Quem passou na frente de uma das 88 escolas escolhidas pela Fuvest (abre em nova aba) ontem, domingo (1º), viu a cena clássica de todo início de novembro: portões fechando pontualmente às 13h, pais rezando no calçadão e 106.165 inscritos tentando caber nas 8.147 vagas da Universidade de São Paulo (abre em nova aba). Desta vez, a prova registrou a menor abstenção de sua história, com apenas 6,4% de faltosos, mesmo com relatos de atrasos nos trens e candidatos passando mal até vomitar. O que ninguém fora daquelas salas imaginava é que a banca examinadora entregaria, logo nas primeiras páginas do caderno, o melhor diagnóstico sobre o mercado de tecnologia em 2026: na questão 4, uma imagem gerada por inteligência artificial reunindo Maria Rita e sua mãe, Elis Regina; na questão 11, o fim da escala 6x1 dissecado a partir de Karl Marx.
Para quem ganha a vida escrevendo código, treinando modelos ou gerenciando infraestrutura, um vestibular de ensino médio pode parecer um ritual distante, quase folclórico. Só que a proximidade física entre a questão 4 e a questão 11 no caderno de prova expõe, sem pedir licença, a contradição central da nossa rotina técnica. De um lado, dominamos a síntese generativa a ponto de ressuscitar uma cantora morta em 1982 para cantar ao lado da filha, como na campanha publicitária de 2023 que inspirou o enunciado. Do outro, em pleno novembro de 2026, um mês após o Senado Federal aprovar o fim da jornada 6x1 sob forte resistência patronal, ainda precisamos recorrer ao século 19 para discutir se um ser humano merece dois dias de descanso na semana.
A mais-valia entra no sprint
A questão 11 não colocou Karl Marx na prova para fazer panfleto, mas para cobrar um mecanismo técnico que todo desenvolvedor conhece na pele, mesmo que chame por outro nome em inglês. Ao abordar a disputa em torno da escala 6x1, a Fuvest exigiu os conceitos de mais-valor absoluto e mais-valor relativo, formulados em O Capital. Na tradução para o nosso cotidiano de deploy na sexta-feira, o mais-valor absoluto é a extensão bruta da jornada: trabalhar seis dias para folgar um, virar a noite em plantão de incidente ou esticar o expediente porque o prazo estourou. Já o mais-valor relativo é a menina dos olhos do Vale do Silício: aumentar a produtividade por meio da tecnologia para que o trabalhador entregue a mesma coisa em uma fração do tempo.

A promessa de toda revolução técnica é que o mais-valor relativo deveria aposentar o absoluto. Se um assistente de código ou um agente autônomo reduz pela metade o tempo de refatoração de um sistema legado, a consequência lógica seria trabalhar menos horas. O que a prova da USP nos lembra, ao colar essa discussão teórica na realidade brasileira (incluindo outra questão que cruzou dados de 2025 sobre resgates de trabalhadores em condição análoga à escravidão na construção civil com informalidade e desemprego), é que a eficiência do algoritmo raramente vira tempo livre por geração espontânea. Na prática, o ganho de produtividade costuma ser engolido pelo aumento do volume de entregas esperadas na semana seguinte.
O fantasma na máquina e o custo da autenticidade
Quando voltamos sete perguntas no caderno e caímos na questão 4, o outro lado dessa moeda aparece na figura sintética de Elis Regina. A banca usou o encontro artificial entre mãe e filha para cobrar dos candidatos uma reflexão sobre a origem e a autenticidade de conteúdos visuais. É um tema que acompanhamos de perto aqui no IA.com.br, observando como a facilidade de gerar pixels plausíveis deslocou o gargalo técnico da criação para a verificação de procedência. Para o profissional técnico, a questão deixa de ser "como eu gero esta imagem" e passa a ser "como a sociedade valida o que é real" quando o custo marginal da falsificação chega a zero, um dilema vizinho ao de outra pergunta da mesma prova, que tratou de como influenciadores fitness distorcem a percepção do público sobre o próprio corpo e os padrões estéticos.
