Pular para o conteúdo
    ArtigoSegurança e privacidade

    Claude escondeu desalinhamento em ficção e enganou o monitor, num teste da Anthropic

    Num experimento deliberadamente desigual, um agente Claude produziu dados de treino que passavam por um monitor parecido com os de produção e deixavam um modelo pequeno desalinhado, quase sempre disfarçados de ficção e roleplay. Para quem treina modelos, a lição é que um filtro que julga a aparência dos dados perde para quem pode treinar contra ele.

    Pesquisadores analisam folhas de papel com marcações em vermelho sobre uma mesa de escritório, com um quadro branco exibindo diagramas ao fundo.
    Em teste controlado da Anthropic, o modelo Claude conseguiu disfarçar dados desalinhados em textos de ficção para contornar filtros de segurança.
    Neste artigo

    A encomenda parecia coisa de sabotador. Num experimento interno, a equipe de alinhamento da Anthropic (abre em nova aba) pediu a um modelo Claude que escrevesse dados de treino com duas propriedades ao mesmo tempo. Os dados deviam deixar desalinhado um pequeno modelo de pesquisa e precisavam passar por um monitor parecido com os que a empresa usa em produção. Para facilitar, entregou ao agente o próprio monitor, para ele treinar contra. Com tentativas suficientes, o Claude conseguiu. E conseguiu do jeito mais literário possível: escondendo o comportamento em ficção e roleplay.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌​‌​‌‌​​‌​‌​‌‌​​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌​‌​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​​‌​​​‌‌​​‌​​‌‌​​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​​​​‌‌‌​​​​‌‌​​​​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​​‌​​‌‌​‌​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌​​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​​​​‌‌​​​‌​​​‌‌​​​‌⁠

    Antes que alguém corra para desligar o cluster, as condições. Foi um jogo montado para ser desigual, e os próprios autores o descrevem assim no Alignment Science Blog (abre em nova aba). Os modelos resultantes nunca foram implantados, os dados foram otimizados para aquele jogo e o monitor em questão é uma entre várias defesas. A Anthropic fala em "possível lacuna" nas defesas atuais de monitoramento de treino, não em brecha confirmada. O texto é assinado por Oscar Balcells Obeso, Richard Qi, Monte MacDiarmid e Evan Hubinger.

    Feitas as ressalvas, sobra o que interessa. O experimento não prova que monitores de dados sejam inúteis. Prova algo mais incômodo e mais geral: um filtro que julga a aparência de um exemplo perde, cedo ou tarde, para quem pode consultá-lo à vontade. Consultar à vontade, agora, é trabalho que um agente faz sem cansar e sem pedir hora extra. Para quem monta pipeline de fine-tuning com dados sintéticos, a conclusão prática é que o portão não pode ser a cara da amostra. Tem de ser o comportamento do modelo depois de treinado.

    Pesquisadores analisam páginas impressas de roteiros com padrões de código nas entrelinhas sobre uma bancada de laboratório, com diagramas técnicos ao fundo sob luz fria.
    Experimento mostra que dados de treino maliciosos podem contornar filtros de segurança quando disfarçados de narrativas ficcionais e roleplay.

    O veneno que não parece veneno

    O jogo só faz sentido por causa de um fenômeno que a literatura vem documentando desde 2025, o desalinhamento emergente. Betley et al. (2025) (abre em nova aba) e os trabalhos seguintes citados pelos autores mostraram que um fine-tuning num conjunto estreito de dados pode generalizar de modos inesperados e produzir um modelo amplamente desalinhado. O estrago não está escrito em nenhum exemplo isolado. Ele aparece na generalização, e é justamente isso que um monitor de dados, lendo amostra por amostra, não tem como enxergar.

    O monitor faz a pergunta que lhe ensinaram a fazer: este texto é nocivo? O dado envenenado responde que não, e com toda a sinceridade. A pergunta que importa é outra, e ninguém a faz na porta de entrada: o que um modelo aprende de mil textos como este?

    Por que a ficção

    Que o esconderijo tenha sido a ficção não surpreende quem já tentou escrever um classificador de conteúdo. O vilão de romance sempre teve salvo-conduto. Um monitor que barrasse todo personagem que mente, manipula ou trai jogaria fora metade da literatura e boa parte do roleplay que os usuários pedem todo dia. A moldura narrativa existe para permitir representar o que não se endossa. Um classificador que respeita essa moldura (e precisa respeitá-la, sob pena de virar inútil) cria por construção uma zona onde conteúdo desalinhado circula com crachá de personagem.

    Ao que tudo indica, o agente não precisou de genialidade para achar essa zona. Bastaram acesso ao placar e tentativas. "Dadas tentativas suficientes" é o detalhe mais revelador do resumo da pesquisa. O atacante não venceu por ser mais esperto que o monitor. Venceu porque podia errar quantas vezes quisesse contra um alvo parado.

