Artigo

    Diretrizes de IA do AP Stylebook provocam debate técnico sobre antropomorfismo

    Análise técnica sobre as orientações do AP Stylebook que vetam atribuir sentimentos e pensamento a IAs, e as reações no setor de tecnologia.

    Filipe Mendes

    · 8 min de leitura

    Mesa de redação jornalística com múltiplos monitores exibindo documentos digitais e linhas de código desfocadas, com xícara de café e teclado em primeiro plano sob iluminação natural.
    Atualização das normas editoriais orienta redações a evitar termos que atribuam capacidades humanas a sistemas automatizados.

    A linguagem utilizada na descrição de sistemas de processamento de dados e inteligência artificial passou a ser alvo de um intenso debate normativo entre profissionais de comunicação e especialistas técnicos. A publicação da 58ª edição do The Associated Press Stylebook (abre em nova aba), manual amplamente adotado como referência de redação jornalística e corporativa, consolidou uma postura taxativa contra a atribuição de estados mentais, senciência ou emoções a artefatos computacionais. Ao atualizar e expandir seu capítulo dedicado à tecnologia, a publicação instruiu repórteres a tratarem modelos generativos estritamente pela sua mecânica funcional, desencadeando confrontos verbais imediatos entre pesquisadores, engenheiros e analistas do setor de inteligência artificial.

    As orientações estabelecem que modelos algorítmicos não pensam, não sentem, não têm vontades e não compreendem. Em decorrência dessa premissa, o manual veta o uso de construções linguísticas que humanizem esses sistemas. A entidade reforçou formalmente essa posição por meio de seus canais de comunicação pública ao endereçar o problema do antropomorfismo na cobertura midiática:

    Sistemas de inteligência artificial não pensam, sentem, querem ou entendem. Evite linguagem que atribua a eles características humanas. Isso se chama antropomorfizar, quando atribuímos traços, emoções ou comportamentos humanos a coisas não humanas, como animais ou objetos inanimados. Em vez disso, explique o que um sistema faz, quão bem ele opera, quem o construiu e quem pode ser afetado por ele.

    — AP Stylebook (@APStylebook), 23 de set. de 2026, no X

    Essa determinação atinge diretamente a prática de atribuir subjetividade a saídas geradas por arquiteturas estatísticas, obrigando quem escreve sobre tecnologia a focar em capacidade operacional, autoria humana e impactos práticos.

    Contexto histórico da normatização da IA no manual

    A inserção de tópicos computacionais na referência editorial remonta a 2023, quando a publicação adicionou pela primeira vez orientações e dez termos centrais sobre inteligência artificial e inteligência artificial generativa, com desenvolvimento liderado pela jornalista investigativa Garance Burke após sua bolsa na Stanford University em 2020. Naquela ocasião, as regras já alertavam sobre o risco de reproduzir declarações exageradas de desenvolvedores, orientavam a checar afirmações corporativas sobre a potência dos modelos e desaconselhavam focar cenários futuristas distantes em detrimento dos problemas atuais das ferramentas.

    Com o lançamento de sua 58ª edição, o guia expandiu significativamente a seção. Além de manter regras gerais de formatação, como o uso da sigla AI sem pontos intermediários, ao contrário de siglas geográficas tradicionais, a atualização catalogou o jargão contemporâneo que emergiu com os grandes modelos de linguagem. Foram incorporados termos como AI slop, definido como conteúdo online de baixa qualidade gerado em massa por inteligência artificial em formatos de texto, áudio e imagem; e vibe coding, gíria técnica usada para descrever o ato de recorrer a ferramentas de IA para escrever ou depurar códigos de programação, com a recomendação expressa de que este último seja evitado fora de citações literais. Também foi delimitado o conceito de AI agent, conceituado como um sistema desenhado para atuar de forma autônoma em nome de um indivíduo ou organização, exigindo que textos explicitem a finalidade específica do dispositivo ao empregar o termo.

