Um vídeo de cinco minutos é tudo o que separa uma empresa de IA de um canal de compras do Pentágono onde, por lei, um único contrato pode chegar a US$ 500 milhões sem que o Congresso dos EUA seja notificado. Essa é a promessa, e também o desconforto, do Tradewinds (abre em nova aba): a plataforma de aquisição do Chief Digital and Artificial Intelligence Office (CDAO), o órgão do Departamento de Defesa americano que concentra política de dados e IA, e que o próprio departamento passou a referir, na documentação da plataforma, como Department of War.
O paradoxo é real e verificável. De um lado, o processo tradicional de procurement de defesa é famoso por prazos que se medem em anos e documentos que se medem em milhares de páginas. Do outro, o Tradewinds Solutions Marketplace (TSM), ativo desde o fim de 2022, aceita pitches em vídeo de no máximo cinco minutos, avaliados por um painel de juízes ao menos uma vez por mês, e transforma os aprovados em soluções "awardable" que órgãos militares podem comprar quase de prateleira.
A engenharia do atalho jurídico
O ponto central, e o mais interessante para quem trabalha com contratos públicos ou vendas institucionais, é que o Tradewinds não cria nenhuma autoridade nova. A plataforma afirma operar com as autoridades de aquisição já existentes, alinhada à FAR (Federal Acquisition Regulation), à DFARS (seu suplemento de defesa) e aos regimes de CSO (Commercial Solutions Opening) e OTA (Other Transaction Authority). OTA, em particular, é o instrumento que permite ao Pentágono assiná-los fora do processo licitatório padrão, e a lei americana permite gastar até US$ 500 milhões em uma única OTA sem notificar o Congresso, como reportou a WIRED (abre em nova aba).

O fluxo tem quatro etapas, descritas pela própria plataforma:
- O fornecedor envia o pitch em vídeo de cinco minutos, respondendo a uma das áreas de foco estratégico.
- Um painel de especialistas avalia a solução contra padrões federais.
- As aprovadas entram no Marketplace com status "awardable", tratadas como "pós-competição".
- Compradores governamentais adquirem diretamente, sem nova disputa.
Essa etiqueta de "pós-competição" é o coração do modelo. A competição acontece uma única vez, no momento da avaliação do vídeo. Todo contrato posterior parte de um catálogo que já satisfaz os requisitos federais de competição desde o início. Há ainda um corredor SBIR/STTR, com soluções previamente competidas e elegíveis à Fase III sob o código 15 USC 638, o que permite a qualquer organização do departamento selecioná-las e contratá-las sem nova competição.
Os números de velocidade divergem conforme a fonte, e a diferença é instrutiva. A própria plataforma reporta um PALT (Procurement Administrative Lead Time) mediano de 45 dias em 2025. Já um oficial do Departamento de Defesa afirmou à WIRED que, em vários casos, os contratos foram assinados em menos de uma semana. As duas afirmações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: a mediana captura o conjunto, os casos extremos mostram o teto de desempenho do processo.
O que os números dizem, e o que não dizem
| Métrica | Valor |
|---|---|
| Atividades governamentais participantes (junho de 2026) | 186 |
| Valor em contratos celebrados via Marketplace | US$ 3,67 bilhões |
| Soluções "awardable" no catálogo | 1.399 |
| Vídeos submetidos | 4.064 |
| Valor total dos prêmios em 2025 | US$ 1,753 bilhão |
| Contratos concluídos em 2025 | 80 |
| Median PALT em 2025 | 45 dias |
Duas leituras cabem nessa tabela. A primeira é factual: a plataforma publica US$ 3,67 bilhões em contratos celebrados até junho de 2026, com 1399 soluções disponíveis para compra. A segunda é uma inferência que o leitor técnico deve fazer com cuidado: as métricas públicas não separam obrigação financeira efetiva de valor máximo autorizado dos instrumentos, detalhe que em aquisição de defesa costuma mudar bastante a leitura. E há um limite estrutural de transparência que a própria plataforma admite: contratos classificados não aparecem na lista pública.
