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    ArtigoNegócios e mercado

    Filme de Natal feito com IA custou US$ 1,5 mi; o difícil agora é achar quem o distribua

    Tom Walsh diz ter feito 'Merry the Christmas Witch' por US$ 1,5 milhão em vez de US$ 80 milhões. A economia é hipotética, o custo não foi detalhado e o filme ainda não tem distribuidora.

    Jovem bruxa de chapéu pontudo rema uma canoa por um bayou entre ciprestes cobertos de musgo pendente e enfeitados com luzes de Natal, ao entardecer
    'Merry the Christmas Witch', de Tom Walsh, teria custado US$ 1,5 milhão, segundo o diretor, mas o filme ainda procura distribuidora
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    Tom Walsh, CEO da produtora independente TW3 Entertainment (abre em nova aba), afirma ter terminado por US$ 1,5 milhão um longa de duas horas. Pelas contas dele, o mesmo filme custaria US$ 80 milhões feito do jeito tradicional. O filme é Merry the Christmas Witch, adaptação de um livro infantil de 2012 de Bobbi Hess, redatora técnica de 70 anos de Nova Orleans. Merry é a primeira bruxa nascida num dia de Natal, nos bayous da Louisiana, e precisa enfrentar um coven que sequestrou o Papai Noel para acabar com a data. Walsh dirigiu e coescreveu o roteiro, e a produção foi dividida com o estúdio de IA Phatty Acid.

    Os números apareceram numa entrevista exclusiva à Variety em 12 de outubro. Seis dias depois, o Futurism resumiu a recepção no título: o diretor teria torrado US$ 1,5 milhão num "slop de IA horrendo" e ainda diria ter economizado dezenas de milhões.

    As duas manchetes discutem o número errado. Os US$ 80 milhões são uma hipótese que nenhum estúdio aprovaria. Os US$ 1,5 milhão são uma cifra sem detalhamento. Os dados que dizem algo sobre o estado da produção com IA são outros:

    Lata de filme lacrada sobre recortes de jornal espalhados em uma mesa, iluminada pela luz lateral e alaranjada do fim de tarde
    'Merry the Christmas Witch' teria custado US$ 1,5 milhão, segundo Tom Walsh, mas o filme ainda procura uma distribuidora
    • cerca de 50 pessoas trabalhando por dez meses;
    • atores que gravaram o texto e tiveram as vozes trocadas por vozes sintéticas;
    • um filme natalino pronto que, até a entrevista, não tinha distribuidora.

    Minha tese é que a IA reduziu o custo de gerar imagens, não o custo de fazer cinema. E empurrou o gargalo para onde ele sempre esteve para o produtor independente: conseguir que alguém exiba o filme.

    US$ 80 milhões é argumento de venda, não orçamento

    Os US$ 80 milhões são uma estimativa do próprio Walsh à Variety. Não é cotação de estúdio, não é orçamento auditado e não apareceu em nenhum outro lugar. O próprio diretor explica por que o número não serve de base de comparação: segundo ele, estúdios recusariam esse valor para "uma propriedade desconhecida". O cenário de US$ 80 milhões nunca existiu como alternativa real.

    Economia é a diferença entre o que se gastou e o que se gastaria na melhor alternativa viável. Se a alternativa era não fazer o filme, não há US$ 78,5 milhões poupados. Há US$ 1,5 milhão gastos numa aposta. Se a alternativa era uma animação independente enxuta, ninguém calculou quanto ela custaria. As "dezenas de milhões" do Futurism são só a subtração entre a estimativa de Walsh e o gasto declarado.

    O outro lado da conta também é opaco. Nem a Variety nem o Futurism publicaram a decomposição do custo, e a página oficial do projeto sequer menciona orçamento. Não há confirmação independente do valor.

    ItemDadoQuem afirma
    Custo estimado no modelo tradicionalUS$ 80 milhõesWalsh (estimativa)
    Custo declarado com IAUS$ 1,5 milhãoWalsh
    Equipecerca de 50 pessoasWalsh
    Ciclo de produção10 mesesWalsh
    Duração do filmecerca de 2 horasWalsh
    Distribuidoranenhuma em 12 de outubroPorta-voz da produção

    Mesmo sem planilha, dá para fazer duas contas de sanidade.

    1. Custo por minuto. US$ 1,5 milhão divididos por 120 minutos dão cerca de US$ 12,5 mil por minuto de filme acabado.
    2. Custo por pessoa. Cinquenta pessoas por dez meses são 500 pessoas-mês. Se todas tivessem trabalhado em tempo integral, o orçamento inteiro daria US$ 3 mil por pessoa-mês. Esse valor já teria de cobrir computação, licenças das ferramentas, trilha e mixagem.

    A segunda conta é a mais reveladora, porque não fecha com os salários de uma produção profissional nos EUA. Sobram três explicações possíveis: a maior parte da equipe trabalhou em regime parcial, houve pagamento abaixo do mercado ou diferido, ou há custos fora do número. Qualquer uma delas muda a leitura de que "a IA barateou o filme", e nenhuma foi esclarecida. Para quem pensa em pipeline, a linha que falta é a mais importante: quanto foi para gente e quanto foi para geração.

    O que a IA substituiu de fato

    A página do projeto é explícita sobre a divisão de trabalho e chama Merry de "filme liderado por humanos":

    • atores interpretaram o roteiro e definiram como cada personagem se move e soa;
    • um artista desenhou os storyboards;
    • um compositor escreveu e orquestrou a trilha;
    • um sound designer construiu o som.

    As ferramentas de IA geraram as imagens a partir desse material. Depois, o filme foi editado e recebeu mixagem para cinema, "como qualquer outro longa". Segundo Walsh, as imagens saíram do Seedance e do Nano Banana, e as vozes, do ElevenLabs (abre em nova aba). O Nano Banana é, na origem, um modelo de imagem do Google. Isso sugere quadros-chave gerados e depois animados, mas a produção não detalhou o fluxo.

