Até 2021, o venture capital americano tinha um padrão que parecia normal: muito dinheiro entrando, empresas abrindo capital com frequência e valuations subindo. Depois veio o freio. Juros altos a partir de 2022, correção de valuations e uma janela de IPO quase paralisada encolheram o setor por três anos. O PitchBook-NVCA Venture Monitor (abre em nova aba), relatório trimestral publicado em 7 de outubro de 2026, mostra o que aconteceu quando o freio saiu: entre janeiro e setembro, o valor movimentado em rodadas de startups dos EUA chegou a US$ 515,8 bilhões, cerca de 44% acima do recorde anual de 2021, com um trimestre inteiro ainda fora da contabilidade. A leitura, porém, precisa da segunda metade dos dados. As saídas, os exits que devolvem dinheiro aos investidores, continuam raras, e o estoque de empresas privadas com valuation alto cresceu sem caminho claro de liquidez.
O que o Venture Monitor mede
O relatório é produzido pela PitchBook, empresa de dados de mercado privado, em conjunto com a National Venture Capital Association (abre em nova aba) (NVCA), entidade que representa o setor de venture nos EUA. A cada trimestre, ele consolida três frentes: o deal value, ou o valor total transacionado em rodadas de investimento; o fundraising, a captação de novos fundos de venture; e os exits, as saídas por IPO (abertura de capital em bolsa) ou M&A (fusões e aquisições). Para quem trabalha em tecnologia, os três números formam um diagrama de fluxo: o dinheiro entra nos fundos, vai dos fundos para as empresas e, em algum ponto, precisa voltar aos investidores. Neste ano, as duas primeiras etapas estão em recorde. A terceira está travada.
A tabela resume a apuração até o fim de setembro:
Valor investido no anoUS$ 515,8 bi, cerca de 44% acima do recorde anual de 2021Participação da IA no valor do ano82,7%Valor investido no 3º trimestreUS$ 98,4 bi em cerca de 5.012 rodadasParticipação da IA no 3º trimestre65,9%Captação dos fundos de ventureUS$ 108,5 bi em 699 fundosIPOs no 3º trimestre18 empresas, 12 delas em saúdeUnicórnios ativos992 empresas, somando US$ 5,7 tri em valuationA aritmética do recorde
Quando a gente abre os US$ 515,8 bilhões, o recorde vira outra história. Segundo a PitchBook, boa parte do valor do ano vem de duas empresas: a OpenAI (abre em nova aba) Group PBC e a Anthropic (abre em nova aba) PBC, que juntas captaram mais de US$ 200 bilhões no primeiro semestre (a sigla PBC indica public benefit corporation, o tipo societário adotado pelas duas). Sem essas rodadas, dizem os analistas do relatório, o volume de dólares teria seguido a mesma tendência observada desde o fim de 2024: um mercado grande, mas sem aceleração. No terceiro trimestre, o valor investido recuou cerca de 40% em relação ao trimestre anterior, para US$ 98,4 bilhões, o que dá a dimensão de quanto o número anual depende de poucas transações gigantes.
A IA respondeu por 82,7% de todo o valor do ano, a maior participação anual da série do relatório. No trimestre, a fatia caiu para 65,9%, e o maior cheque foi o de US$ 5 bilhões recebido pela Databricks (abre em nova aba), plataforma de dados e inteligência artificial. Em outras palavras: o setor não está investindo em recorde; está investindo em IA em recorde, o que não é a mesma coisa. Quem constrói ferramenta fora do recorte de IA disputa um pedaço menor de um mercado que já se acostumou a escrever cheques enormes para poucas empresas.
Dinheiro novo, mãos conhecidas
A captação de fundos acompanhou o mesmo desenho. Os fundos de venture americanos levantaram US$ 108,5 bilhões até setembro, mas 78,1% desse total foi para fundos de US$ 500 milhões ou mais, que representam apenas 6% dos fundos fechados. Firmas que já estão no quarto fundo ou depois ficaram com 88,2% dos dólares, a maior fatia da série. Fundos de primeira captação levaram cerca de 4,5%, com apenas 81 fechados no ano.
Nesse quadro, a Andreessen Horowitz (abre em nova aba) virou um caso extremo: US$ 23,8 bilhões fechados em múltiplos fundos, mais de 20% de toda a captação de venture dos EUA no ano. Bobby Franklin, presidente e CEO da NVCA, resumiu o paradoxo na divulgação do relatório: a força da inovação em IA pode esconder desafios crescentes no mercado de captação, com ambiente difícil para gestores emergentes e de médio porte. Para um time técnico que pondera entre startup própria e emprego, a consequência é direta: o dinheiro existe, está em poucas mãos, e essas mãos têm concentrado os aportes em IA de estágio avançado.