    A expansão do capítulo foi acompanhada por atualizações de linguagem em áreas distintas, como a unificação do vocábulo healthcare, novas orientações para povos indígenas, ajuste na grafia de nomes sem pontos finais para figuras públicas, como JD Vance e JB Pritzker, a inclusão da cultura K-pop e referências de origem sobre a lei de Murphy, refletindo uma revisão ampla do repertório editorial contemporâneo.

    Mecânica técnica e os riscos do antropomorfismo

    A justificativa técnica para as restrições baseia-se na discrepância entre a forma aparente da saída dos modelos e a arquitetura subjacente. Sistemas generativos operam por meio do processamento estatístico de sequências de dados textuais. Eles produzem linguagem natural com fluência superficial e sintaxe refinada, simulando respostas articuladas. Essa capacidade gera a ilusão de intencionalidade ou consciência, fenômeno frequentemente apontado como o motivo central para confusões conceituais por parte do público leigo.

    Teclado mecânico em primeiro plano com foco seletivo sobre mesa de trabalho, diante de monitores desfocados exibindo gráficos abstratos e fluxos de dados em tons suaves.
    A estrutura subjacente dos modelos generativos baseia-se no processamento puramente estatístico de dados, sem qualquer consciência ou intenção.

    A linguista e comunicadora Mignon Fogarty destacou que essas ferramentas não possuem sentimentos nem intenções, alertando contra frases cotidianas que sugerem motivação emocional, como afirmar que a ferramenta está animada para ajudar o usuário. As diretrizes estabelecem regras pontuais para erradicar tais vícios:

    • É proibido atribuir nomes próprios humanizados às instâncias operacionais ou tratá-las como sujeitos com vontades próprias.
    • Não se deve utilizar pronomes de gênero para se referir a ferramentas ou modelos de computação.
    • Descrições de estados anímicos, tais como desejo, dúvida, tristeza ou entusiasmo, devem ser rigorosamente eliminadas do texto descritivo.
    • O fenômeno técnico da alucinação, quando abordado, deve ser claramente explicado como uma falha inerente que produz dados falsos, ilógicos ou incorretos, e não como uma experiência sensorial ou cognitiva da máquina.

    As orientações recomendam que analistas e repórteres façam perguntas estruturais sobre as soluções analisadas, apurando onde estão implantadas, seus parâmetros de desempenho, o modelo de negócios de quem lucra com elas, quais regulações se aplicam e quem pode ser prejudicado por eventuais distorções algorítmicas decorrentes dos vieses humanos embutidos em sua construção.

    Conceito ou PráticaOrientação do ManualJustificativa Estrutural
    Pronomes de gênero aplicados a softwaresEvitar totalmenteModelos não possuem gênero; sua autoria decorre de programadores humanos
    Atribuição de sentimentos (ex: animado, triste)Vetada em descrições técnicasRespostas expressam cálculo probabilístico e não estados afetivos reais
    Uso da expressão AI slopAceita formalmenteDesigna especificamente material gerado em escala sem rigor de qualidade
    Uso da expressão vibe codingRestrita a citações diretasJargão informal para uso de IA em desenvolvimento que requer termo descritivo mais claro
    Termo hallucinationUso condicionado à explicaçãoRequer explicitar a geração de falsidades ou erros, afastando ideias de senciência

    A reação das equipes de engenharia e pesquisadores

    A postura intransigente do guia contra metáforas cognitivas deflagrou forte oposição em setores da indústria técnica. Engenheiros, ethicistas e lideranças do ecossistema de software manifestaram descontentamento, alegando que o manual comete exageros metafísicos e ignora a complexidade do vocabulário técnico contemporâneo.

    Alan Rozenshtein, membro do corpo técnico da Anthropic, expressou ceticismo em relação à assertividade ontológica do texto normativo, questionando a legitimidade de um guia de estilo ao emitir vereditos categóricos sobre questões metafísicas profundas da inteligência artificial.

