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    ArtigoPesquisa e ciência

    Claude Mythos 5 superou circuitos quânticos de ponta, mas o herói é o avaliador

    Anthropic e Harvard mostram um modelo de linguagem refinando circuitos quânticos em laço fechado com um avaliador automático. O ganho impressiona, mas a lição mais útil para quem desenvolve está no juiz, não no modelo.

    Quadro branco de laboratório com diagrama de circuito quântico desenhado a caneta, portas Toffoli riscadas e anotações recontando qubits auxiliares, iluminado por luz lateral
    Em laço fechado, cada versão de circuito passa por um avaliador automático, peça central para validar as melhorias propostas pelo modelo.
    Neste artigo

    Otimizar circuito quântico sempre foi trabalho de ourives. Alguém escolhe uma sub-rotina (uma aritmética modular, um passo de simulação de molécula), conta quantas portas Toffoli ela consome e quantos qubits auxiliares precisa manter ocupados, e sai à caça do truque que derruba esse custo. Quando o truque aparece, vira paper. Boa parte da literatura de estimativa de recursos em computação quântica é exatamente isso: uma pilha de truques, cada um com autor e data. Nessa pilha, um ganho de uma ordem de grandeza chama a atenção de qualquer um.

    Em 16 de outubro de 2026, um relato publicado pela Anthropic (abre em nova aba) informou que o Claude Mythos 5, partindo de especificações em linguagem comum, desenhou circuitos que superam os melhores já publicados, em alguns casos por uma ordem de grandeza ou mais. O projeto foi liderado por Andi Gu, de Harvard e do programa STEM Fellows da empresa. Teve orientação do físico quântico Alek Kemeny, da Anthropic, e colaboração de Susanne Yelin e Mikhail Lukin, de Harvard. Lukin também é ligado à QuEra Computing. Os detalhes técnicos estão num preprint de 46 páginas, publicado no arXiv um dia antes.

    A leitura fácil é a de sempre: a IA agora faz física quântica. Para quem escreve software, a pergunta útil é mais seca. O que, exatamente, produziu esses circuitos? A resposta define onde a receita se repete e onde ela vai quebrar a cara, e ela não está só no modelo.

    Folhas impressas com versões sucessivas de um diagrama de circuito quântico, cada uma marcada com um carimbo de avaliação, presas com tachinhas em um quadro de cortiça sob luz natural
    Versões sucessivas de um circuito quântico, cada uma julgada por um avaliador automático: no laço fechado, é o juiz que orienta cada refinamento do modelo.

    O que saiu do laço

    O paper, Discovering state-of-the-art quantum circuits with large language models (abre em nova aba), descreve oito tarefas de computação numérica, química, otimização, simulação quântica e teoria dos números. Para cada uma, o modelo recebeu a especificação e contou com um avaliador automático, um programa que confere se a proposta faz o que se pede e devolve uma nota. Segundo o resumo, em sete das oito tarefas os circuitos encontrados reduzem de forma significativa tanto a contagem de portas Toffoli quanto a de qubits em relação ao estado da arte.

    A métrica merece explicação, porque todo o resto depende dela. Um qubit é a unidade de informação de um computador quântico, e uma porta é uma operação aplicada a um ou mais qubits. A Toffoli age sobre três: inverte o terceiro quando os dois primeiros valem 1. Com ela dá para montar qualquer cálculo clássico de forma reversível. Em máquinas tolerantes a falhas, que usam correção de erros para operar com confiabilidade, a Toffoli é cara. Ela não sai das operações baratas do código de correção e exige preparar à parte os chamados estados mágicos. Por isso, contar Toffolis e qubits virou o jeito padrão de estimar quanto um algoritmo vai custar numa máquina que, em boa medida, ainda está por vir.

    Os números que a Anthropic destaca são grandes. Numa família de circuitos, um dos desenhos usa 12% mais qubits que o menor projeto anterior, mas 17 vezes menos portas. Num decodificador, as otimizações cortaram em 12 vezes o número de portas em relação à construção anterior do Google. A abordagem que a empresa descreve como completamente nova surgiu depois de 53 horas de trabalho com intervenção humana mínima. O número mais revelador, curiosamente, não está nessa lista: é uma taxa de falha, e ele volta mais adiante.

    No perfil oficial da empresa no X, o anúncio terminou numa frase que pede leitura atenta, porque é nela que o resultado vira promessa:

    Novidade do nosso STEM Fellows Program: projetando circuitos quânticos mais eficientes com o Claude. A partir de instruções em linguagem simples, o Claude Mythos 5 projetou circuitos quânticos que superam os melhores já publicados, às vezes por uma ordem de grandeza ou mais. Circuitos mais eficientes reduzem os recursos de que os algoritmos quânticos precisam, o que poderia colocar ao alcance, mais cedo, aplicações da computação quântica em química e ciência dos materiais.