Há, claro, um contraponto pragmático que não deve ser ignorado. É perfeitamente válido argumentar que a Fuvest não montou um manifesto filosófico sobre o capitalismo tardio, mas apenas cumpriu sua transição pedagógica em direção ao modelo do Enem. Coordenadores como Vera Lúcia Antunes, do Objetivo, e Bruno Ferrari, da plataforma Filadd, destacaram justamente que a prova buscou interdisciplinaridade, variedade de linguagens e capacidade de conectar áreas distintas. Além disso, para boa parte dos engenheiros de software que atuam em regime remoto ou como pessoa jurídica, a luta sindical contra a escala 6x1 parece pertencer a outra camada da economia, muito distante das discussões sobre arquitetura de microsserviços.
Menos linhas, mais processamento
O problema desse distanciamento é que a própria estrutura da Fuvest 2027 funcionou como uma simulação involuntária do esgotamento cognitivo no trabalho moderno. A grande novidade regulamentar deste ano foi o corte de 10% no tamanho do exame: a primeira fase caiu de 90 para 80 questões de múltipla escolha, mantendo intactas as cinco horas de duração, aplicadas em 30 cidades paulistas e também em Fortaleza (CE). Na planilha, parecia um alívio óbvio de processamento: mais tempo por questão, menos correria para preencher o gabarito.
Na saída dos locais de prova, porém, o diagnóstico foi o oposto. O professor de Biologia Rafael Lomazzi, da Filadd, classificou esta edição como uma das mais cansativas já aplicadas. O motivo é simples e familiar a qualquer pessoa que hoje usa IA para pular o trabalho braçal: a Fuvest tirou 10 perguntas, mas alongou os enunciados, engrossou as alternativas e exigiu que o candidato cruzasse conceitos complexos a cada página. A divisão estimada pelos cursinhos mostra o tamanho do malabarismo mental exigido nas 80 questões:
| Disciplina | Quantidade estimada de questões |
|---|---|
| Português e Literatura | 14 |
| Física | 10 |
| Biologia | 10 |
| História | 9 |
| Geografia | 9 |
| Química | 9 |
| Matemática | 7 |
O restante completou a cota com Inglês e articulações interdisciplinares que não davam descanso ao cérebro. Para resolver a prova, o estudante precisava sair da música "Meninos e Meninas", lançada pela Legião Urbana em 1989 no disco As Quatro Estações, e pular para uma foto de Bad Bunny no show do intervalo do Super Bowl, em fevereiro, segurando uma bandeira não oficial de Porto Rico para responder sobre a condição de território não incorporado e os limites de voto nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. Na sequência, encarava a displasia cleidocraniana (síndrome genética rara que afeta ossos e dentes do ator Gaten Matarazzo, o Dustin de Stranger Things), calculava a física do maior drop de skate do mundo feito por Sandro Dias, o Mineirinho, na rampa de um prédio em Porto Alegre, analisava uma tabela periódica 3D montada com peças de LEGO, passava pela clonagem de porco na própria USP (questão 60) e ainda colocava na ponta do lápis a comparação financeira entre um carro elétrico e um modelo a gasolina.
Tirar dez questões mecânicas e substituir por interpretação pesada de contexto não deixa o trabalho mais leve; deixa o trabalho mais denso. É exatamente o que acontece na cadeira do desenvolvedor em 2026: você escreve menos código repetitivo, mas passa o dia inteiro lendo contextos gigantescos, auditando saídas geradas por máquina e tomando decisões de arquitetura sob pressão. Até o direito ao erro de especificação deu as caras no domingo, quando cursinhos apontaram uma falha em uma das sete questões de Matemática. Os candidatos que sobreviveram a essa janela de contexto de cinco horas (especialmente os que disputam Medicina, com seus 76,3 candidatos por vaga, seguidos por Psicologia e Relações Internacionais) já aprenderam na prática a lição que o mercado de tecnologia insiste em descobrir da pior maneira: quando a máquina assume a parte fácil, o que sobra para o humano exige muito mais fôlego, leitura crítica e, de preferência, mais de um dia de folga na semana.