A janela que não abriu
Não é nenhum mistério que o IPO funciona como torneira de liquidez para todo o ciclo: devolve dinheiro ao investidor, realoca capital para novos fundos e marca preço público para empresas privadas comparáveis. A saída mais comentada do ano, o IPO da SpaceX (abre em nova aba), estreou com valuation de US$ 1,7 trilhão, um recorde para aberturas de capital. A expectativa comum era que uma estreia desse tamanho destravasse a fila. Não destravou. Apenas 18 empresas apoiadas por venture abriram capital no terceiro trimestre, a maioria, 12, em saúde.
O M&A se concentrou em uma operação: a compra da Anysphere, criadora do editor de código com IA Cursor (abre em nova aba), pela SpaceX, por US$ 60 bilhões, toda em ações. Essa transação sozinha representou 53,1% do valor de saídas do trimestre. Sem ela, os exits do período somam US$ 53 bilhões, o que é pouco perto do que se investe em um mês qualquer de 2026.
"A história real está do lado das saídas." (tradução livre)
Nizar Tarhuni, vice-presidente executivo de pesquisa e inteligência de mercado da PitchBook, fez o balanço na apresentação dos dados. O problema, na leitura do relatório, é o estoque: 992 unicórnios ativos, ou seja, empresas privadas avaliadas acima de US$ 1 bilhão, somando US$ 5,7 trilhões em valuation, sem caminho claro de liquidez. Algumas saíram mesmo assim, com preços que pesam: a Airtable, da plataforma de bancos de dados colaborativos, foi vendida por US$ 1,3 bilhão, e a Miro, do quadro branco digital, foi adquirida por US$ 1,4 bilhão, ambas com descontos de quase 90% sobre os valuations anteriores. Um corte desses sobre o valor de tabela é um tombo pra lá de grande em qualquer moeda, e serve de referência para o que quem tem equity dessas empresas efetivamente recebeu.
O que muda para quem escreve código
O descompasso entre captação e liquidez aparece em três lugares concretos para profissionais técnicos.
O primeiro é o valor das ações. Enquanto uma empresa é privada, o valuation é uma estimação negociada, não um preço confirmado em bolsa. Airtable e Miro estavam entre as empresas mais celebradas do mercado e ainda assim saíram por uma fração do número de cima. Quem recebe opções ou ações restritas (RSUs, no jargão) de startups com valuations altos precisa lembrar: sem exit, o papel não vira dinheiro, e com exit a desconto, vira bem menos do que a cap table sugeria.
O segundo é a distribuição de oportunidades. Com 82,7% do valor indo para IA, times que trabalham fora do recorte disputam um orçamento menor, em rodadas menores, muitas vezes com fundos menores. O efeito aparece tanto em contratações quanto no tempo de pista para amadurecer um produto antes da próxima captação.
O terceiro é a forma das saídas. Sem IPO, o caminho é o M&A, e o M&A de 2026 tem dois rostos: o da SpaceX comprando a Anysphere por US$ 60 bilhões, prova de que compradores com geração de caixa forte e interesse estratégico em ferramentas de IA pagam caro; e o da Airtable e da Miro, vendidas com quase 90% de desconto. A liquidez existe, mas o preço depende de quem compra e por quê.
Há, claro, uma ressalva: nada nesses dados é previsão. O relatório trimestral mede o que aconteceu, e o quarto trimestre pode mudar qualquer leitura, para melhor ou para pior. O que os dados de setembro permitem dizer é mais modesto. O dinheiro voltou ao venture capital americano, voltou em volume recorde e voltou escolhendo poucas empresas. A liquidez não voltou junto. No ciclo do setor, a entrada e a saída costumam se resolver pela mesma porta; desta vez, a porta de entrada está larga e a de saída, estreita.
Perguntas frequentes
O que é o PitchBook-NVCA Venture Monitor?
É o relatório trimestral sobre venture capital americano produzido pela PitchBook em parceria com a National Venture Capital Association (NVCA), que consolita valor investido, captação de fundos e saídas (IPOs e M&A).
Quanto foi investido em venture capital nos EUA em 2026?
US$ 515,8 bilhões entre janeiro e setembro, cerca de 44% acima do recorde anual de 2021, com US$ 98,4 bilhões só no terceiro trimestre.
Por que os exits não acompanharam o recorde de investimento?
Apenas 18 empresas abriram capital no terceiro trimestre (12 em saúde), e o M&A se concentrou na compra da Anysphere pela SpaceX; sem essa operação, as saídas somam US$ 53 bilhões no período.
Como ficou a captação dos fundos de venture?
US$ 108,5 bilhões até setembro, com 88,2% desse valor indo para firmas no quarto fundo ou depois, e a Andreessen Horowitz sozinha com mais de 20% do total.
Fontes
- Q3 2026 PitchBook-NVCA Venture Monitor · pitchbook.com · 06/10/2026
- PitchBook-NVCA Venture Monitor - NVCA · nvca.org · 07/10/2026
- US venture deal value reaches record $515.8B as exits fail to keep pace · siliconangle.com · 07/10/2026