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    ArtigoSociedade e regulação

    AI vira SI no governo dos EUA: o que muda de verdade para desenvolvedores

    Ordem executiva de 29 de setembro de 2026 manda o poder executivo dos EUA usar 'Super Intelligence' e 'SI' no lugar de 'Artificial Intelligence' e 'AI' em documentos não estatutários. A definição legal de IA não muda, mas a medida cria mapeamento de terminologia para quem documenta, pesquisa ou vende para o governo americano.

    Filipe Mendes

    9 de out. de 2026 · 7 min de leitura

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    A expressão "inteligência artificial" tinha setenta anos de estrada quando o governo que a fixou em lei resolveu aposentá-la do próprio vocabulário. A ordem executiva 14434, assinada pelo presidente Donald Trump em 29 de setembro de 2026, abre reconhecendo que cientistas americanos deram nome ao campo. Poucos parágrafos depois, manda o poder executivo dos Estados Unidos escrever "Super Intelligence" e "SI" onde antes se lia "Artificial Intelligence" e "AI", e deixa de reconhecer os termos antigos em qualquer contexto aplicável do governo.

    Para quem desenvolve sistemas, mantém documentação técnica ou vende para agências americanas, a pergunta relevante não é estética. É operacional: o que uma renomeação por decreto alcança, onde ela para e que atrito de terminologia ela cria em contratos, padrões e pesquisa regulatória. A resposta curta: menos do que o anúncio promete, mais do que zero.

    Como o nome novo nasceu

    O anúncio veio antes do decreto. Em 22 de setembro, em discurso na Assembleia Geral da ONU (abre em nova aba), Trump disse que a palavra "artificial" faz a inteligência soar falsa, quando a tecnologia seria "de fato incrível", e prometeu a troca:

    "From this point forward, all of United States documents, and hopefully the world, will be changed to use the much more accurate term 'super,' as opposed to 'artificial'." (Donald Trump, na ONU, em 22 de setembro de 2026)

    No mesmo discurso, ele rejeitou "qualquer tentativa de construir um esquema globalista" para controlar a área.

    Uma semana depois, a ordem executiva 14434 (abre em nova aba) transformou a fala em política. O texto manda os órgãos do executivo usar os termos novos em correspondência oficial, comunicações públicas, sites, relatórios e documentos de política, "na máxima extensão permitida por lei", e estabelece como diretriz da administração não reconhecer o uso de "Artificial Intelligence" e "AI". A folha de fatos publicada pela Casa Branca acrescenta uma pendência importante: o assessor de ciência e tecnologia da presidência (APST) deve propor uma definição federal de "Super Intelligence" e apontar ações adicionais para implementá-la. É a válvula aberta para que, adiante, SI venha a significar algo diferente de IA.

    A adoção interna já começou. Segundo reportagem de 9 de outubro do The Verge (abre em nova aba), o centro federal que nasceu como AI Safety Institute e já tinha virado CAISI (Center for AI Standards and Innovation) virou agora Center for Advancing Innovation and Standards for Super Intelligence, ou CAISSI. Comunicados do Departamento de Justiça passaram a descrever um caso de fraude em streaming como "Super Intelligence-Assisted Music Streaming Fraud". Em 8 de outubro, ainda segundo o The Verge, Trump declarou que a Casa Branca "considera inimigo" quem usar o termo antigo em vez do "novo e mais preciso".

    O que o texto manda, exatamente

    Ordem executiva é instrumento do presidente para orientar a própria administração; não altera lei. E a 14434 é explícita com esse limite.

    Onde a troca valeOnde a troca não vale
    Correspondência oficial, comunicações públicas, sites, relatórios e documentos de política do poder executivoRegulações já emitidas, ações presidenciais anteriores, contratos, grants (financiamentos federais) e documentos históricos
    Aplicação "na máxima extensão permitida por lei"Estatutos aprovados pelo Congresso, que só mudam por lei

    A seção de definição é a mais reveladora. Para os fins da ordem, "Super Intelligence" e "SI" significam os sistemas abrangidos por "artificial intelligence" tal como definido na seção 9401(3) do título 15 do Código dos EUA, a lei federal de IA de 2020. Na tradução livre, a lei cobre sistemas baseados em máquina que, para objetivos definidos por pessoas, fazem previsões, recomendações ou decisões que influenciam ambientes reais ou virtuais. A ordem criou um alias: renomeou a variável sem mudar o tipo ou o valor. O apontador continua no mesmo objeto.

    A ironia é estrutural. O texto manda não reconhecer o termo antigo, mas precisa convocá-lo para delimitar o novo: sem a definição estatutária de "artificial intelligence", "Super Intelligence" não significa nada no papel. Para o praticante, a consequência é dupla. Nenhum conceito novo foi criado, nenhum limiar de capacidade foi acrescentado, nenhum regime de conformidade surgiu. Ao mesmo tempo, o rótulo novo passa a conviver com setenta anos de literatura, normas e contratos escritos com o rótulo antigo.

