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    ArtigoInfraestrutura e hardware

    Em Pyeongtaek, a Samsung aposta em capacidade enquanto a Nvidia redesenha o HBM

    A Samsung acelera fábricas em Pyeongtaek para uma escassez de memória que ela própria projeta até 2028. A exigência da Nvidia de fabricar na TSMC o base die do seu HBM customizado mostra que o poder na cadeia está com o cliente.

    Guindastes sobre estrutura de concreto em construção ao lado de fábricas iluminadas em operação durante a noite
    Obras retomadas da quinta fábrica de memória da Samsung em Pyeongtaek miram a escassez de chips projetada até 2028, enquanto a Nvidia dita as regras do HBM customizado.
    Neste artigo

    O tamanho do lugar impressiona no despacho de Michelle Kim para o MIT Technology Review (abre em nova aba) em Pyeongtaek. O campus tem área comparável à do Central Park, três fábricas operam 24 horas por dia e uma quarta está entrando em operação. Mesmo assim, o detalhe mais revelador da reportagem é a quinta fábrica. A obra parou em 2024, quando a demanda por memória caiu, e foi retomada quando a IA generativa fez a demanda disparar. Essa frase resume o negócio de memória: constrói-se antes da demanda, para-se quando o preço desaba e retoma-se quando ele volta. Quase sempre o momento escolhido erra em alguma direção.

    Minha leitura é que Pyeongtaek é a aposta certa para o ciclo atual, mas não resolve o problema estrutural da Samsung (abre em nova aba). Dois dias antes da reportagem, o Seoul Economic Daily (abre em nova aba) informou que a Nvidia (abre em nova aba) pediu aos três fornecedores do seu HBM customizado que fabriquem o base die, a camada lógica na base da pilha, no processo de 3 nm da TSMC (abre em nova aba). A Samsung aceitou. Juntas, as duas notícias mostram uma empresa que ergue capacidade gigantesca justamente para a parte do HBM que o cliente mais importante trata como intercambiável. Com esse mesmo cliente, ela abre mão da integração que era o seu argumento exclusivo.

    O que está saindo do chão

    Os números detalhados vêm de fontes do setor, e não de um comunicado formal da empresa. Segundo o MoneyToday (abre em nova aba), a Samsung amplia na P4 as linhas de DRAM 1c, de sexta geração. A meta é ter equipamento para 100 mil a 120 mil wafers por mês até o primeiro trimestre de 2027. O CryptoBriefing (abre em nova aba) acrescenta que parte disso é conversão: uma linha que produzia NAND está virando linha dedicada de DRAM. A P5 será construída em etapas, com a primeira fábrica prevista para 2028 e a segunda para 2029. Projeções do setor falam em mais de 60 trilhões de wons em cada uma.

    Técnicos em trajes brancos de sala limpa instalam equipamentos de processamento de wafers em uma linha de fabricação de semicondutores iluminada por luz amarela
    Linha da fábrica P4, em Pyeongtaek, convertida de NAND para DRAM 1c: a Samsung amplia capacidade de olho na escassez de memória que projeta até 2028.
    FábricaSituaçãoO que foi divulgado
    Três fábricas em operaçãoProdução contínuaA primeira, P1, começou a operar em 2017
    P4Entrando em operaçãoDRAM 1c; meta de 100 mil a 120 mil wafers/mês até o 1º tri de 2027; conversão de linha NAND para DRAM
    P5Obras paradas em 2024, depois retomadasPrimeira fábrica em 2028, segunda em 2029; mais de 60 trilhões de wons cada
    Yongin (outro complexo)Planejado360 trilhões de wons para seis fábricas; a primeira no 2º semestre de 2029

    O nó 1c importa. Segundo o Seoul Economic Daily, os core dies do HBM4 e do HBM4E da Samsung, que são as camadas de DRAM empilhadas, saem de linhas 1c em Hwaseong e Pyeongtaek. Na prática, a expansão da P4 é capacidade de HBM no nível do die de memória. A conversão de NAND para DRAM também mostra onde a empresa enxerga retorno: ela tira wafers de um mercado que não vai para aceleradores e os coloca no que vai.

    Por que o risco parece menor desta vez

    O dinheiro explica o ritmo. Os resultados preliminares do terceiro trimestre trouxeram receita consolidada de 195 trilhões de wons e lucro operacional de 107,4 trilhões, segundo o MoneyToday. A Samsung foi a primeira empresa sul-coreana a passar de 100 trilhões de lucro num trimestre. Analistas atribuem a melhora ao aumento da oferta de HBM e à alta da DRAM de uso geral. Estimativas do setor colocam o lucro da divisão de semicondutores (DS) em torno de 108 trilhões. Se estiverem certas, todo o restante da Samsung Electronics somou algo perto de zero no trimestre. Hoje a empresa é, financeiramente, uma fabricante de memória.

    A projeção que justifica a obra veio no balanço de julho, segundo a KED Global (abre em nova aba). A Samsung espera que a escassez global de memória se aprofunde em 2027 e persista em 2028, porque o gasto dos hyperscalers com IA mantém a demanda acima da oferta. O número mais importante dessa cobertura, porém, é outro: contratos plurianuais poderiam cobrir até 70% da capacidade planejada.