    Na prática, a IA ocupou a camada que, numa animação convencional, concentra mais horas de trabalho: modelagem, animação, iluminação e render. É plausível que a queda de custo venha daí. Roteiro, direção, interpretação, música, som e montagem continuaram humanos, e continuaram custando.

    O detalhe mais interessante para quem é técnico é o das vozes. Os atores gravaram o texto, mas Walsh optou por vozes geradas por IA por causa de problemas de sincronia. Na animação tradicional, grava-se a voz primeiro e anima-se a boca em cima dela. A leitura mais provável é que o vídeo gerado não permitia controle suficiente para casar com uma faixa pré-gravada. A equipe então mudou o lado mais fácil de mudar, o áudio. A imagem gerada virou o master, e a performance humana virou referência. Esse custo de controle raramente aparece em demonstrações de modelos de vídeo.

    O próprio Walsh deu a frase mais honesta da cobertura. Segundo ele, a qualidade de uma produção com IA depende da qualidade da equipe de produção tradicional, e gente inexperiente faria o resultado "parecer lixo". É um argumento contra a ideia de que a IA substitui o ofício. Ela amplia o ofício que a equipe já tem, e esbarra nos limites dele.

    O limite vem do modelo

    O veredito do Futurism ainda é o principal julgamento público sobre o resultado, e ele se baseia nas imagens divulgadas pela TW3. A página do projeto marca o filme como "longa concluído", com "trailer em breve". Sem uma exibição completa, não dá para apontar com segurança defeitos específicos de Merry.

    Dá, porém, para dizer onde os geradores de vídeo atuais costumam falhar, e são justamente os pontos que um longa de duas horas expõe:

    • Continuidade. Os modelos produzem planos curtos, e um filme desse tamanho é a montagem de muitos deles. Cada corte é uma nova chance de o rosto, a roupa ou as proporções de um personagem mudarem.
    • Expressão e boca. Expressões sutis e sincronia labial continuam difíceis de controlar, e o episódio das vozes sugere que a equipe esbarrou nisso.

    Uma boa equipe esconde parte dessas falhas na montagem e no som, mas não conserta o que o modelo não entrega. A frase de Walsh vale nos dois sentidos: a equipe garante um mínimo de qualidade, mas o máximo possível depende do modelo.

    Quem criou a Merry

    Há uma tensão pequena e reveladora nos créditos. Hess disse à Variety que a IA "aprimorou a ideia toda", mas que a personagem Merry foi criada por ela. A página da TW3 afirma que os personagens do filme foram criados pela TW3. As duas versões podem ser compatíveis: a autora criou a personagem, e a produtora criou o visual da versão filmada. Ainda assim, a escolha de palavras não é casual. Nos Estados Unidos, o Escritório de Direitos Autorais tem sustentado que a proteção depende de autoria humana. Num filme cujas imagens saíram de geradores, insistir em "liderado por humanos" é também uma posição sobre o que pode ser protegido.

    O mesmo raciocínio vale para os atores. Não foi informado se as vozes sintéticas derivam das deles ou são genéricas, nem se a produção opera sob contrato sindical. É exatamente o terreno que o acordo do SAG-AFTRA com os estúdios passou a regular em 2023, com exigência de consentimento e remuneração para réplicas digitais. Uma produção independente que queira repetir o modelo vai precisar responder a isso por escrito.

    O melhor argumento de Walsh

    O contraponto mais forte não é técnico. Walsh conheceu o livro em 2014, em Los Angeles, por meio do marido de Hess, já falecido. A adaptação passou mais de uma década parada, e, segundo ele, estúdios não financiariam US$ 80 milhões para uma propriedade desconhecida. "Nunca teríamos feito um filme como Merry se não tivéssemos corrido esse risco", disse.

    Para esse tipo de projeto, a comparação relevante não é US$ 1,5 milhão contra US$ 80 milhões. É US$ 1,5 milhão contra zero. Isso é real e deve interessar a produtores independentes: um longa animado de duas horas passou a caber num orçamento que se levanta fora dos estúdios.

    Concordo com essa parte, mas ela desmonta o argumento da economia. Se a alternativa era o filme não existir, o valor do projeto depende inteiramente de alguém querer assisti-lo. Isso ainda não foi testado.

    O gargalo mudou de lugar

    Quando a Variety publicou a entrevista, Merry não tinha distribuidora. Um porta-voz falou em conversas "otimistas" com "algumas empresas diferentes". A pouco mais de dois meses do Natal, o calendário pesa: filme natalino tem janela sazonal e, se não estrear até dezembro, espera um ano. Para o público brasileiro, não há lançamento, legenda nem dublagem anunciados.

    Esse me parece o ponto central. Quando o custo de produzir cai, a oferta aumenta, e o recurso escasso passa a ser distribuição e atenção. Os dois continuam nas mãos de distribuidoras e plataformas. Merry resolveu o problema da produção por US$ 1,5 milhão e agora enfrenta, sem nenhuma vantagem, o problema que a IA não resolve. Há ainda um agravante: o rótulo "feito com IA" que rendeu a exclusiva na Variety é o mesmo que rendeu o "slop" no Futurism. Nenhum distribuidor ignora esse tipo de recepção.

    O que transformaria a alegação de Walsh em evidência já se sabe: um orçamento itemizado separando pessoal de computação, um contrato de distribuição e uma exibição completa para público pagante. Até lá, US$ 1,5 milhão é uma ordem de grandeza plausível para uma produção híbrida com 50 pessoas, e US$ 80 milhões é o número de uma apresentação de venda.

    Filipe Mendes

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