    Onde o nome novo colide com o vocabulário técnico

    • Com "superinteligência" mesmo. No vocabulário consolidado da área, superinteligência é uma hipótese específica: um sistema que superaria os melhores humanos em praticamente todas as tarefas cognitivas, cenário discutido desde o livro Superintelligence, de Nick Bostrom (2014), e central no debate sobre risco existencial. A taxonomia corrente separa IA estreita, AGI (inteligência geral artificial, o sistema hipotético com capacidade ampla comparável à humana) e superinteligência. A ordem amassa as categorias num rótulo só: pela definição adotada, um classificador de spam é "Super Intelligence" na comunicação de uma agência.
    • Com a sigla. Em qualquer sala de engenharia, SI é o Sistema Internacional de Unidades. Documentos federais americanos vão conviver com os dois sentidos, e o churn institucional agrava a confusão: AISI virou CAISI, virou CAISSI.
    • Com a busca. Se agências passam a escrever só "SI", quem pesquisa regulação, padrões e editais com "AI" perde recall, e quem busca "SI" herda ruído de unidades de medida e siglas antigas. Em vocabulários controlados, o caminho é tratar SI como rótulo alternativo (altLabel) do conceito de IA, não como conceito novo.
    • Com os padrões internacionais. O vocabulário ISO/IEC 22989, a Lei de IA europeia e a literatura seguem com "artificial intelligence". Fornecedor global pode acabar mantendo dois glossários: o do comprador americano e o do resto do mundo.

    A renomeação não vem sozinha, e a trajetória do instituto federal mostra a direção: o órgão que se chamava AI Safety Institute trocou "Safety" por "Standards and Innovation" antes de ganhar o SI no fim. Na cobertura do The Verge, o presidente trata riscos de segurança como exagerados, defende acelerar a construção de data centers e critica autorregulação da indústria. Trocar o nome faz parte de vender aceleração.

    O que o decreto não alcança

    Trump mediu o próprio poder no discurso da ONU, segundo a transcrição publicada pelo The Verge (abre em nova aba): "Vamos ver se eu tenho poder. Talvez tenha, talvez não; vamos descobrir em breve." O executivo americano pode trocar o rótulo nos próprios papéis. Não pode trocá-lo no resto.

    Nome não se muda por decreto. O Congresso continua escrevendo "artificial intelligence" nos estatutos. A academia segue publicando com "AI". A ISO não reabre padrão porque o humor de um governo mudou. E a expressão tem inércia própria: John McCarthy a escolheu no projeto que virou o Workshop de Dartmouth, em parte para distinguir o campo da cibernética, e ela sobreviveu a invernos, febres e críticas ao "artificial".

    O precedente doméstico existe e é instrutivo. Em 2025, outra ordem executiva renomeou o Golfo do México como "Golfo da América" para o uso federal; portais oficiais mudaram, editoras e serviços de mapa divergiram sobre seguir. O que um decreto amarra é o emissor. A avaliação do The Verge é de que a batalha linguística escolhida é difícil; parte da indústria acompanha, mas adoção fora do governo depende de uso, não de ordem. E ordem executiva é reversível: terminologia como política dura o que durar a assinatura.

    E o Brasil?

    No vocabulário, nada muda. O PL 2338/2023, aprovado no Senado em dezembro de 2024, escreve "inteligência artificial", como escrevem os padrões ISO que o país adota. O efeito prático se concentra em quem exporta, documenta ou presta serviço ao executivo americano.

    Sobra uma armadilha de tradução. Localizar "Super Intelligence" como "superinteligência" em contexto técnico brasileiro invoca a hipótese de Bostrom, não a sigla burocrática americana. O termo deve ser tratado como jargão federal dos EUA, com nota de contexto, e o resto do fluxo continua IA.

    Perguntas frequentes

    A ordem executiva muda a definição legal de IA nos Estados Unidos?

    Não. A seção de definição da ordem amarra "Super Intelligence" e "SI" ao conceito de "artificial intelligence" da seção 9401(3) do título 15 do Código dos EUA, a lei federal de IA de 2020. Estatutos só mudam por votação no Congresso.

    Empresas e pesquisadores são obrigados a usar "Super Intelligence"?

    Não. A ordem vale para documentos não estatutários do poder executivo, "na máxima extensão permitida por lei", e o próprio texto dispensa a alteração de regulações, contratos, grants e documentos históricos já emitidos.

    O que muda para quem vende ou documenta software para o governo americano?

    Comunicações e documentos novos das agências podem adotar SI; a mudança já aparece na CAISSI e em comunicados do Departamento de Justiça. O caminho prático é manter glossário de mapeamento e espelhar a terminologia do edital em respostas futuras.

    O Brasil ou as normas internacionais vão adotar o termo?

    Não há indicação disso. A regulação brasileira, a Lei de IA europeia e vocabulários como o ISO/IEC 22989 seguem com "inteligência artificial" e "artificial intelligence". O efeito se limita aos documentos do executivo americano.

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