    É isso que separa a retomada da P5 da paralisação de 2024. Naquele ano, a fábrica dependia do preço à vista. Com a maior parte da capacidade contratada, parte do risco do ciclo passa para os hyperscalers. Mesmo assim, o calendário tem uma tensão. A primeira fábrica da P5 entra em 2028, último ano da escassez que a própria Samsung projeta, e a segunda chega depois disso. A empresa aposta que a falta de memória vai durar mais do que ela mesma prevê ou que os contratos manterão as fábricas ocupadas quando o preço ceder.

    O base die é onde a disputa mudou de lugar

    Na geração HBM4, a base da pilha passou a ser fabricada em processo de lógica avançado. A Samsung faz isso na própria fundição de 4 nm para o HBM4 padrão e para o HBM4E, que está em validação para produção em massa. Segundo o Seoul Economic Daily, a Samsung foi a primeira do mundo a produzir o HBM4 em massa, no início deste ano. Entre os três fornecedores de HBM, é a única com fundição de lógica de ponta em casa. Por isso vendia o pacote completo, core die e base die, no modelo turnkey.

    O pedido da Nvidia desmonta esse pacote no cliente que mais importa. No NVHBM, o HBM customizado apresentado em agosto, Samsung, SK hynix (abre em nova aba) e Micron (abre em nova aba) terão de fabricar o base die em 3 nm na TSMC. Um comprador dominante costuma agir assim: define a interface, padroniza a peça onde mora a customização e obriga os fornecedores a competir no que sobra. No caso do HBM, sobra o core die, onde a disputa é por capacidade, rendimento e custo por bit. É exatamente o que Pyeongtaek produz.

    A primeira consequência é que a diferenciação do NVHBM passa a morar numa lógica desenhada segundo especificação da Nvidia e fabricada pela TSMC, e não na memória. A segunda atinge a fundição da Samsung, que atua num mercado dominado pela TSMC. Ela perde a âncora mais natural que poderia ter: a memória da própria casa indo para o acelerador mais disputado do mundo.

    A reportagem do MIT Technology Review apresenta Pyeongtaek como a tentativa da Samsung de retomar a liderança em memória, depois de ver a SK hynix abrir vantagem no HBM que equipa os aceleradores da Nvidia. Capacidade ajuda nessa disputa. A vantagem que só a Samsung tinha, porém, acabou neutralizada por decisão do cliente.

    O melhor argumento contra

    Esse argumento é forte. Em escassez, capacidade é poder. Se a demanda fica acima da oferta até 2028, quem tem wafers dita condições, e a Nvidia trabalha com três fornecedores justamente porque nenhum deles entrega o volume sozinho. A exigência vale igualmente para SK hynix e Micron, então a posição relativa da Samsung não piora.

    A empresa também mantém o modelo turnkey em HBM customizado para outros clientes, incluindo a AMD (abre em nova aba), e deixou aberta a possibilidade de usar a própria fundição no NVHBM. Além disso, o base die é um componente entre vários: a maior parte do silício da pilha continua sendo DRAM.

    Concordo com quase tudo isso para 2027 e 2028. Só que é um argumento sobre o ciclo, e a pergunta que importa é como a Samsung chega à próxima retração, a próxima versão de 2024. Um fornecedor cuja diferença está na capacidade compete em preço quando a demanda esfria, e a integração serviria de colchão. A exceção da AMD reforça esse ponto: o pacote turnkey sobrevive onde o cliente não tem poder para impor o próprio desenho.

    O que muda para quem roda modelos

    Para quem treina modelos, serve inferência ou paga por ela, a leitura prática é mais direta.

    • A escassez de memória é a premissa até 2028, segundo o próprio fornecedor. A capacidade nova da P4 mira o primeiro trimestre de 2027, e a da P5, 2028 e 2029. Um planejamento que conte com aceleradores ricos em HBM ficando baratos antes disso aposta contra a projeção da própria Samsung.
    • A pressão chega à memória comum. O MoneyToday cita a alta da DRAM de uso geral, e o CryptoBriefing fala em ágio de 70% na DDR5 para servidor. Isso encarece também inferência em CPU, caches em RAM e bancos vetoriais mantidos em memória, e não apenas GPU.
    • Eficiência de memória virou linha de custo. Quantização, gestão de KV cache e batching deixam de ser otimização de fim de projeto. São essas técnicas que definem quantos tokens por segundo cabem em cada GB pago.
    • O gargalo ganhou mais um elo. Se o base die do NVHBM dos três fornecedores sai do 3 nm da TSMC, a capacidade desse nó passa a limitar a oferta de memória para aceleradores Nvidia, e não só a dos processadores.

    Pyeongtaek deve render muito dinheiro à Samsung nos próximos dois anos. Com até 70% da capacidade planejada potencialmente coberta por contratos, a retomada da P5 parece uma decisão defensável. O indicador a acompanhar, porém, não é quantas fábricas sobem no campus. O que importa é se o próximo grande cliente de HBM customizado vai comprar o pacote completo da Samsung ou repetir o pedido da Nvidia.

    Filipe Mendes

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