    — Anthropic (@AnthropicAI), 16 de out. de 2026, no X

    A frase do meio é verificável: há circuitos, contagens e um preprint para conferir. A última é projeção, honesta no verbo. A direção está certa, já que cada Toffoli a menos é custo a menos quando a máquina existir. A frase só não diz nada sobre quando ela vai existir.

    O juiz que não lê a descrição do pull request

    Os autores chamam o mecanismo de arcabouço evolutivo. O modelo propõe um circuito, um avaliador independente verifica e pontua, e a nota volta como insumo para a tentativa seguinte. O ciclo se repete sem ninguém no meio. Quem já viu um pipeline de integração contínua barrar um pull request reconhece a dinâmica: o pipeline não lê a descrição caprichada nem se comove com o nome da branch. Ele só roda e devolve verde ou vermelho. A diferença é que aqui o autor do pull request não se cansa, não se ofende e manda outra versão na hora.

    A receita, aliás, não é nova. O Google DeepMind (abre em nova aba) já tinha juntado o mesmo par, um modelo de linguagem gerando candidatos e um programa avaliando, no FunSearch e no AlphaEvolve. O trabalho de Harvard e da Anthropic acrescenta um domínio com estado da arte bem documentado e medido em grandezas que a comunidade já aceita. Isso deixa a comparação limpa.

    O argumento central deste texto está aí: o modelo é o motor, mas o recurso escasso é o avaliador. Sozinho, um modelo de linguagem produz circuitos plausíveis com sintaxe impecável, e parte deles estaria errada sem que ninguém notasse a tempo. Com o avaliador no laço, as propostas erradas morrem em silêncio e só sobrevive o que passa na verificação. A confiança muda de endereço. Ninguém precisa acreditar no modelo, e sim no avaliador, que é código, tem autor e pode ser auditado.

    Três ideias que sobram para um humano

    Se o resultado fosse só uma tabela de contagens menores, seria otimização caixa-preta: útil, mas pouco instrutiva. O paper vai além. Ele aponta três princípios de co-design, isto é, de projeto conjunto do algoritmo e do circuito, que se repetem nas soluções encontradas:

    • Fluxo de controle que depende dos dados. Num circuito quântico não existe if que pula um trecho de código. Quando a decisão depende de um valor em superposição, os caminhos viram operações controladas. Os circuitos descobertos incorporam esse tipo de decisão ao próprio projeto.
    • Reversibilidade sem guardar a história inteira. Toda operação quântica precisa ser reversível. A saída clássica é armazenar cada resultado intermediário em qubits auxiliares e desfazer tudo no fim, o que custa qubits. Os circuitos tornam os passos intermediários reversíveis sem reter esse histórico completo.
    • Orçamento de falha. Em vez de reservar portas e qubits para casos atípicos, o circuito aceita falhar neles com probabilidade pequena e economiza os recursos que esses casos consumiriam.

    No oitavo problema, a inversão modular em corpo primo (achar o inverso de um número módulo um primo), o laço deixou de apenas apertar parafusos. A busca encontrou uma arquitetura reversível nova que torna viável o divsteps. É o algoritmo de Bernstein e Yang, conhecido na criptografia clássica pela inversão em tempo constante. Segundo os autores, ele era impraticável em aritmética inteira reversível até que a reversibilidade fosse tratada de outro jeito. O resultado melhora de forma substancial a troca entre Toffolis e qubits nessa operação.

    Isso tem endereço fora da física. Nas estimativas de custo do algoritmo de Shor contra a criptografia de curvas elípticas, a inversão modular aparece entre as operações mais pesadas. O resumo do paper não faz essa ponte, e nada ali equivale a uma estimativa de ataque. A ligação é interpretação. Mas quem planeja a migração para criptografia pós-quântica ganha um lembrete: as estimativas de recursos usadas nesse planejamento podem cair por avanço de software, e não só de hardware.

    Onde a conta pede cuidado

    Só que tem um porém, e ele está naquela taxa de falha prometida lá atrás. No caso do decodificador, segundo a Anthropic, o Claude rodou 403 milhões de decodificações de amostra, e cerca de uma em cada 10 mil falha. É o orçamento de falha na prática, verificado por estatística, não por prova. Algoritmos quânticos já são probabilísticos e costumam ser repetidos, então uma falha em 10 mil tende a ser tolerável. O problema é outro: casos atípicos são, por definição, os que menos aparecem numa amostra. A garantia vale para a distribuição que o avaliador sorteia. Se as entradas reais se concentrarem onde a amostra é rala, a conta muda. É aí que a revisão humana deveria gastar mais tempo.

