmo fluxo do resto do parque. A inferência prática, minha, não da NVIDIA, é que a fronteira entre "operar servidores" e "operar fábrica de IA" se desloca para o código.

    A abertura da Vera Rubin, no fim, é um documento sobre onde está o gargalo de uma indústria. Em 2023, o gargalo era o chip. Em 2026, segundo a própria NVIDIA, é a velocidade de fabricar e implantar. A empresa resolveu abrindo tudo que atrasa a obra, e guardando a chave do que ainda vende.

    Perguntas frequentes

    A contribuição ao OCP inclui as GPUs da Vera Rubin?

    Não. A abertura cobre designs de rack e de bandeja de computação, mecânica, refrigeração líquida e distribuição de energia, , a especificação MGX 1.2, componentes open source do DSX e padrões de rede e de data center. O silício, incluindo GPUs, CPUs, SuperNICs e switches, permanece proprietário da NVIDIA.

    O que é a especificação MGX 1.2?

    É a versão mais recente da MGX, a arquitetura modular de referência da NVIDIA para servidores de data center. A 1.2 adiciona refrigeração líquida em nível de rack com conexão blind-mate, interconexão interoperável entre racks, barramento de energia de 5.000 A refrigerado a líquido, suporte nativo a equipamentos de 19 polegadas e suporte a implantações de até 250 kW por rack.

    O que o USFP muda na prática para redes de IA?

    O USFP é um formato de módulo óptico anunciado pela NVIDIA e pela Cisco que suporta 400 Gb/s por via elétrica, com 16 vias full-duplex em pegada do tamanho do OSFP e capacidade de até 12,8 Tb/s por módulo. Isso permite conectar mais pontos de 1,6 Tb/s sem adicionar camadas de rede. Os números de densidade e eficiência são alegações das duas empresas, ainda sem medição independente.

    A Vera Rubin já está disponível para compra?

    Os materiais do anúncio não confirmam disponibilidade geral. A NVIDIA posiciona o Vera Rubin NVL72 como base para treinamento e inferência em larga escala e o rack de CPU Vera Rubin para cargas de orquestração e execução de ferramentas. Uma afirmação de que o rack de CPU já estaria sendo embarcado aparece em cobertura de terceiros, mas não consta no texto oficial da NVIDIA revisado para este artigo.

    Filipe Mendes

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