    A crítica se expandiu em diferentes direções metodológicas. Henry Shevlin, pesquisador, filósofo e especialista em ética de IA na Google DeepMind, apontou inconsistência na aplicação das normas pelo jornalismo tradicional. Shevlin lembrou que a imprensa costumeiramente utiliza termos afetivos e intencionais para caracterizar personagens ficcionais inanimados, como o robô Optimus Prime da franquia cinematográfica Transformers, em análises culturais nas quais se afirma abertamente que a entidade ficcional chora ou ama. Na visão do especialista, a linguagem mentalista é comumente empregada sem que haja um compromisso literal com a crença na senciência, e manuais de estilo deveriam saber distinguir o uso de certas figuras de linguagem da adesão a crenças ontológicas.

    Por outro lado, integrantes de laboratórios pioneiros defenderam que certas capacidades alcançadas pelos modelos configuram de fato formas legítimas de cognição. Dean Ball, chefe de futuros estratégicos na OpenAI, rebateu frontalmente a tese de que esses sistemas sejam desprovidos de pensamento.

    Segundo a argumentação de Ball, se as definições do verbo pensar excluem entidades computacionais capazes de resolver problemas complexos, como os problemas do milênio no campo da matemática, a definição convencional de raciocínio é que se mostra defeituosa. A referência apoia-se em relatórios de que modelos da OpenAI teriam apresentado avanços resolutivos em problemas matemáticos célebres, ainda que tais alegações permaneçam sob constante escrutínio e controvérsia acadêmica. Ball classificou o empenho insistente em banir terminologias antropomórficas como uma postura patológica da comunicação moderna.

    Limitações conceituais e implicações para a engenharia

    O atrito entre a normatização jornalística e as práticas do setor reflete impasses técnicos e filosóficos não resolvidos. Do ponto de vista da engenharia de inteligência artificial, o vocabulário das ciências cognitivas é frequentemente adotado de maneira pragmática. Termos como memória, atenção, inferência, aprendizado e alucinação são empregados no design de sistemas sem que os desenvolvedores impliquem necessariamente a existência de senciência biológica. Contudo, ao transpor esses jargões diretamente para a esfera pública, dilui-se a fronteira entre processamento estatístico de dados e volição consciente.

    A orientação fornecida por especialistas que contribuíram com a elaboração das regras, como a editora Paula Bratton, sustenta que o papel dessas diretrizes não é atender exclusivamente a repórteres especializados em tecnologia, que já dominam o ferramental analítico, mas capacitar redactores gerais que escrevem para amplas audiências. Como os sistemas interagem de maneira convincente por meio de texto, a probabilidade de um usuário comum supor a existência de consciência funcional é alta.

    Por outro lado, o rigor terminológico impõe limitações aos próprios comunicadores. Ao suprimir verbos que denotam processamento interno, as descrições de pipelines analíticos podem tornar-se prolixas ou herméticas. Explicar como uma rede neural atua ao resolver um problema de otimização combinatória sem utilizar metáforas de reconhecimento ou compreensão exige uma ancoragem persistente em medidas de desempenho estatístico e parâmetros de precisão.

    Essa tensão conceitual tem implicações diretas sobre a segurança e governança de tecnologia. A conformidade regulatória e a avaliação de riscos dependem de como as ferramentas são apresentadas às instituições normativas. Se um sistema de software for descrito como um agente portador de vontades ou intenções, as linhas de responsabilização jurídica podem ser equivocadamente deslocadas da entidade humana que programou ou implantou a tecnologia para o próprio artefato computacional.

    Ao reiterar que sistemas digitais não são entidades sencientes e não possuem finalidades independentes daquelas definidas por seus criadores, o manual estabelece um contrapeso contra estratégias mercadológicas que tentam personificar produtos de software. Ao mesmo tempo, o embate com pesquisadores e líderes da indústria expõe como a categorização do processamento de dados permanece um território em disputa, no qual fronteiras semânticas interferem diretamente no entendimento coletivo sobre o alcance real das tecnologias computacionais.

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