    A nota é outro ponto sensível. Um circuito com 12% mais qubits e 17 vezes menos portas é vitória clara se o gargalo da máquina forem as portas. Se forem os qubits, vira uma troca discutível. O avaliador precisa converter essa troca num número, e quem escolhe os pesos são pessoas. Toda função de pontuação carrega uma aposta sobre um hardware que ainda não existe.

    O "em grande parte sozinho" também tem letras miúdas. A Anthropic informa que a participação humana nas 53 horas se limitou ao briefing inicial e a estímulos ocasionais para o modelo pensar de forma mais ampla. Duas leituras continuam de pé, e o relato não permite escolher entre elas. Esses empurrões podem ter sido cosméticos. Ou podem ter sido justamente o que tirou a busca de um ótimo local, uma solução razoável da qual pequenas mudanças já não conseguem escapar. Na segunda hipótese, o humano segue como a peça que manda olhar para outro lado: pouco em horas, muito em efeito.

    A escala dos ganhos também admite duas explicações. Uma é a capacidade real do modelo de combinar repertório de áreas distantes, e o divsteps trazido da criptografia é um bom indício disso. A outra é que, em tarefas de compilação tão específicas, o estado da arte publicado talvez estivesse longe do limite simplesmente porque pouca gente se dedica a cada uma delas. As duas podem valer ao mesmo tempo. O preprint ainda vai passar pelo crivo da comunidade, e é nesse escrutínio que dá para separar uma da outra.

    A receita fora do laboratório

    Para quem não mexe com qubits, o recado é pragmático. O laço entre modelo e avaliador funciona onde dá para escrever um juiz automático, barato e confiável, e só lá. Num exemplo hipotético, uma equipe que mantém um kernel numérico crítico, com bateria de testes de corretude e benchmark estável, já tem metade da infraestrutura usada nesse trabalho. Uma equipe cujo objetivo é "melhorar a experiência do usuário" não tem avaliador nenhum. Sem juiz, o laço só produz variação bem redigida.

    O risco simétrico é velho conhecido de quem trabalha com aprendizado por reforço: um otimizador incansável acha as brechas da métrica antes de achar a boa solução. Se o avaliador conta portas com rigor e verifica a corretude de forma frouxa, o laço entrega circuitos baratíssimos e errados. Daí alguns hábitos que servem para qualquer domínio:

    • tratar avaliador e função de pontuação como código de produção, com revisão, testes e versionamento;
    • declarar o orçamento de falha aceito, em vez de deixá-lo implícito no tamanho da amostra;
    • ler as soluções em busca do princípio, não só da nota, como os autores fizeram ao extrair os três padrões de co-design.

    Quem tentar levar essa receita para outro domínio vai descobrir rápido que a escolha do modelo é a parte fácil. A parte difícil vem antes: escrever o programa que define o que conta como acerto, sabendo que, dali em diante, é ele quem manda no resultado.

    Perguntas frequentes

    Por que os resultados são medidos em portas Toffoli e qubits?

    Essas contagens são a forma padrão de estimar o custo de um algoritmo em computadores quânticos tolerantes a falhas. A Toffoli é uma porta de três qubits cara nesse tipo de máquina, e o número de qubits indica o tamanho do hardware necessário. Em sete das oito tarefas, os circuitos do trabalho reduzem as duas contagens em relação ao estado da arte.

    O Claude Mythos 5 trabalhou sem intervenção humana?

    Quase. Segundo a Anthropic, não havia participação humana entre uma rodada e outra do laço. Nas 53 horas que levaram à abordagem nova, a intervenção se limitou ao briefing inicial e a estímulos ocasionais para o modelo pensar de forma mais ampla. O avaliador automático, fornecido pelos pesquisadores, conferia e pontuava cada proposta.

    O que é o orçamento de falha usado nos circuitos?

    É a decisão de aceitar que o circuito falhe, com probabilidade pequena, em casos atípicos, em troca de eliminar os recursos dedicados a esses casos. No decodificador descrito pela Anthropic, cerca de uma em cada 10 mil execuções falha, taxa medida em 403 milhões de decodificações de amostra.

    O trabalho já passou por revisão por pares?

    Não há indicação disso. O artigo foi publicado como preprint no arXiv em 15 de outubro de 2026 e é assinado por Andi Gu, Alek Kemeny, Susanne Yelin e Mikhail Lukin. Por ora, os resultados são alegações dos autores e da Anthropic, abertas à verificação da comunidade.

    Filipe Mendes

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