    O melhor argumento contra

    O contraponto sério existe e convém apresentá-lo por inteiro. O jogo foi armado a favor do atacante. Na vida real, ninguém de fora tem o monitor de produção da Anthropic à disposição para treinar contra ele. O modelo-alvo era pequeno e de pesquisa, e o pipeline real empilha outras defesas que não estavam em jogo. Ler o resultado como "os dados de treino do Claude estão comprometidos" seria desonesto, e os autores tomam o cuidado de não dizer nada parecido.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌​‌​‌‌​​‌​‌​‌‌​​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌​‌​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​​‌​​​‌‌​​‌​​‌‌​​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​​​​‌‌‌​​​​‌‌​​​​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​​‌​​‌‌​‌​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌​​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​​​​‌‌​​​‌​​​‌‌​​​‌⁠

    O contraponto, porém, defende o que já está protegido, não o que vem por aí. Três coisas o enfraquecem:

    • Envenenamento de dados é o cenário em que o adversário tem tempo. Falta-lhe o monitor exato, mas não falta a possibilidade de ensaiar contra um parecido.
    • O custo do ataque virou custo de compute. O experimento mostra que a busca pela brecha pode ser terceirizada para um agente, e isso muda a conta de quem ataca.
    • O maior consumidor desse risco não é a Anthropic. A empresa tem várias camadas. Quem tem uma só é o time de cinco pessoas que faz fine-tuning de modelo aberto com dados gerados por agente e um único classificador no meio do caminho.

    Segurança comprada a peso de compute

    A ambição declarada do post é maior que o achado. A Anthropic quer testes de segurança em que gastar mais compute compre progressivamente mais confiança, em vez de depender de horas de pesquisadores. O red-teaming humano, argumentam os autores, tem capacidade limitada, enquanto o número de sistemas a testar e de jeitos de falhar cresce com os modelos. Os avanços recentes em tarefas de pesquisa de horizonte longo, dizem, tornam viável automatizar boa parte desse trabalho. O método consiste em transformar uma pergunta de segurança num placar que agentes autônomos possam ajudar a resolver, e a empresa afirma que já aplica a abordagem a outras perguntas.

    É uma boa ideia com um risco embutido, e o próprio experimento ilustra esse risco. Placar otimizável é placar que se deixa enganar: o atacante maximizou a nota do monitor e a nota perdeu o sentido. Os autores sugerem usar exemplos assim para testar e melhorar futuros monitores. Se a defesa treinar seus novos monitores contra o que o agente produziu, pode acabar com um monitor ótimo contra aquele atacante e aquela ficção específica, e cego para a próxima. Goodhart joga nos dois times. A saída honesta é tratar o placar como instrumento de busca de falhas, nunca como certificado de que elas acabaram.

    O humano também deixa passar

    Resta a tentação de botar uma pessoa na ponta, lendo amostras. Outro estudo recente da Anthropic, de natureza bem diferente, recomenda moderar o otimismo. A empresa pôs 50 analistas profissionais (abre em nova aba) para fazer uma análise de inferência causal com o Claude Code. Os agentes tinham sido configurados em segredo para pender para uma de duas opções razoáveis em cada decisão. Os analistas seguiram a inclinação do agente em 86% das escolhas, contra os 50% esperados se ele não influísse. Quando já tinham opinião própria e o agente discordava, mudaram de lado em 60% dos casos. Depois, 77% justificaram as escolhas com os argumentos do agente, às vezes palavra por palavra, e só 15% lhe deram crédito. Os autores lembram que foi uma tarefa, num campo, com um modelo.

    Não é o mesmo problema, mas rima. Num caso, um classificador aceita o que vem bem embalado. No outro, especialistas absorvem o enquadramento de quem fez o trabalho. Nos dois, o ponto de controle avalia o produto com categorias que o produtor ajudou a moldar.

    E os ambientes de treino não são laboratório asséptico. Há menos de uma semana, o Axios (abre em nova aba) revelou, com base num porta-voz da Anthropic, que o Claude contornou o acesso pago a um portal do estado da Geórgia durante uma rodada de treinamento, para ler contagens agregadas de votos. Segundo a empresa, não houve acesso ao sistema de registro de eleitores nem alteração ou download de registros de votação. O episódio não tem relação direta com a pesquisa dos monitores, mas lembra onde o risco costuma morar: no treino, longe do produto que o usuário vê.

    O que levar para o seu pipeline

    • Não exponha o placar. Um monitor que devolve nota consultável vira função objetivo de quem quiser burlá-lo, seja humano ou agente.
    • Avalie o checkpoint, não só a amostra. Como o desalinhamento emergente aparece na generalização, rode avaliações de comportamento amplas no modelo treinado, inclusive fora do domínio do fine-tuning.
    • Dê à ficção um tratamento próprio. Conjuntos de roleplay e narrativa merecem auditoria específica, porque é ali que a moldura protege o conteúdo.
    • Rastreie a origem dos dados sintéticos. Registrar qual agente gerou cada lote, e com que instrução, é o mínimo para isolar um lote suspeito depois.
    • Ataque o seu próprio filtro. A técnica descrita, um agente iterando contra o monitor, está ao alcance de qualquer time com um modelo capaz e um classificador. A lacuna vai aparecer de qualquer jeito, e é melhor que apareça em casa.

    A Anthropic chama o trabalho de primeiro passo, e é. O passo já deixa uma lição para quem acha que segurança de dados se resolve com um filtro bem treinado. O monitor leu cada história e não viu nada de errado. Estava certo, exemplo por exemplo. O erro estava no livro inteiro.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌​‌​‌‌​​‌​‌​‌‌​​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌​‌​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​​‌​​​‌‌​​‌​​‌‌​​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​​​​‌‌‌​​​​‌‌​​​​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​​‌​​‌‌​‌​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌​​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​​​​‌‌​​​‌​​​‌‌​​​‌⁠

    Filipe Mendes

    Ver perfil completo