Kill chain como área de foco
Aqui o assunto deixa de ser burocracia de compras e passa por doutrina militar. Kill chain, ou cadeia de abate, é a sequência que vai da detecção de um alvo à decisão e ao engajamento, o percurso "sensor-to-shooter". Comprimir essa cadeia, reduzindo o tempo entre detectar e agir, é um dos objetivos declarados de modernização há décadas, e a IA entra como acelerador em cada elo: fusão de sensores, priorização de alvos, sugestão de cursos de ação.
Segundo a WIRED, a chamada atual do Pentágono busca pitches de IA que possam "enhance force lethality", aumentar a letalidade da força, e "unleash" agentes habilitados por IA capazes de auxiliar o processo conjunto de seleção de alvos, incluindo a execução da kill chain. O vocabulário vem da própria solicitação. O contexto orçamentário acompanha: na proposta de orçamento de 2027 enviada ao Congresso, a Casa Branca pediu US$ 1,5 trilhão para o Departamento de Defesa, citando "investimentos históricos" em IA como prioridade.
Uma ressalva técnica se impõe: auxiliar uma cadeia de abate não é o mesmo que decidir o disparo. Os documentos públicos não especificam onde ficam os limites de autonomia delegada aos agentes de IA, e é razoável, embora seja inferência, supor que os contratos classificados tratem exatamente desses detalhes, os mais sensíveis e os menos visíveis.
Quem já está no catálogo
A lista pública de premiados inclui OpenAI (abre em nova aba), Anthropic (abre em nova aba) e Google (abre em nova aba), ao lado de nomes consolidados em defesa como Palantir USG, Booz Allen Hamilton, SAIC, Scale AI, C3.AI e BigBear.ai. Segundo registros públicos reportados pela WIRED, as três empresas de modelos de fundação mantêm OTs com o CDAO.
Para essas empresas, a presença no Marketplace resolve um problema específico do setor: a venda direta de modelos de linguagem para o governo americano ainda é território sensível, com termos de uso que frequentemente excluem aplicações militares. Estar no catálogo não revela quais produtos são usados nem para quê, apenas que algum vídeo de cinco minutos convenceu um painel de que valia a pena mantê-los à disposição de compradores militares. No fim das contas, o que o público enxerga é só a capa.
Onde o modelo enruga
Três pontos merecem ceticismo ativo, e nenhum deles é especulação.
O primeiro é a Concentração da competição em um único momento. Uma vez "awardable", a solução fica disponível para compra direta por dezenas de atividades governamentais, 186 no recorte de junho de 2026, sem novo confronto de propostas. O ganho de velocidade existe, mas o mecanismo reduz as oportunidades naturais de reavaliação competitiva.
O segundo é o limite de supervisão. Uma OTA de até US$ 500 milhões sem notificação ao Congresso significa que a fiscalização parlamentar chega, quando chega, depois do compromisso assumido. O painel que avaliou o vídeo não é substituto de oversight orçamentário.
O terceiro é o acesso seletivo à informação. Só usuários com e-mail .gov ou .mil podem navegar pelo Marketplace e ver os pitches. Combinado com a exclusão dos contratos classificados da lista pública, o resultado é um mercado de bilhões de dólares cuja vitrine é aberta apenas para o comprador.
O caminho para quem quer submeter
A chamada aberta (abre em nova aba), mantida pelo CDAO em parceria com o Applied Research Institute (ARI), aceita submissões de negócios americanos grandes e pequenos, contratantes não tradicionais de defesa, instituições acadêmicas, organizações sem fins lucrativos e até indivíduos com inovações qualificadas. Entidades estrangeiras podem participar, desde que cumpram integralmente a legislação de exportação. As instruções completas, incluindo formatos e termos de licenciamento, estão na solicitação oficial publicada no SAM.gov.
A barra de entrada aparente é baixa: um vídeo de cinco minutos. A barra real inclui a avaliação contra padrões federais, a definição de licenciamento e a preparação para um comprador que pode assinar em menos de uma semana. E, se o contrato resultante for classificado, o nome da empresa aparece na lista pública de premiados sem que ninguém de fora saiba dizer o que, exatamente, o Pentágono está comprando.
