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    ArtigoTrabalho e produtividade

    Humanista obtém isenção religiosa da IA no trabalho, mas a brecha é estreita

    Um administrador da Universidade do Kentucky que não crê em Deus obteve, pelo Título VII, o direito de não usar IA pessoalmente. A decisão é legítima, mas protege o ato de pensar, não o direito de ficar fora do pipeline, e serve sobretudo de aviso a quem transforma ferramenta em dogma.

    Mãos de um homem revisando à caneta um pedido de financiamento impresso sobre uma mesa de escritório, com uma carta dobrada ao lado e luz natural de fim de tarde entrando pela janela
    Na Universidade do Kentucky, a acomodação garantida pelo Título VII preserva o trabalho de análise feito pessoalmente, mas não isenta o funcionário dos sistemas usados pela instituição.
    Neste artigo

    David Durman tem 45 anos, é administrador de pesquisa na Universidade do Kentucky (abre em nova aba) e passa o expediente editando pedidos de financiamento e cuidando de conformidade. Qualquer vendedor de IA corporativa apresentaria esse trabalho, sem pestanejar, como caso de uso de manual. Ninguém o obrigou a abrir o ChatGPT (abre em nova aba) ou o Microsoft Copilot (abre em nova aba). A universidade apenas passou a incentivar os funcionários a pôr IA no fluxo de trabalho. Durman, homem prevenido, não esperou o incentivo virar ordem. Pediu uma acomodação religiosa e, em 25 de setembro, obteve o direito de não usar IA pessoalmente no emprego.

    O detalhe que tira a história do expediente e a leva para a crônica é que Durman não crê em Deus. É humanista há uns 30 anos, segundo disse ao Chronicle of Higher Education, e foi nessa condição de não teísta que se tornou o primeiro caso conhecido de isenção humanista contra IA no trabalho, como noticiou primeiro o Religion News Service (abre em nova aba). O papa Leão XIV, que segundo o TechCrunch já tratou a IA como ameaça à dignidade humana, ganhou um aliado que não frequenta missa.

    Minha leitura é que o pedido é legítimo e a decisão, razoável. A brecha, porém, é muito mais estreita do que as manchetes sugerem. O recado mais útil do caso não se dirige a quem quer fugir do Copilot, e sim a quem transformou o Copilot em dogma.

    Homem de camisa social escreve à mão em um bloco de papel sobre a mesa de um escritório iluminado pela luz da tarde, enquanto, ao fundo e fora de foco, colegas trabalham diante de monitores de computador
    Na Universidade do Kentucky, um administrador humanista conquistou o direito de dispensar ferramentas automatizadas em seu próprio trabalho, mas a decisão não o isenta dos processos adotados pela equipe.

    Como um ateu vira religioso no papel

    O instrumento é o Título VII da Lei de Direitos Civis de 1964. A lei proíbe discriminação no emprego por raça, cor, religião, sexo e origem nacional e obriga o empregador a ajustar exigências quando elas colidem com crenças religiosas sinceras do funcionário. Tribunais federais americanos já reconheceram o humanismo secular como religião, e por isso seus adeptos têm a mesma proteção dos demais grupos religiosos. A American Humanist Association (abre em nova aba) ajudou Durman a redigir o pedido. "Para nós, o humanismo é um modo de vida abrangente", disse ao RNS a advogada da entidade, Alexandria Huiskens. "Todo mundo deveria ter espaço para exercê-lo no trabalho, do mesmo jeito que os cristãos ou os muçulmanos."

    A lei não pergunta se o sujeito reza. Pergunta se a convicção é profunda o bastante para funcionar como artigo de fé e se acomodá-la impõe ao empregador um ônus excessivo, o tal undue hardship. São dois filtros, e Durman passou pelos dois.

    O argumento que segura o pedido

    O núcleo da tese de Durman cabe numa frase que ele deu ao RNS, e qualquer engenheiro que já orientou um júnior vai reconhecê-la:

    "O processo e o trabalho envolvidos em pensar as situações, no meu trabalho, na minha ética, na maneira como lido com as pessoas, são um componente-chave para eu me desenvolver como pessoa moral. E terceirizar esse trabalho, seja ele cansativo ou não, mina minha capacidade de ser um agente moral."

    O trecho decisivo é "seja ele cansativo ou não". Com ele, Durman desarma de saída o argumento preferido dos departamentos de produtividade, o de que a IA só tira das suas costas a parte chata. Para ele, a parte chata é justamente onde a pessoa se forma. É a velha discussão sobre atrofia de habilidade, a do dev que nunca aprende a depurar porque o assistente depura por ele, promovida da pedagogia para a consciência. Na carta ao Escritório de Igualdade de Oportunidades da universidade, ele escreveu que trocar "presença humana, escuta autêntica e responsabilidade pessoal" por processamento automatizado conflita diretamente com sua obrigação de defender a dignidade humana.

    Há também uma parte menos sólida. Num texto publicado pela AHA nesta semana, Durman alinhou outros motivos: a IA estaria atrapalhando a capacidade das pessoas de ganhar a vida, seus custos ambientais "anunciam desastre" para a humanidade e o planeta, e ela suplanta e rouba a criatividade humana. Muita gente concorda com tudo isso. Mas são posições políticas e econômicas, compartilhadas por pessoas que jamais as chamariam de fé. Se cada funcionário preocupado com a conta de luz dos data centers pudesse pedir isenção religiosa, a categoria se dissolveria. O que sustenta o caso de Durman como questão de consciência é o argumento da agência moral. O resto é editorial.

    O tamanho real da isenção

    A isenção é pessoal, e a palavra pesa. Segundo o Tom's Hardware, Durman continua obrigado a participar de reuniões, a cooperar com colegas que usam IA e a submeter materiais a ferramentas de IA quando necessário. Traduzindo: ele não digita o prompt, mas o trabalho dele pode perfeitamente passar pela máquina no caminho. O porta-voz da universidade, Jay Blanton, disse ao TechCrunch que pedidos do gênero são analisados caso a caso.

    Para quem programa, a pergunta prática está aqui. Editar pedidos de financiamento é uma tarefa fácil de isolar: o colega da mesa ao lado faz a parte automatizada e todos seguem. Numa equipe de software em que a IA está costurada na revisão de pull requests, na geração de testes e no pipeline de integração, a fronteira entre "uso pessoal" e "processo da equipe" fica bem mais borrada. Quanto mais o fluxo depender de cada engenheiro operando um agente, mais o empregador terá a dizer sobre ônus excessivo. A isenção de Durman protege o ato de pensar, mas não garante o direito de ficar fora da esteira.

    Um precedente que já passou pelo software

    O software, aliás, já entrou nessa conversa. Durman contou ao TechCrunch que se inspirou ao ler sobre Erin Maus, unitarista universalista e engenheira de software, que conseguiu proteções semelhantes para si. Antes do administrador humanista, portanto, houve uma desenvolvedora de outra tradição. As reportagens sobre Durman trazem poucos detalhes do caso dela, mas a sequência mostra que a porta não se abriu só para quem edita documentos.

    E a porta tende a receber mais gente. "A preocupação com IA e dignidade humana pode atravessar diferentes fés e tradições, seja o ensinamento católico, o universalismo ou o humanismo", disse Huiskens ao TechCrunch. O Vaticano chegou primeiro. Em janeiro de 2025, o documento Antiqua et Nova, dos dicastérios para a Doutrina da Fé e para a Cultura e a Educação, propôs uma reflexão que evita "tanto o rechaço visceral quanto a fascinação ingênua", na descrição de Carlos Piccone Camere em artigo para o IDEHPUCP. O portal da Conferência Episcopal do Chile resumiu a posição do papa num título curto: as decisões que afetam a vida humana nunca devem ser delegadas. Quando o papa e a associação humanista americana concordam sobre alguma coisa, o departamento de RH deveria prestar atenção.

    O melhor contraponto

    O Gizmodo abriu sua matéria com uma ironia que resume a objeção: se o chefe perguntar por que você ainda não integrou IA ao seu fluxo, diga que a sua fé proíbe. A piada tem dente. Durman pediu a isenção preventivamente, sem que houvesse conflito algum, e a universidade decidiu sobre uma hipótese, o que custa pouco. Liberdade religiosa usada como coringa contra metas de adoção banaliza a própria liberdade religiosa. E o trabalho que um isento deixa de automatizar pode acabar no colo do colega.

    O contraponto merece resposta, não desdém. Os filtros da lei existem para isso: a sinceridade da crença e o ônus para o empregador. Trinta anos de humanismo declarado não configuram conversão de conveniência, e a isenção concedida é estreita a ponto de manter Durman cooperando com quem usa IA. Ainda assim, a objeção acerta num ponto: o teste de verdade ainda não aconteceu. Ele virá quando o uso for obrigatório, medido em painel e com custo real para acomodar a recusa. Até lá, o caso do Kentucky é um precedente de baixa voltagem.

    O recado para quem escreve a política de IA

    O gatilho do caso diz muito. Durman só pediu a acomodação depois que a universidade passou a incentivar o uso, por medo de que o incentivo virasse obrigação. O Chronicle observou que, nos campi, a tecnologia tem seus "evangelistas". O Tom's Hardware lembra que os defensores prometem produtividade multiplicada, enquanto relatos indicam que o mundo corporativo americano, fora as big techs, não vê retorno financeiro. Quando uma ferramenta de retorno incerto vira métrica de engajamento, ela vira credo. E quem transforma ferramenta em catecismo não pode se espantar quando aparece o herege.

    Para gestores técnicos, a lição tem mais de desenho de processo do que de direito: meça entregas, não prompts. Torne a IA obrigatória onde o processo de fato depende dela, e explique por quê. Deixe-a opcional onde não depende. Quem trabalha no Brasil deve lembrar que o caso é americano e a lei invocada também. A notícia não serve de salvo-conduto automático para ninguém sob a CLT.

    Durman, por sua vez, recusa o papel de profeta. "Para mim, isso foi sobre mim e minhas convicções", disse ao TechCrunch. "Obviamente não estou tentando dizer às pessoas como pensar ou sentir." Espera apenas que quem tenha preocupações parecidas as leve adiante, não necessariamente pela via religiosa. Fica a ironia: um homem que não acredita em Deus precisou recorrer à lei de liberdade religiosa para continuar pensando com a própria cabeça. O episódio diz menos sobre ele do que sobre os escritórios que andam confundindo adoção de software com profissão de fé.

    Filipe Mendes

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